\ A VOZ PORTALEGRENSE: Tintin que é 'pouco' Tintin

terça-feira, novembro 22, 2011

Tintin que é 'pouco' Tintin

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Tintin que é ‘pouco’ Tintin
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O que primeiro nos ocorre dizer sobre o filme «O Segredo de La Licorne» é que não é um filme para Tintinófilos e que o filme não conquista mais leitores para a obra de Hergé.
Das quatro versões disponíveis, em português e 3D, em inglês e 3D, em português e 2D e em inglês e 2D, escolhemos ver a última. Quando o filme estiver disponível à venda em DVD, escolheremos a versão em francês, que é a língua ‘original’ de Tintin.
O filme é baseado principalmente em «O Caranguejo das Tenazes de Ouro» e em «O Segredo do Licorne». A sequela será, pelo certo, baseada em «O Tesouro de Rackam o Terrível».
Para quem conhece minimamente As Aventuras de Tintin, é bastante discutível ‘ligar’ o primeiro, «O Caranguejo das Tenazes de Ouro», aos segundo e terceiro, «O Segredo do Licorne» e «O Tesouro de Rackam o Terrível», até porque estes dois últimos completam a mesma história.
Sabe-se que Steven Spielberg nunca foi leitor de Hergé, e que Hergé afirmou ser aquele o único que poderia levar Tintin ao grande-ecrã com sucesso. Mas, o sucesso que Hergé anteviu é apenas de índole financeira, já que uma vez mais se prova a dificuldade de transpor um herói da BD escrita para o cinema.
Em termos técnicos, Peter Jacson é perfeito, irrepreensível. Mas em termos de argumento as ‘invenções’ são tão excessivas quanto despropositadas. A presença/chamada de Bianca Castafiori, ‘apenas’ para partir com a sua voz um vidro à prova de bala é a prova maior do desconhecimento do universo de Tintin.
Era expectável que existissem no filme cenas ‘à Spielberg’, tipo Indiana Jones. O que de facto acontece, e que de tal não vem mal ao mundo porque as mesmas são ‘inventadas’, não obedecendo a qualquer parte dos álbuns.
É conhecida a forma como Spielberg trata a História, falsificando-a sem pudor. Também aqui a história está falsificada, e a maior ‘falsificação’ é o aparecimento do ‘mau’, descendente directo de Rackan o Terrível que luta contra o descendente directo do Cavaleiro de Haddock.
Também há uma inversão no curso da história, quando no filme se descobre o tesouro em Moulinsart, o que é correcto, mas prepara-se para no segundo filme acontecer a viagem em busca do tesouro que se pensava encontrar nos destroços de La Licorne, e que pertence ao álbum «O Tesouro de Rackam o Terrível». Mas a sétima arte é muito pródiga nestes cenários.
Hoje, a apetência para a leitura é cada vez menor. E os mais novos há muito que desaprenderam o que é o hábito da leitura, se é que alguma vez o tiveram. Assim, e pelas razões acima apontadas, dificilmente o filme criará motivação para que As Aventuras de Tintin ganhem novos leitores.
Para os Tintinófilos, claro que nem tudo é mau no filme, muito pelo contrário. Mas a maior ‘recompensa’ é ver os seus/nossos heróis como pessoas, lembrando aquela pioneira experiência de «Le crabe aux pinces d'or», datada de 1947, com bonecos de pano, e, claro, em francês.
Mário Casa Nova Martins
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