\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sábado, maio 12, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

Não quero invadir, de modo algum, os terrenos que o amigo Luís Filipe Meira neste blog percorre, com uma autoridade pela qual manifesto o maior respeito. O que aqui pretendo deixar é, apenas, a partilha de umas páginas de memórias pessoais, onde a música constitui o denominador comum.
Sou, perante a arte dos sons, um autêntico especialista de ideias gerais, isto é, gosto intuitivamente de géneros, temáticas ou intérpretes tão diversos que em nada me distingo de um simples e vulgar amador da música. Esta “brilhante” confissão abarca um impressionante universo, que vai das sinfonias clássicas ao popular folclore, das faixas ditas de intervenção ao fado castiço, de (algumas) interpretações electrónicas às árias de ópera, da música militar ao mais étnico “exotismo”... Tenho, como é óbvio, as minhas predilecções, mas seria tão extensa a sua lista que certamente se tornaria injusta pelas omissões cometidas. Pronto, estou devidamente apresentado.
 Tudo começou em Évora, num ano feliz ainda com ecos de Abril, continuou depois em Berlim e terminou agora em Nova Iorque, sempre embalado nos compassos duma música de fundo preenchida por comboios e outros ritmos.
Há mais de trinta anos, frequentei em Évora um curso de animação cultural, virado sobretudo para a intervenção em museus e outros espaços artísticos. Um dos meus companheiros lagóias foi o Aurélio Bentes que certo dia, como fundo musical para um trabalho colectivo em que então nos empenhávamos, propôs uma faixa de um grupo alemão do qual nunca eu tinha ouvido falar, os Kraftwerk. Essa interpretação, denominada Trans-Europe Express, constituiu para mim uma verdadeira revelação, surgindo perante a minha sensibilidade como uma música inspirada, feita de sons electronicamente sintetizados que desempenhavam uma perfeitíssima função onomatopaica e dominavam uma melodia repetitiva, quase minimalista mas convincente e rigorosa, no contexto de uma letra eficaz, embora reduzida ao mínimo essencial.
Fiquei tão vivamente impressionado que uma das tarefas pessoais posteriores consistiu na prioritária pesquisa de informação sobre aquela banda musical alemã, com origem em Düsseldorf. Aprendi então tanto quanto me foi possível sobre o seu pioneirismo, sobretudo a partir de 1974, ano de apogeu, o qual se manteve apesar de uma discreta e prolongada presença-ausência, praticada nos últimos anos do século XX. Ao mesmo tempo, tentava compensar a minha anterior falha de conhecimento, com a aquisição dos álbuns do grupo que tinha até então ignorado. Posso acrescentar que algumas então modernas  “ideologias” musicais -dos house aos techno- nenhum interesse em mim tinham até aí despertado, pelo que as criações dos Kraftwerk, à medida que as ia descobrindo e apreciando, constituiram a prova de que as tecnologias electrónicas também podem assumir-se, afinal, como extensões quase naturais da criatividade humana nos domínios sonoros.
Já não posso recordar, com rigor, qual a ordem pela qual fui conseguindo organizar a colecção desses CD’s, mas juntei Man-Machine, Trans-Europe Express (o tal!), Radio-Activity, Autobahn e Showroom Dummies (uma colectânea).

Entre 2000 e 2002, a pretexto da intervenção num festival internacional de Cinema de Ambiente, o EcoMove, desloquei-me por diversas vezes a Berlim. Entretanto, por uma feliz coincidência, os Kraftwerk tinham “acordado” da sua letargia, tendo composto o hino oficial da Expo Hannover 2000. Consegui então, nas discotecas alemãs, completar a totalidade dos registos do grupo, adquirindo títulos como Electric Café, Computer World, The Mix, Tour de France e o novíssimo Expo 2000. Já em Portugal, conseguiria depois o Tour de France – Soundtracks.
A banda entrara em novo e curto período de “hibernação” até uma digressão que a levaria, com pleno êxito, aos quatro cantos do Mundo. Dessa triunfal jornada, vivida em 2004 e incluindo Portugal, resultariam no ano seguinte um CD e um DVD notáveis, onde foi recapitulada a longa série das suas mais populares interpretações: Minimum-Maximum.
Parecia ter ficado por aqui a carreira dos veteranos músicos alemães, com elenco entretanto alterado por diversas vezes, até que, muito recentemente, neste último Abril, aconteceu uma nova “ressurreição”.
Esta pode considerar-se como a autêntica consagração de uma vida e de uma obra. Como efeito, parece ter sido a primeira vez que um dos mais prestigiados museus mundiais, o MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque) abriu as suas portas a um concerto musical deste tipo. Conheço o belo espaço artístico, embora não o considere ao nível de outros similares como, para citar apenas os que já visitei nos EUA, o Metropolitan, também de NY, e sobretudo o impressionante conjunto museológico do Smithsonian Institut, em Washington. Talvez isto aconteça porque não sou um incondicional apreciador do design, que é o “forte” do MoMA, pois até recordo a emoção pessoal provocada pelo encontro com algumas obras originais de Vincent van Gogh, Marc Chagall, Paul Cézanne ou Pablo Picasso -sobretudo destes génios da pintura- que ali se encontram, entre muitas outras.
Voltando aos Kraftwerk, a sua perfomance audiovisual foi apresentada em oito dias consecutivos, segundo uma retrospectiva dedicada aos álbuns fundamentais do grupo. Posso imaginar o vasto átrio do museu, dotado de um impressionante pé-direito, cheio de gente vibrando ao ritmo do poderoso som electrónico e à frenética sucessão das imagens projectadas em 3 dimensões.
O sucesso, segundo as críticas mais exigentes, foi total. E isso deixou-me outra consoladora confirmação, a de que a faixa entre todas minha favorita, Trans-Europe Express (na sua versão de 1977), fora considerada como o mais lendário e notável de todos os registos dos Kraftwerk, nos “tops” da história do hip-hop e da música electro e techno.
Afinal, também aqui, não há amor como o primeiro. Este comboio-expresso, talvez um TGV, percorreu comigo uma longa tirada, sentimental, entre Évora, Berlim e Nova Iorque, recapitulando nestas etapas alguns inesquecíveis capítulos da minha própria vida.
E agora fico atento ao prometido novo álbum dos Kraftwerk (talvez o derradeiro), previsto para os finais deste ano.
António Martinó de Azevedo Coutinho
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