\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sábado, junho 11, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

OH MINHA PÁTRIA TÃO BELA E PERDIDA
- II -
Antes de prosseguir esta alusão à célebre ária Va Pensiero, talvez seja conveniente apresentá-la um pouco mais “por dentro”.
Universalmente conhecida como Coro dos Escravos (Hebreus), trata-se de um coral inserido no terceiro acto da ópera Nabucco. A letra pertence ao poeta Temistocle Solera, livremente inspirado no Salmo 137. Giuseppe Verdi, o imortal autor da música, criou esta ópera num momento particularmente doloroso da sua vida, pois tinha acabado de perder a esposa e os filhos, ainda pequenos. Mas o contrato com o Scala forçou-o ao trabalho, pelo que dele resultou uma autêntica obra-prima. De tal modo isto é verdade, que Verdi consideraria, mais tarde, que a sua carreira artística começara realmente com Nabucco.
É oportuno conhecer a mensagem contida nos versos de Va Pensiero, a seguir traduzidos:

Vai, pensamento, sobre as asas douradas,
Vai  e pousa sobre as encostas e as colinas
Onde os ares são tépidos e macios
Com a doce fragrância do solo natal!
Saúda as margens do Jordão
E as torres derrubadas de Sião.
Oh, minha pátria, tão bela e perdida!
Oh, lembrança tão cara e fatal!
Harpa dourada de fatídicos desígnios,
Por que choras a ausência da terra querida?
Reacende a memória no nosso peito,
Fala-nos do tempo que passou!
Lembra-nos o destino de Jerusalém.
Traz-nos um som de triste lamento,
Ou que o Senhor te inspire harmonias
Que nos infundam a força
Para suportar o sofrimento!

Acontece que, recentemente, esta ária e o maestro Riccardo Muti foram protagonistas de um memorável episódio, cuja flagrante oportunidade apetece evocar.
Contrariando os conselhos médicos que lhe recomendavam descanso após uma recente queda em Chicago e a implantação de um “pacemaker” cardíaco, o maestro concordou com a encenação de Nabucco, inserida nas comemorações dos 150 anos da unificação italiana. Assim, esse espectáculo foi marcado para o Teatro dell’Opera de Roma na noite de 12 de Março último, um sábado.
A memorável sessão começou com uma intervenção, à boca de cena, do prefeito de Roma, Gianni Alemanno, que criticou os cortes do Governo de Berlusconi nos orçamentos destinados a financiar as artes, pelo que a ópera estava seriamente ameaçada. A implacável dureza do discurso do autarca, membro do partido governamental, encontrou ecos na plateia e criou desde logo um clima de tensão.
Após uma grande ovação, começou o espectáculo.
Tudo foi decorrendo, um acto após o outro, com inexcedível qualidade cénica e artística, servida por profissionais de elevado gabarito. Atingiu-se em Va Pensiero um clímax onde se rompeu a permanente tensão que unia todos os participantes -músicos, cantores e espectadores- num entusiasmo pleno de fervor. E as palmas e os vivas explodiram, contagiantes, pela vasta sala, interrompendo a ópera... Riccardo Muti pousou a batuta e baixou a cabeça. Durante largos, intermináveis minutos, soaram os aplausos e os pedidos de repetição da ária, alternando com vivas patrióticos.
O maestro, mal disfarçando a emoção, vivia certamente todo o universo íntimo de sentimentos contraditórios, entre a razão e as devoções, no seio duma sala em efervescência onde a frieza profissional era submergida pelo calor da paixão envolvente...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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