\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, junho 03, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho


CRÓNICA QUINTA

O entendimento ou a aceitação da verdade, cuidadosamente escondida nas ocultas intenções ou abertamente declarada nas palavras livres, resulta sempre da nossa opção pessoal.  Perante uma mesma provocação, reagimos em sentidos opostos. Ninguém poderia esperar que, da apreciação crítica de um tema de tamanha dimensão e de tão transcendentes implicações, como acontece com o Acordo Ortográfico, resultasse uma absoluta unanimidade. Provavelmente, como no melhor estilo lusitano, alguns dos que hoje se declaram firmes e convictos de um e de outro lado da barricada -a favor ou contra- talvez nem sequer conheçam a letra nem o espírito do Acordo. No entanto, dispõem de uma “abalizada” opinião (!?), porém frágil e contraditória, bacoca e idiota, incapaz de resistir a uma simples pergunta de ocasião... Sendo assim na política ou no futebol, por que deixaria de o ser nos domínios da cultura, ainda que limitada esta à mera questão de escrever assim ou assado uns simples vocábulos?
Não me considero, pois, o dono da verdade absoluta. Mas esta é a minha verdade, e devo reconhecer, sem o mínimo esforço, que faço aqui companhia a muito boa gente... O mesmo dizem, com idêntica convicção, os encarniçados defensores do Acordo.
Por isso, limito-me a alinhar aqui os argumentos que escolho -meus ou alheios- para proporcionar, a quem generosamente dedica a estas linhas alguma atenção, matéria para uma reflexão pessoal e para eventuais conclusões, também pessoais.
Noutra ocasião, julgada oportuna, voltarei ao tema.
Por agora, por me parecer ser esse um testemunho de dimensão e importância invulgares, desejo apenas difundir uma parcela da entrevista concedida por Vasco Teixeira, um dos responsáveis pela Porto Editora, ao jornalista João Céu e Silva. Este trabalho, que merece ser apreciado na íntegra, veio publicado na revista Notícias Sábado n.º 276, relativa a 23 de Abril de 2011:
(...) - O acordo ortográfico pode ser considerado um apoio do Estado?
- O acordo ortográfico é um custo para as editoras e não uma oportunidade. Sempre disse que não íamos vender nem mais um livro para o exterior por causa do acordo ortográfico, o que se verificou. O Brasil sempre teve um português diferente do nosso. Portugal e o Brasil têm tentado a unificação ortográfica mas há questões da língua, da construção das frases e da semântica que não serão resolvidas assim. Aliás, este acordo mostra as fragilidades que existem, porque em muitos casos fica uma dupla grafia. Sé há dupla grafia, não há acordo!
- Foi mais uma decisão política do que de língua?
- Creio que foram as duas. Os brasileiros tinham um problema desde que Portugal aderiu à Comunidade Europeia: passou a haver uma língua oficial da Comunidade Europeia chamada português e a matriz era Portugal. O Brasil, que aspira a ser uma grande potência, tinha um problema estratégico na sua língua e a solução que encontrou foi esta. Foi uma acção político-linguística, de quem tem uma dimensão que já não se compara com a nossa e que criava aos brasileiros um problema estratégico em termos de afirmação no mundo. No ONU, qual era a versão de português que se ia escrever? Era a de Portugal, porque coincidente com a da Europa! Como tinham esse problema, tentaram resolver com o acordo. (...)
Eis-nos perante uma interpretação do Acordo que ajuda a perceber, de forma pragmática, a inteligente posição brasileira perante esta questão. Não ajuda nada a perceber, pelo contrário, a nossa santa ingenuidade (!?) perante tal iniciativa, onde o político se sobrepõe quase esmagadoramente ao técnico, ou científico, ou linguístico, ou seja lá o que seja...
Normalmente, no futebol, o Brasil costuma ganhar-nos, porque são melhores os seus praticantes. Mas,  nos domínios da Cultura, tínhamos obrigação de oferecer uma maior resistência, porque, com mil diabos!, temos um passado mais consistente e uma sólida herança da qual nos costumávamos, legitimamente, orgulhar.
Talvez isto tenha acontecido porque desde 1945 até hoje desaprendemos muita coisa... E foram bem mais burros os professores do que os alunos.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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