\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

terça-feira, abril 17, 2012

Luís Filipe Meira

Wraygunn no CAEP

A Estrada Perdida

Foi há alguns anos atrás, o Dr. Mário Soares era Presidente da República e dedicou uma das suas presidências abertas ao interior do país, percorrendo algumas capitais de distrito para, numa política de proximidade, se inteirar dos problemas inerentes à interioridade. A piada – se é que tem alguma – é que a presidência aberta começou em Beja, seguiu para Évora e saltou para Castelo Branco, deixando Portalegre a caçar gambozinos. Cito a história de memória e se bem me recordo falou-se na altura, que a ação foi desviada por um assessor portalegrense de Mário Soares, que não tinha boas relações com as autoridades locais da época. Este pequeno episódio é apenas um exemplo entre muitos similares, sobre esta cidade situada à beira duma estrada perdida a caminho de nenhures, cuja auto estima já viu melhores dias e que também já pouco se preocupa com aqueles que por aqui ainda se vão perdendo.
Este episódio ocorreu-me na noite do último sábado, ao entrar no grande auditório do CAEP, para assistir ao concerto dos Wraygunn de apresentação de L´Art Brut, o novo álbum do grupo de Paulo Furtado e deparar com uma sala desoladoramente vazia em confronto com um palco cheio de instrumentos. Não acredito que em Portalegre não haja duas, três ou mesmo quatro centenas de pessoas que gostem de rock´n´roll a sério e possam gastar dez euros num bilhete. Afinal os Wraygunn, a banda de Paulo Furtado a.k.a The Legendary Tiger Man, têm 1 EP e 4 álbuns, já andam há 13 anos na estrada, aqui e lá fora, e não devem nada, antes pelo contrário, aos Velosos, Xutos & Cº Lda. Pois são muito mais genuínos como o disco L´Árt Brut o prova à saciedade. L´Art Brut não é Arte Bruta mas sim uma espécie de “busca do Paraíso” como os próprios Wraygunn o definem. É um disco mais contido, mais subtil que o anterior Shagri-La mas, ainda assim um disco de puro rock´n´roll, onde uma poderosa secção rítmica - bateria, percussão, baixo e guitarra - prepara o campo de explosão para as divagações da guitarra e a agressividade da voz de Paulo Furtado, sendo tudo isto polvilhado ou equilibrado, se quiserem, pela soul nas vozes de Raquel Ralha e Selma Uamusse.
E chegamos ao concerto. Sala quase vazia, talvez um quinto da lotação, o palco ocupado por 7 músicos que ignorando a frieza da sala, avançaram como se a lotação estivesse esgotada.
Paulo Furtado reconhece que L´Art Brut é um álbum muito fácil de transpor para o palco, porque é simples, direto e foi quase todo gravado “live” no estúdio. Foi o que assistimos no passado sábado no CAEP, a transposição para palco dum magnífico álbum, o que só poderia terminar num magnífico concerto onde Paulo Furtado ainda deixaria a sua marca pessoal, invadindo a plateia e quase obrigando as pessoas a saltarem para a frente do palco e dançarem. Afinal estávamos num concerto de rock´n´roll…
O concerto, conforme disse, foi magnífico, a dúvida que me fica é se os Wraygunn num futuro próximo irão encontrar a Estrada Perdida para um regresso a Portalegre. E aqui cabe-me fazer votos para que esta cidade não desapareça num vortex temporal, como aconteceu a Pete Dayton no filme de David Lynch, “A Estrada Perdida”…

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