\ A VOZ PORTALEGRENSE: Abril 2011

sábado, abril 30, 2011

Mário Silva Freire

UM CAMINHO UM POUCO MAIS ESTREITO

Desde Março de 2009 que sou colaborador assíduo de “A Voz Portalegrense”. E esse facto deve-se ao convite amável, de vez em quando renovado, que o gestor deste blog, Mário Casa Nova Martins, me ia fazendo. Não pude resistir, tanto mais que, para mim, escrever é também uma necessidade e esta poderia ser satisfeita, parcialmente, com esta colaboração.
Aqui tive oportunidade de dar opinião sobre situações referentes à cidade de Portalegre, reflectir sobre temas diversificados ligados aos valores, como sejam os da solidariedade, da religião, da paz. Foi aqui que prestei a minha homenagem a pessoas amigas que deixaram rastro e que para sempre se separaram de nós. Foi neste espaço que dei as minhas razões que justificam a alteração do paradigma em que vivemos, que fomenta o consumo, visa desesperadamente o lucro, prejudica a Natureza e, principalmente, lesa os que mais precisam.
Ora foi neste blog que mantive uma coluna semanal sobre educação, sector que absorveu, praticamente, toda a minha vida. Nela expus as minhas ideias sobre o que penso a respeito deste espaço da vida da sociedade. E essas ideias resultaram não só de leitura mas, também, da minha experiência de professor com mais de 42 anos de serviço em níveis de ensino diferentes e do convívio, quase quotidiano, que vou mantendo junto de adolescentes em situação de aprendizagem. Julgo ter sabido o que se passava na escola, enquanto professor no activo, e hoje tenho, igualmente, uma representação do que é a escola dos nossos dias, obtida, é certo, por via indirecta e, por isso, com muitas lacunas, mas com a nitidez suficiente para poder expressar opiniões não desinseridas do contexto de onde elas emergem.
Pois bem, é a escola e a educação que me desafiam, agora na companhia de um outro amigo e companheiro da mesma jornada, a criarmos e inserirmos as nossas produções num espaço internet tematicamente mais específico. Essa a razão que deixarei, pelo menos com a assiduidade que tinha mantido até agora, de escrever na Voz Portalegrense.
Ao Mário Casa Nova Martins expresso toda a minha admiração pela maneira como se tem empenhado em servir a causa pública, ao mesmo tempo que sempre acolheu e respeitou as convicções dos outros. Ele, pondo o seu nome no blog, exigiu um patamar de seriedade a todas as produções (e comentários!) e revelou um sentido ético que, nos nossos dias, já é moeda pouco frequente.
Este texto não é de despedida; ele anuncia, apenas, o desejo de agora trilhar um caminho um pouco mais estreito, mas sem perder de vista aquele que estava a ser calcorreado.
Para ti, Mário, dir-te-ei, simplesmente, até breve e obrigado.

António Martinó de Azevedo Coutinho

OUTRO PONTAPÉ NA CRISE

As estatísticas da bola – Parte Dois

Nisto, como em alguns outros universos do quotidiano, também há recaídas. Agora, no dia seguinte à histórica vitória do Barcelona versus o aportuguesado Real Madrid, desta vez no mundo da Champions, novamente deparei com outra estatística sobre o comportamento comparado dos maiores monstros em compita -Ronaldo e Messi- patente em dois diários, os do costume.
Embora partindo do lógico princípio de que a estatística pertence ao domínio das ciências exactas e de que os seus resultados merecem, por isso, a devida credibilidade, dei-me ao trabalho de confrontar os dados disponíveis, agora com indisfarçável desconfiança, dada a recente experiência.
Nada terei acrescentado, entretanto, aos meus parcos conhecimentos de ciência futebolística, mas domino -ou julgo dominar!- os seus rudimentos mais básicos: o que é um golo, um passe certo ou errado, uma falta cometida ou sofrida, uma assistência, um fora de jogo, um pontapé certeiro ou falhado, etc., etc., etc.
Mas a conclusão apenas confirmou os meus mais secretos receios. Uma vez mais, as coincidências estatísticas ficariam resumidas aos golos e às assistências. O resto continuou mergulhado no mais delirante e surrealista registo divergente...
A conclusão mais óbvia, que aqui fica devidamente declarada, é a de que jamais perderei um segundo sequer do meu futuro tempo de ócio a ler estatísticas da bola.
No entanto, as minhas reflexões, desta vez, foram um pouco mais longe.
Este processo de comparação entre vedetas talvez devesse ser transplantado do mundo do futebol para um outro mundo, na maior parte das vezes também recheado de pontapés nas canelas do adversário, de flagrantes situações de fora de jogo, de jogadas subterrâneas, de faltas de respeito para com as regras do jogo, para com os árbitros e até para com os indefesos espectadores. Embora também aqui se registem fabulosos prémios de jogo, cunhas, luvas e contratos milionários, dirigentes incompetentes, irresponsáveis e caquéticos, equipas com comportamento amador onde se exigia um rigoroso profissionalismo, promessas sem limites religiosamente proferidas no acto de assinatura dos compromissos e logo esquecidas ou violadas, pedradas, comunicados e lançamento de outros petardos, conferências de imprensa, violentas claques devidamente organizadas, adeptos crédulos qb, árbitros míopes e corruptos e até frequentes mudanças -cirúrgicas- de camisola, embora, em suma, as semelhanças sejam óbvias, este outro “jogo” paralelo ao da bola é o da política (central ou provinciana), tal como entre nós se vive e se entende. Dizem que, tal como no futebol, há países onde esta prática é diferente. Diferente para melhor, entenda-se! Dizem...
Porém, neste jogo à portuguesa, infelizmente, nem sequer existem cartões amarelos ou vermelhos, que bem precisos seriam para moralizar um pouco as constantes jogadas deliberadamente executadas à margem da lei... Ninguém por aqui é penalizado por ser incompetente ou perjuro, mesmo quando falha a marcação de uma grande penalidade legislativa, quando concede um frangalhão executivo de todo o tamanho ou quando comete um auto-golo judicial sem pés nem cabeça, metido com a mão...
Mas voltemos à sugestão: comparar as vedetas políticas, ainda que segundo a mesma “competência” profissional patente nos delirantes exemplos futebolísticos em apreço. Aqui fica um exemplo, modelo elaborado ao acaso sem qualquer rigor especial, dedicado aos dois nomes cimeiros do actual universo político indígena: um credenciado veterano e uma jovem promessa...
Ao contrário do que possa pensar-se, não há nada de inocente nesta proposta. O seu mais fundado objectivo consiste em serem eventualmente divulgadas tão convincentes estatísticas alusivas que algum poderoso e rico “clube” estrangeiro assuma a iniciativa de importar a peso de ouro pelo menos uma destas vedetas -ou mesmo as duas- assim aliviando o nosso défice, e talvez -quem sabe?- dispensando até o recurso ao FMI.
Não foi assim com o Figo, com o Mourinho e com o Ronaldo? E, agora, isto não seria mesmo um valente pontapé na crise?!
António Martinó de Azevedo Coutinho

quinta-feira, abril 28, 2011

Maria Leal da Costa

Exposição de escultura de Maria Leal da Costa em Barcelos
Dia 30 de Abril pelas 18h30

Galeria Municipal de Arte de Barcelos
O Presidente da Câmara Municipal de Barcelos, Miguel Costa Gomes, tem o prazer de vos convidar para a inauguração da minha exposição de escultura intitulada IKEBANA, a apresentação será feita pela escritora Clara Macedo Cabral.
Será servido um vinho Ervideira.
Gostava muito de estar convosco neste dia,
Maria Leal da Costa
(A exposição vai estar patente até 16 Junho de 2011)
Facebook Maria Leal da Costa
Facebook Quinta do Barrieiro
30th April, at 6.30 p.m

Municipal Art Gallery of Barcelos, Portugal
The President of Barcelos Municipality, Miguel Costa Gomes, is pleased to invite you to the opening of my sculpture exhibition entitled IKEBANA, the presentation will be made by the writer Clara Macedo Cabral.
Ervideira wine will be served
See you there
Maria Leal da Costa
(The exhibition will be available from June 16th, 2011)
Facebook Maria Leal da Costa
Facebook Quinta do Barrieiro

quarta-feira, abril 27, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

UM PONTAPÉ NA CRISE

As estatísticas da bola

Já já vai o tempo em que lia, deliciado, a nossa imprensa desportiva. Mantenho uma lembrança muito positiva da grande qualidade, até mesmo literária, dos mestres da escrita desportiva indígena. Antes de se tornar um tendencioso pasquim, preocupado com rivalidades jornalísticas mais do que com a ética desportiva, A Bola era denonimada A Bíblia. Com todo o apreço pela respeitável obra religiosa, creio que aquele epíteto até tinha algo de justo e adequado.
Nos seus memoráveis anos de ouro, quando era um tri-semanário em saudável rivalidade com O Mundo Desportivo, sobretudo nos inícios da segunda metade do passado século, A Bola exibia nas suas páginas notáveis peças -reportagens, crónicas, fotografias, críticas o outros artigos de opinião- assinadas por grandes nomes do jornalismo nacional. De memória, e provavelmente até cometerei por omissão alguma injustiça, recordo Cândido de Oliveira, Tavares da Silva, Vítor Santos, Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Alfredo Farinha, Cruz dos Santos, Carlos Miranda, Homero Serpa...
A Bola não era, apenas, um jornal desportivo, pois chegou a constituir um verdadeiro embaixador nacional junto dos núcleos de emigrantes no estrangeiro, uma apreciável escola prática de jornalismo, enfim, um repositório do melhor que se escrevia em língua portuguesa. Como se perdeu, quase sem remédio, tal herança!
Hoje, não sinto o mínimo apelo para a leitura da nossa imprensa desportiva, tal como fujo a sete pés dos programas ditos de debate (!?) televisivo ou radiofónico sobre desporto.
Porém, como frequento a imprensa generalista, não me livro de alguns efeitos secundários, nas suas páginas dedicadas ao desporto. No dia seguinte à histórica conquista da Taça do Rei pelo aportuguesado Real Madrid versus o Barcelona, deparei com uma curiosa (e vulgarizada) estatística sobre o comportamento comparado dos maiores monstros em compita -Ronaldo e Messi- patente em dois diários.


Partindo do lógico princípio de que a estatística pertence ao domínio das ciências exactas e de que os seus resultados merecem, por isso, a devida credibilidade, dei-me ao curioso trabalho de confrontar os dados disponíveis.
Sei pouco de futebol, no entanto dominando deste o suficiente para saber o que é um golo, um passe certo ou errado, uma falta cometida ou sofrida, uma assistência, um fora de jogo, um pontapé certeiro ou falhado, enfim, tudo aquilo que constitui o normal recheio dum encontro, ainda que a objectividade possível deste se torne num delirante universo de mil e uma subjectividades. Apesar dos replays...
Mas, apesar de tudo, uma estatística deve manter-se uma estatística, nela se preservando a tal científica objectividade resistente às divergentes visões de cada adepto, até porque um jornalista -como um árbitro- tem de ser, por definição, neutro, isento, rigoroso.
A cores, no resumo estatístico à esquerda, Ronaldo registou 1 golo contra 0 de Messi; o mesmo sumário dado se revela à direita, a preto e branco. Idêntico resultado está patente, em ambos os quadros, quanto às assistências para golo: 0 a 0. E por aqui se ficam as identidades estatísticas, objectivas, pois todos os restantes índices derivam, por vezes de forma quase delirante...
Faltas cometidas – 0 por Ronaldo e 5 por Messi, no quadro esquerdo; 0 por Ronaldo e 2 por Messi, no da direita... Provavelmente, o árbitro não viu todas!
Faltas sofridas – 3 por Ronaldo e 6 por Messi; ou 4 por Ronaldo e 6 por Messi... Aqui, por excepção, não há divergências escandalosas.
Passes certos – 15 por Ronaldo e 68 por Messi; ou 9 por Ronaldo e 53 por Messi... Graus de diversa exigência técnica por conta dos agentes recenseadores?
Passes errados – 5 por Ronaldo e 4 por Messi; ou 6 por Ronaldo e 15 por Messi...
Alguém deve estar a precisar, com urgência, de mudar as lentes!!!
Remates, finalmente, o que também pareceria um dado objectivo – 6 por Ronaldo e 3 por Messi; ou 4 por Ronaldo e 1 por Messi? Em que ficamos? Ou um remate já não é um remate?!
Se no capítulo “matemático” da apreciação crítica ao jogo nos deparamos com tamanhas contradições, valerá a pena perder tempo com a leitura restante? Cada um, em função do seu apreço pessoal pelo futebol e pelos respectivos valores, que decida em conformidade.
Por mim, neste caso, passei directamente às páginas do Sudoku. Números por números, algarismos por algarismos, estes sempre são mais certeiros. E indiscutíveis, universais, lógicos, sem qualquer concessão a subjectividades.
Depois, há a crise. E aqui, os números fazem lembrar, outra vez, as estatísticas da bola...
António Martinó de Azevedo Coutinho

terça-feira, abril 26, 2011

No Centenário do Campo da Fontedeira

No Centenário do Campo da Fontedeira
2 de Abril de 1911 – 2 de Abril de 2011

Escrevia O Distrito de Portalegre em 10 de Julho de 1910, página 3, na coluna ‘Pela cidade’ com o título ‘FESTA DESPORTIVA’ – Deve realizar-se no dia 30 do corrente mês, uma festa desportiva na qual tomam parte académicos e alguns bombeiros das duas corporações. Para tal fim foi cedido o parque do sr. Pedro de Castro da Silveira. O produto desta festa destina-se para a conclusão do foot-ball, no local da Fontedeira.
No mesmo jornal, coluna e página, no dia 17 de Julho, escrevia-se, ‘Reina grande entusiasmo com a festa desportiva, que no dia 7 de Agosto próximo se deve realizar no parque do sr. Pedro de Castro da Silveira, obsequiosamente cedido para tal fim revertendo o produto das entradas para a conclusão do terreno, que na Fontedeira se começou a adequar para o jogo de foot-ball.
Esta festa constará de luta de tracção, saltos em altura, corridas de bicicletas, esgrima, jogo do pau, etc., etc.
Os referidos números do programa serão executados por bombeiros de ambas as corporações e estudantes do liceu.
Serão disputados valiosos prémios, que já ofereceram à comissão promotora de tão magnífico divertimento.
Os portalegrenses não faltarão decerto a esta simpática festa, que muito há-de agradar’.
Em 3 de Agosto, na mesma coluna e página, ‘Damos a seguir o programa desta bela festa, que se deve realizar no próximo domingo no parque do sr. Pedro de Castro da Silveira, revertendo o produto para a conclusão do campo para o jogo do foot-ball no largo da Fontedeira’. E seguia-se a discrição dos jogos.
A Plebe, em 31 de Julho, página 1, escreve sobre a festa desportiva e fica-se a saber que esta é a primeira do género a realizar-se em Portalegre, quando na notícia tem um parágrafo que elucida, ‘Atendendo a ser a primeira vez que em Portalegre tem lugar uma festa desta ordem, e ao diminuto preço das entradas, pois que é de 200 réis a superior ou lugares sentados, e 100 réis a geral, de pé, é de esperar grande concorrência’.
E no número seguinte de A Plebe, 7 de Agosto, página 3, sabe-se que a festa desportiva desse dia começará às 4 e meia, e que ‘Estes prémios estarão em exposição até à hora da festa na montra do estabelecimento do sr. António Augusto Nyni’.
Por sua vez, o Intransigente de 17 de Julho, página 3, anunciava que a festa desportiva se realizaria a 7 de Agosto, e acrescentava que ‘Há grande entusiasmo pelas referidas festas, que serão o inicio da propaganda desportiva e de educação física no nosso meio, que tão atrasado tem estado neste sentido’.
O Intransigente, em 10 de Agosto, página 3, escreve que ‘A comissão organizadora de tão simpática festa tem razões para se orgulhar com os resultados; unicamente o público não correspondeu como devia à boa vontade da referida comissão pois a concorrência foi apenas regular’.
É A Plebe quem, em 14 de Agosto, página 2, informa os nomes da comissão organizadora, quando escreve que ‘É de louvar a iniciativa da comissão composta dos srs. Álvaro Sampaio, Diogo Alvarrão, José Saraiva e Luiz Gomes, coadjuvados pelos rapazes e bombeiros voluntários, pela boa vontade e incansável actividade que mostraram’.
É, pois, em 10 de Julho de 1910 que pela primeira vez aparece referido na imprensa o Campo da Fontedeira. Antes não se encontra qualquer notícia, mas a decisão da sua construção há muito tivera que ser tomada, bem como o início das obras.
Quem conheceu presencialmente o Campo da Fontedeira, ou por fotografias, confirmará que é uma obra de engenharia notável para a época. E dispendiosa, visto existir pedra no subsolo, nascente de água, bem como um grande desnível junto ao canto do campo a NE.
Dos três jornais, A Plebe, Intransigente e O Distrito de Portalegre, apenas este associa a festa desportiva à angariação de fundos para a construção do Campo da Fontedeira. E quer em A Plebe, quer no Intransigente, sabe-se que esta é a primeira festa desportiva realizada em Portalegre.
É já nas vésperas do 12.º aniversário dos Bombeiros Voluntários de Portalegre que se volta a falar do Campo da Fontedeira.
Em 19 de Março de 1911, página 2 e com o título ‘Foot-ball’, A Plebe anuncia que ‘É no próximo domingo, que tem lugar a inauguração do campo de foot-ball, há pouco construído em Portalegre, com um match entre equipes dos Bombeiros Voluntários de Portalegre e Robinson.
Com este desafio, que marca mais um passo na vida esportiva d’esta cidade, comemora-se mais um aniversário da fundação da benemérita Corporação dos Bombeiros Voluntários.
Abrilhantará a festa a Banda dos Bombeiros’.
O Distrito de Portalegre escreve em 15 de Março, página 3, que se vai inaugurar o Campo da Fontedeira em 26 de Março seguinte, e repete a notícia no número de 22 de Março, página 2.

Estava prevista para domingo dia 26 de Março de 1911, às quatro horas da tarde, a inauguração do recém construído campo de foot-ball na Fontedeira. Integrada nas festividades do 12.º aniversário dos Bombeiros Voluntários de Portalegre, a festa constava do match entre os players das corporações dos Bombeiros Voluntários Robinson e dos Bombeiros Voluntários de Portalegre. O prémio em disputa era uma linda e rica papeleira metálica artisticamente lavrada, oferta do sr. George Robinson e da direcção da corporação dos Bombeiros Voluntários de Portalegre.
Esta inauguração apresentava mais um progresso para a vida desportiva da cidade, e as equipas de foot-ballers andavam a treinar com entusiasmo, e trabalhavam com ardor para alcançar a vitória, que não era lícito, então, supor a quem viria a pertencer. O certo é que aquela festa estava a despertar grande entusiasmo na cidade, e seria abrilhantada pela distinta banda dos Bombeiros Voluntários de Portalegre.
Contudo, o mau tempo impediu a inauguração oficial do campo de foot-ball da Fontedeira a 26 de Março, como estava previsto, e a festa foi adiada para o domingo seguinte, 2 de Abril, mantendo-se as quatro horas da tarde. Do anteriormente estabelecido, apenas uma pequena alteração, no half-time tocaria, além da distinta banda dos Bombeiros Voluntários de Portalegre, a distinta banda Euterpe.
Quanto às equipas que iriam inaugurar o Campo da Fontedeira a 2 de Abril, sabia-se que o primeiro team dos Bombeiros Voluntários Robinson teria por Captain Mister A. Watson, e o dos Bombeiros Voluntários de Portalegre o sr. Carvalho. O Referee era o distinto foot-baller sr. Leopoldo José Mocho, do Sport Lisboa e Portalegre, cuja competência para este lugar estava mais do que comprovada, e os Line-Men os srs. Álvaro Coelho de Sampaio e Francisco Ceia.
A imprensa não divulgou o resultado deste match, nem fez referência nos números seguintes à forma como decorreu a inauguração do Campo da Fontedeira.

O último jogo no Campo da Fontedeira realiza-se em 23 de Maio de 1969.
É uma sexta-feira, o jogo está inserido nas Festas do Concelho, e em disputa está a «Taça Cidade de Portalegre».
O jogo tem lugar às 18:30, e é entre o Grupo Desportivo Portalegrense e o Club Deportivo Badajoz. Termina com o resultado 1-1.
Sabia-se que a época seguinte, 1969/70, seria disputada no Estádio Municipal, cujas obras ainda não estavam concluídas, tal como ainda hoje o não estão.
O Campo da Fontedeira serviu para o futebol, mas também para outras modalidades, bem como para outro tipo de espectáculos. De 1911 a 1969, marcou um tempo na História de Portalegre.
Mário Casa Nova Martins


in, Alto Alentejo, 6 de Abril de 2011, pg.6

segunda-feira, abril 25, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

III – Festival Ambiente ou Portalegre no Mundo
(ainda que não tenha parecido!)

Foram ao todo sete edições, sete... Nasceu em Portalegre, aqui viveu entre 1998 e 2007, daqui se projectou na Europa e no Mundo, mas permaneceu por cá como um ilustre desconhecido... ou quase.
Nasceu da iniciativa de Ceia da Silva, então presidente da Região de Turismo de São Mamede (depois Norte Alentejano). Para além dos assumidos objectivos de promoção turística, a sua essencial intenção manteve-se sempre centrada nas questões ambientais, formalmente servidas pela audiovisual e pelo multimédia. Entre o seu público alvo foram privilegiadas as escolas de todo o Distrito. A exibição de filmes e videogramas ambientais, a realização de ciclos de exposições e de colóquios públicos e a organização de concursos temáticos foram os seus conteúdos dominantes.
O Festival Ambiente – Encontros de Imagem e Som do Norte Alentejano depressa se internacionalizou, ao ser convidado por estruturas comunitárias para integrar um ambicioso projecto europeu. Com organizações similares da Eslováquia, Alemanha, República Checa, Rússia e ainda do Japão, integrámos o Ecomove, que realizou dois festivais internacionais em Berlim (2001 e 2003), e estivemos presentes na II Cimeira da Terra, em Joanesburgo (África do Sul, 2002) e na Expo Universal de Aichi (Japão, 2005).
Algumas das mais significativas personalidades do mundo ambiental português -Almeida Fernandes, Correia da Cunha, Delgado Domingos, Francisco Ferreira, Galopim de Carvalho, Gonçalo Ribeiro Telles, Fernando Catarino, Humberto Rosa, João Evangelista, Luísa Schmidt, Mário Freitas, Viriato Soromenho-Marques e outros- vieram generosamente até nós, divulgando e partilhando a sua mensagem de crédito e de confiança no nosso futuro.
Porém, quanto a Portalegre e aos portalegrenses, como diria o outro (e com o devido respeito para com tão prestáveis bichos, a ostra e o suíno!), o Festival significou pérolas a porcos...
Dirigindo a sua equipa organizadora, tive oportunidade de conhecer gente dotada da mais generosa disponibilidade assim como de elevada qualidade técnica e humana. Foi o caso, logo em 1998, dos membros da Adenex – Asociación para la Defensa de la Naturaleza y los Recursos de Extremadura, com sede na vizinha cidade espanhola de Mérida, onde por diversas vezes os visitei, com idêntica reciprocidade.
Tendo competido em duas das modalidades a concurso, obtiveram a “Disquete de Bronze” entre as 20 homepages concorrentes e, com o videograma Cerrar Almaraz, conquistaram a “Cassete de Prata”, num universo de 35 obras originais.
O vídeo premiado, uma produção de 1997 assinada pela Adenex em cooperação com Libre – Producciones Audiovisuales Multimedia, tem cerca de 9 minutos e meio de duração e pode resumir-se na sua própria apresentação:
Os perigos potenciais das centrais nucleares são aqui lembrados através do exemplo de Almaraz, junto ao Tejo, em plena Extremadura espanhola, bem perto da fronteira portuguesa.
Chernobyl não está esquecida e o risco é quotidiano. O que pode e deve fazer cada um de nós, se acreditarmos que o ambiente não é simplesmente uma herança legada pelos nossos pais, mas sobretudo um empréstimo concedido pelos nossos filhos?!
Foi por esta obra que fiquei a conhecer o significado da central nuclear de Almaraz, aqui bem perto de nós e por onde já tinha passado por diversas vezes sem nunca lhe ter dedicado qualquer especial atenção.
António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, abril 22, 2011

Páscoa - 2011

Boa Páscoa
Mário Casa Nova Martins

quinta-feira, abril 21, 2011

Fernando Correia Pina

Contributos para a História das Águas de Cabeço de Vide

1. Introdução
Apesar do considerável número de trabalhos publicados sobre as termas de Cabeço de Vide, a sua história continua em grande parte por escrever.
...
Fernando Correia Pina
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Texto completo em:

quarta-feira, abril 20, 2011

Queima das Fitas 2011

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Mário Casa Nova Martins

terça-feira, abril 19, 2011

Deputados 'pára-quedistas' em Portalegre

Deputados 'pára-quedistas' no distrito de Portalegre


Depois do candidato 'pára-quedista' Costa Neves e da candidata 'pára-quedista' Leonor Beleza, há anos ambos pelo PSD, agora é a vez do candidato ‘pára-quedista’ Paulo Marques pelo PS.
Decididamente, o ‘centrão’ no Distrito de Portalegre não tem emenda!
Mário Casa Nova Martins
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Links de notícias:
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«Conheça os cabeça de lista do PS e PSD nas próximas eleições»
.
«Sec. de Estado Pedro Marques, a história dos meninos da JS que nunca tiveram de procurar emprego»

segunda-feira, abril 18, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

II – Somos todos moradores de Ferrel

“Em Março de 1976, o povo de Ferrel mostrou o caminho: Portugal, em busca de outra Índia, passou a ter no povo de Ferrel o seu Infante das Novas Naus.
Quando os pescadores e camponeses de uma pequena aldeia marítima do litoral de Peniche tocam os sinos a rebate para dizer NÃO! à central nuclear que lhes querem impingir, estão a lançar mão de um fundo telúrico ancestral para a abertura das novas rotas do futuro mundo. Graças a eles, Portugal pode, se quiser, se os Velhos do Restelo dos gabinetes da capital souberem recuar a tempo na sua loucura suicida, ser o primeiro país do mundo a pronunciar-se contra o holocausto nuclear no seu território”. (...)
SOMOS TODOS MORADORES DE FERREL
Grupo de Estudos Viver é Preciso, 8 de Junho de 1976

Frequento a aldeia de Ferrel com regular assiduidade. Muitas vezes ali tomo o pequeno almoço, nas excelentes pastelarias que possui (e todas com fabrico próprio!), ali adquiro os jornais diários e ali tenho, até, alguns amigos. É uma terra organizada e tranquila, no trajecto entre Peniche e Serra del Rey, junto à bela praia do Baleal. Os seus habitantes são gente empreendedora, que alterna o trabalho com a festa, sistematicamente vivida com intensidade.
Foi precisamente ali que, em 15 de Março de 1976 -vão já passados 35 anos-, o rebate tocado pelos sinos da igreja convocou a população em peso para o local onde tinham começado os trabalhos preliminares da construção da primeira central nuclear portuguesa. Então, a multidão interrompeu as actividades, destruiu os materiais, fechou as valas e avisou os técnicos, atónitos, de que arrasaria qualquer nova tentativa de recomeço...
Dois ou três episódios posteriores confirmariam esta enérgica e corajosa tomada de posição colectiva inicial, pelo que o projecto nuclear nacional ficaria por aí. Até hoje, como se sabe.
O que teria acontecido sem esta revolta popular, devidamente enquadrada por alguns raros activistas, dos quais se destacam José Carlos Marques, o jornalista Afonso Cautela ou o cientista Prof. Delgado Domingos? Seria aliás difícil adivinhar esse virtual futuro alternativo...

Por mim, que não tenho capacidade científica para entender plenamente os inflamados argumentos esgrimidos por especialistas do pró e do contra nuclear, deixo-me levar, pelo menos em parte, pelo coração e pelo sentimento.
O que sei, porque vejo, é que nesse mesmo Oeste -onde está Ferrel- constantemente crescem novas “florestas” de geradores eólicos nas cristas dos outeiros que povoam a zona. Não foi por acaso que o moinho de vento se constituiu de há muito como o símbolo visual desta região, que considero uma das mais bonitas e dotadas de todo o País. As fontes renováveis de energia, como o Sol e sobretudo o vento, são por ali assumidas enquanto tal. E lembre-se a propósito, como lógico complemento, que é também nesta costa que foi experimentado e vai ser instalado, em definitivo, um gerador eléctrico animado pela força das marés e das ondas...
Seremos todos moradores de Ferrel, no mesmo sentido em que o presidente Kennedy proclamou um dia, perante o Muro, que era berlinense. De facto, pelo menos nesse recanto algo anarquista que todos teremos bem cá no íntimo, somos contra todas as formas dominantes do Poder e as suas latentes ameaças.
O Muro ou a Central Nuclear separam, não unem, duas visões diferentes dum mesmo mundo. Qual é o lado onde reside a razão?
António Martinó de Azevedo Coutinho

domingo, abril 17, 2011

Mário Silva Freire

PELOS CAMINHOS DA PAZ – 8

A religião e a paz

O termo religião tem um significado que se estende, para além dos actos de culto que pretendem dar corpo a uma relação com Deus, à prática do bem. O Cristianismo estabelece mesmo o amor ao próximo como o 2º grande mandamento, logo a seguir ao de amar a Deus. E ama-se o próximo quando se têm para com ele gestos de paz. Por isso mesmo, João Paulo II afirmou que a religião possui uma função vital que é a de consolidar as condições para a paz, podendo desempenhá-la de forma tanto mais eficaz quanto mais decididamente se concentrar naquilo que lhe é próprio: a abertura a Deus, o ensino da fraternidade universal e a promoção duma cultura solidária.
Relativamente ao Islamismo, uma das palavras-chave desta religião é sálam que significa fazer a paz. A paz está inscrita na origem do islamismo e todo o verdadeiro muçulmano é promotor de paz. Hoje, em que se assiste a tanto radicalismo e intolerância por parte de alguns que se intitulam defensores dos valores islâmicos, seria bom que eles pudessem compreender a mensagem de ecumenismo que está escrita no versículo 2, 62 do Alcorão: “mas os crentes, os judeus, os cristãos e os sabeus, todos os que crêem em Deus e no Dia do Juízo e que praticaram o bem, todos eles receberão a recompensa do Senhor; nenhum receio existirá neles e não ficarão tristes.”
O judaísmo é igualmente uma religião em que a paz assume um valor primordial. A teologia rabínica fala da vida num mundo melhor, à semelhança do que o profeta Isaías diz, quando refere um tempo em que o homem não será mais um lobo para o homem, em que os animais serão tocados por essa graça universal, pois já não haverá caçador nem presa, em que o bebé poderá brincar junto do ninho da víbora sem correr qualquer risco.
A construção da paz, para aqueles que professam uma religião, remete para a coerência entre uma fé que se professa e o comportamento que se manifesta. Claro que esta incoerência faz parte da condição da humanidade. Pedro, que era o apóstolo em quem Cristo confiou para continuar a sua Igreja e que o acompanhou durante toda a sua vida pública, não deixou de o negar, apesar de, repetidamente, reafirmar a sua fidelidade. E por três vezes Pedro negou o seu Mestre, enquanto este estava a ser humilhado, numa altura, humanamente falando, em que Cristo mais precisaria de apoio e solidariedade!
Esta constatação da fragilidade humana não deve, no entanto, fazer esquecer que os crentes têm responsabilidades acrescidas, pois a fé que professam põe na paz e na solidariedade os sinais que devem pautar o seu relacionamento com os outros. A religião tem que domesticar a violência e canalizá-la para obras de generosidade. Não é religioso quem advoga a violência.
Com este artigo, termino esta série de oito pequenas reflexões sobre a Paz.
Mário Freire

sábado, abril 16, 2011

Feira do Livro - Lisboa 2011


A APEL, como entidade organizadora da 81ª edição da Feira do Livro de Lisboa informa que a mesma decorrerá, tal como nos anos anteriores, no Parque Eduardo VII, de 28 de Abril a 15 de Maio de 2011.

Mário Casa Nova Martins

sexta-feira, abril 15, 2011

O Triunfo dos Porcos


Numa qualquer república democrática, a apresentação de um novo livro é sempre um acto de cultura e de cidadania, mesmo que esse livro defenda posições com as quais não concordamos. Vivendo numa sociedade aberta, livre, portanto, o direito à escrita é tão um factor de liberdade, tal como o assumir o que escrevemos é um acto de responsabilidade. Liberdade e responsabilidade são conceitos que têm forçosamente que estar interligados. Quando um destes é subvertido, a própria sociedade, através dos meios legais e competentes, os tribunais, deve punir o infractor.
Esta introdução serve para lembrar que a Madeira vive um período de excepção, quanto a Democracia. É governada por um tiranete, que viola as mais elementares regras de convivência democrática.
Para provar o clima de asfixiamento democrático que se vive na Madeira, Ribeiro Cardoso escreveu o livro «Jardim, a grande fraude – uma radiografia da ‘Madeira Nova’».
É por demais evidente que o medo de represálias por parte do Governo Regional da Madeira à entidade que facultasse a sala para a apresentação do livro.
Alberto João Jardim julgaria que tal faria com que o livro não circulasse na Região Autónoma da Madeira. Pura ilusão, agora, “às claras ou às escuras”, os Madeirenses irão comprar e, quiçá, sofregamente ler o livro.
Alberto João Jardim tem uma cultura que George Orwell bem exemplificou na sua obra «O Triunfo dos Porcos». A comparação entre Jardim e Squealer, possível, raia o anedótico.
Mário Casa Nova Martins
facebook.com/Mario.Casa.Nova.Martins

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quinta-feira, abril 14, 2011

Fernando Correia Pina

Os Camões de Évora

uma referência inédita ao autor dos Lusíadas?

Sobre o ramo dos Camões que, ao longo de séculos, teve Évora por sua pátria não escasseiam as notícias. Muitos foram os que, ao correr dos anos, se debruçaram sobre a matéria que aqui de novo se retoma, dando continuação ao trabalho de cabouqueiro a que, humoradamente, Túlio Espanca se referiu, em comunicação apresentada à Academia Portuguesa de História, corria o já distante ano de 1980.
De facto, apesar do muito considerável volume de dados já coligidos e publicados sobre esta família eborense, continua a ser notória, em termos genealógicos, a ausência de um estudo mais aprofundado. Os valiosos contributos de uma plêiade de ilustres camonistas não bastaram para esclarecer as muitas incertezas que teimam em rodear as suas origens ou os percursos de vida dos seus membros, tal como o de Luís de Camões, seu parente próximo cuja hipotética presença na cidade tem sido abordada por diversos investigadores.
Se bem que a presença dos Camões em Évora na centúria de quatrocentos não careça de confirmação, porque de há muito documentalmente comprovada propusemo-nos, em trabalho a publicar, de que o presente artigo faz resumo, restringir o âmbito da pesquisa ao horizonte temporal da segunda metade de quinhentos, porquanto é dado adquirido a permanência na cidade de muitos dos membros da família. De não menor peso na tomada dessa orientação da pesquisa foi o facto da existência, nos acervos documentais locais, de uma vastíssima documentação de importância capital para o estudo, não apenas na perspectiva local mas também de um ponto de vista regional já que muitos dos Camões de que nos ocupamos se podem localizar, periodicamente, noutras áreas do actual distrito de Évora e mesmo no de Portalegre, onde alguns deles nasceram e foram baptizados.
À semelhança da restante nobreza, a manutenção do lustre familiar escorava-se na percepção de rendas provenientes da tenência de bens de raiz, vinculados em capelas e morgados, localizadas nos termos de Évora, Avis, Estremoz, Montemor-o-Novo e Elvas, entre outros.
Em Évora sabe-se terem residido, alguns deles, às Portas de Moura e outros na Rua de Machede, na Rua dos Mercadores, ou ainda no outeiro da Vila Nova, com foro de fidalgos da casa d´el-rei, ligados por casamento a outras destacadas linhagens naturais da cidade ou com assento em outras terras do reino, tal como sucedeu com os Macedos, de raízes escalabitanas. Também em Évora tiveram a sua última morada, em jazigos de família na igreja de São Francisco e na sé catedral, na capela de S. Pedro, posteriormente capela da Vera Cruz.
Foi na sequência de um daqueles consórcios, como mais adiante se verá, que chegou até nós o que, eventualmente, será mais uma referência directa ao vate, a juntar às pouquíssimas já localizadas, produzidas no âmbito do perdão real pela agressão a Gonçalo Borges, da concessão de tença por D. Sebastião, ou do imprimatur da epopeia, de todos bem conhecidas.
Entre os membros da família contava-se D. Francisca de Castro, filha de António Vaz de Camões e de D. Isabel de Castro. Esta D. Francisca era já, em 1551, órfã de pai e mãe, falecidos ambos em meados da década de quinhentos e quarenta, tendo ficado por seu tutor Duarte de Camões, irmão de seu pai.
Nesse mesmo ano, aos quinze dias do mês de Dezembro, nas pousadas de D. Diogo de Castro, capitão-mor de Évora, igualmente tio de D. Francisca, estando aí presentes o dito tutor e procurador, Duarte de Camões, e Francisco Figueira, estribeiro-mor do infante D. Luís, como procurador de seu sobrinho D. Martinho de Távora, residente na alcáçova de Santarém, celebrou-se o contrato de casamento e arras dos respectivos constituintes. Para o casal levou D. Francisca seis mil cruzados e diversos bens, rendas e propriedades situadas nos termos de S. Mansos, Pavia, Avis e Évora.
Três semanas mais tarde, a sete de Janeiro do ano seguinte de 1552, encontrava-se em Évora D. Martinho de Távora para tomar contas e dar quitação a Duarte de Camões no respeitante à administração dos bens patrimoniais de D. Francisca de Castro.
Nestas circunstâncias apresentou Duarte de Camões diversos documentos, em papel e pergaminho, relativos à gestão dos bens da sua sobrinha e tutelada, na presença do tabelião Fernão d`Arco que em sua nota, conservada no Arquivo Distrital de Évora, lavrou o auto de que a seguir se transcrevem, em leitura actualizada, alguns excertos:
Saibam os que este instrumento de conhecimento e quitação virem que no ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de mil e quinhentos cinquenta e dois em os vinte sete dias do mês de Janeiro em a cidade de Évora nas casas do senhor Duarte de Camões fidalgo da casa del rei nosso senhor estando aí presente o senhor dom Martinho de Távora outrossim fidalgo da casa do dito senhor e por ele foi dito que era verdade que o dito Duarte de Camões que presente estava fora tutor de sua dona Francisca de Castro sua molher e sobrinha dele Duarte de Camões filha de António Vaz de Camões e de dona Isabel de Castro sua mulher que santa glória hajam [desde?] o tempo do falecimento da dita dona Isabel por a qual fora ele dito dom Martinho tomar a conta a ele dito Duarte de Camões da fazenda da dita dona Francisca sua mulher assim dos bens móveis como de raiz rendimentos deles prata ouro jóias e mais coisas contidas nas partilhas dos ditos seus pai e mãe a qual conta é escrita por Afonso Gomes de Araújo escrivão dos orfãos desta cidade […] e uma sentença escrita em pergaminho que Lopo Vaz de Camões que deus tem houve contra Rodrigo Cabral sobre a serra de São Bartolomeu em a quall Luis Vaz de Camões também tem sua parte e mais a cédula de testamento da dita dona Isabel de Castro […]
Será este Luís Vaz de Camões o Luis de Camões poeta ou estaremos perante mais um caso de homonímia numa família em que a semelhança dos nomes tantas vezes tem sido motivo de embaraço para genealogistas e outros estudiosos? Recordemos, a este propósito, que de um Luís de Camões, padrinho de um casamento celebrado na igreja de Santo Antão, aos 6 de Maio de 1576, deu já notícia o camonista eborense António Francisco Barata em opúsculo publicado em 1882, com o título Luiz de Camões em Évora no anno de 1576 e que, por outro lado, a presença do autor em Évora tem sido proposta repetidamente avançada.
Ora, recorrendo ao nobiliário de Felgueiras Gayo e percorrendo a descendência de Vasco Pires de Camões, verifica-se ter sido o poeta o primeiro daqueles Camões a usar o nome de Luis que, nas gerações imediatas, viria ser reiterado em Luis Álvares ou Gonçalves de Camões, irmão da esposa de D. Martinho de Távora, falecido em Alcácer Quibir, e outro Luis Gonçalves de Camões, filho de Duarte de Camões da Câmara e de D. Isabel Lobo, não identificáveis com o filho de Simão Vaz, seu contemporâneo. Existia, ainda, um outro Luis, não referido expressamente na genealogia em questão, dado que teve o nome alterado para Gonçalo Vaz de Camões, por disposição testamentária de seu pai. Não cremos, porém, dadas as circunstâncias do seu nascimento que, enquanto Luis, tivesse usado dos apelidos paternos com que na Índia ficou conhecido.
A propriedade na posse de Luís Vaz de Camões será, muito provavelmente, a serra de S. Bartolomeu, situada na freguesia da Casa Branca do concelho de Sousel, a curta distância da herdade do Álamo, em tempos também chamado dos Castros, onde se erguem as ruínas de uma edificação, ainda hoje conhecida pelo nome de Torre de Camões. Esta herdade onde a permanência de alguns parentes do poeta é detectável desde 1541 encontrava-se, em princípios de seiscentos, já dividida em duas partes, uma pertencente a António Vaz de Camões, marido de D. Francisca da Silveira e sobrinho da D. Francisca de Castro, acima, e outra a Luis Gonçalves de Camões, filho de Duarte de Camões da Câmara e de D. Isabel Lobo.
Parece, assim, a fazer fé na genealogia apontada que, como outras, vale o que vale que, por exclusão de partes e por dedução dos factos patrimoniais, o Luis Vaz de Camões mencionado na escritura do tabelião Fernão d`Arco será susceptível de identificação com o poeta, o que confirmaria a hipótese, por vezes contestada, da sua filiação no ramo dos Camões de Évora, obrigando, por outro lado, a rever a tão romântica visão do poeta sem meios de fortuna… Porém, em matéria em que as nuvens da fantasia têm obscurecido tanto a luz da verdade histórica, convém usar de cautela para não as engrossar ainda mais até que outros elementos que, certamente, haverá ainda por revelar possam esclarecer definitivamente a tão incómoda questão da biografia do homem que cantou uma nação que persiste em nada saber dele.
Fernando Correia Pina
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quarta-feira, abril 13, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

 
in, FONTE NOVA, 12 de Abril de 2011, pg.2

terça-feira, abril 12, 2011

António Jacinto Pascoal

Ebook
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Livro
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Desenhos do Goulag

Drawings from the Gulag consists of 130 drawings by Danzig Baldaev (author of the acclaimed Russian Criminal Tattoo Encyclopaedia series), describing the history, horror and peculiarities of the Gulag system from its inception in 1918. Baldaev's father, a respected ethnographer, taught him techniques to record the tattoos of criminals in St. Petersburg's notorious Kresty prison, where Danzig worked as a guard. He was reported to the K.G.B. who unexpectedly offered support for his work, allowing him the opportunity to travel across the former U.S.S.R. Witnessing scenes of everyday life in the Gulag, he chronicled this previously closed world from both sides of the wire. With every vignette, Baldaev brings the characters he depicts to vivid life: from the lowest "zek" (inmate) to the most violent tattooed "vor" (thief), all the practices and inhabitants of the Gulag system are depicted here in incredible and often shocking detail. In documenting the attitude of the authorities to those imprisoned, and the transformation of these citizens into survivors or victims of the Gulag system, this graphic novel vividly depicts methods of torture and mass murder undertaken by the administration, as well as the atrocities committed by criminals upon their fellow inmates.
Danzig Baldaev was born in 1925 in Ulan-Ude, Buryatiya, Russia. In 1948, after serving in the army in World War II, he was ordered by the N.K.V.D. to work as a warden in the infamous Leningrad prison, Kresty, where he started drawing the tattoos of criminals. His collection of drawings, which he made in different reformatory settlements for criminals all over the former U.S.S.R. over a period of more than 50 years, have been published by Fuel in three volumes, in the bestselling Russian Criminal Tattoo Encyclopaedia series.
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Este testemunho nunca foi falado na imprensa portuguesa, o que não espanta, dado o 'politicamente incorrecto' da temática.
Curiosamente, à Direita também nunca tínhamos li ou ouvido referir esta obra seminal sobre o Goulag.
Aqui fica o link para sua compra:
Mário Casa Nova Martins

segunda-feira, abril 11, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

I – De vez em quando a gente lembra-se... e depois passa

Provavelmente, para os mais velhos, tudo começou em Hiroshima. Nesses tempos duma guerra que por aqui, pela velha Europa, já estava quase extinta, ainda se disparava e morria lá para os lados do Oriente. Os japoneses teimavam em resistir a um destino marcado desde a queda de Hitler. Foi então, segundo rezam os manuais da especialidade, que o todo-poderoso presidente da América, Harry Truman de seu nome, deu a ordem fatal para o lançamento da bomba atómica sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Estávamos a 6 de Agosto de 1945.
Após o impacto do Little Boy, irónica designação desse mortífero artefacto de guerra, calcula-se que cerca de 150 000 residentes na zona (dos quais apenas 20 000 seriam militares) foram sacrificados. A contagem total daqueles que durante décadas sofreram atrozmente os efeitos da radioactividade libertada tornou-se praticamente impossível... Aliás, ainda hoje continua a negra série de heranças genéticas, em deformações, cancros congénitos, problemas de esterilidade e outras doenças decorrentes das radiações então livremente desencadeadas.
A Humanidade apercebeu-se então duma realidade prática, que confirmou as teorias científicas que em segredo circulavam, como latente ameaça... ou esperança. Mas o universo da energia nuclear não poderia ter escolhido um pior propagandista...
A história da Guerra Fria que se seguiu está recheada de sobressaltos, quase todos gerados em torno do nuclear, e nem sequer vale a pena recordá-los.
Os cientistas que tinham descoberto e, aparentemente, controlado esta nova forma de energia propuseram e desenvolveram o seu uso pacífico. E todos conhecemos algumas das suas aplicações, nomeadamente as postas ao serviço dos meios de diagnóstico clínico e do tratamento de certas doenças.
Outra das modalidades utilitárias atribuídas à energia atómica foi a de aproveitar a sua imensa força, convertendo o calor desencadeado em electricidade, vital para o progresso e o desenvolvimento da Humanidade, sobretudo em função de um próximo esgotamento dos combustíveis fósseis e das dificuldades técnicas e dos elevados custos das chamadas energias alternativas, ou “limpas”.
Por outras palavras, e em termos grosseiros mas funcionais, em vez de se libertar descontroladamente a energia nuclear mortífera, como em Hiroshima, a proposta científica (e pacífica) consistiria em “domesticar” essa força imensa, colocando-a docilmente ao serviço das boas causas.
Assim apresentada, a questão pareceria revestir-se das mais promissoras expectativas. Mas logo se apressaram algumas vozes a desmentir tão boas intenções. Cientistas tão reputados como aqueles que defendiam a energia nuclear começaram a proclamar os seus sérios riscos; grupos ambientalistas, mais ou menos radicais, empenharam-se em agressivas campanhas de protesto cívico; movimentos ecologistas, quase sempre conotados com a verde cor da esperança, organizaram-se e atingiram, como fortes partidos políticos, uma apreciável parcela de poder em diversos países ocidentais...
Apesar de tudo, certos e poderosos executivos nacionais conseguiram planear, construir e explorar as chamadas centrais nucleares, de diversas gerações cada vez mais perfeitas e seguras, produzindo uma considerável percentagem da energia eléctrica necessária, ao serviço da industrialização e do progresso dos seus países.
O pior foi quando aconteceram alguns graves acidentes, tal como tinham prognosticado os críticos. Bastará consultar qualquer simples relação hoje patente nas enciclopédias ou on line, para depressa nos apercebermos da impressionante quantidade e gravidade de alguns desses acidentes, sobretudo na Ucrânia, nos Estados Unidos da América e no Japão.
Entre estes, três sobressaem e convém aqui lembrá-los:
• 28 de Março de 1979 – Na central nuclear de Three Mile Island (Pensilvânia – Estados Unidos da América), um vazamento radioactivo através dos seus circuitos de refrigeração obrigou à evacuação urgente de mais de cem mil moradores na região afectada. Não houve vítimas, sendo o acidente catalogado de nível 5 numa escala internacional de 7.
• 26 de Abril de 1986 – Na central nuclear de Chernobyl (Ucrânia), uma explosão no reactor n.º 4 lançou grande quantidade de material radioactivo na atmosfera, equivalente a cerca de 200 bombas de Hiroshima. Foi contaminada apreciável parte da Europa, e morreram logo 31 pessoas. Calcula-se que desde então tenham falecido mais de 25 000 vítimas, devido às consequências directas do acidente, que atingiu o máximo nível: 7.
• 11 de Março de 2011 – Na central nuclear de Fukushima (Japão), os efeitos do gigantesco tsunami que se seguiu a um devastador terramoto danificaram directa ou indirectamente alguns dos seus reactores, tendo provocado 3 fusões parciais de núcleos, 4 explosões, vários incêndios radiológicos e emissão descontrolada de gases radioactivos. A gravidade do acidente, com efeitos humanos ainda por determinar, atingiu o grau 6.
Este último acidente está na nossa memória, até porque ainda está em curso. E, dos outros, ainda nos lembrávamos de alguma coisa?...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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