\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

quinta-feira, março 17, 2011

Mário Silva Freire

CRÓNICAS DE EDUCAÇÃO – XXXIX

Uma taxonomia para esquecer ou para relembrar e aplicar?

Uma taxonomia visa uma classificação de diferentes elementos, sejam eles animais, vegetais, minerais ou outros, em grupos, de modo que dentro de cada grupo haja uma melhor compreensão das suas estruturas e, entre eles, se percebam melhor as suas relações.
Ora, na primeira metade dos anos 70 do século passado apareceu uma taxonomia (Bloom) que dizia respeito não à Natureza mas a objectivos de educação. Essa taxonomia pretendia uma classificação das metas do nosso sistema educativo, a partir de uma definição de cada uma delas. Desejava-se, assim, que os políticos da educação mas, também, os educadores definissem não só o que pretendiam ensinar mas, principalmente, que determinassem até que níveis do conhecimento entendiam levar os alunos a aprender.
As três crónicas anteriores tentaram ilustrar esses diferentes níveis do conhecimento, na sua significação mais ampla (memorização, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação) e mostrar que neles se implicam diferentes capacidades mentais, desde a mais elementar, mas não menos importante, memorização até à formulação de juízos de valor, a partir de critérios bem determinados.
O acolhimento, na altura, desta taxonomia e a importância que lhe foi atribuída foram tais que, nas instituições formadoras de professores, começou a ser adoptada. E havia razões para isso, uma vez que ela alertava o professor para determinadas operações mentais do aluno que, sendo elas efectuadas, se poderia afirmar que ele tinha aprendido. Não se tratava de uma pedagogia que tinha subjacente uma filosofia para a educação. Tratava-se, simplesmente, de uma técnica que visava que o aluno pudesse atingir níveis elevados de cognição, num determinado sector do conhecimento.
O que sucedeu, posteriormente, foi que o seu alcance foi posto em causa por alguns progressistas da educação por entenderem que a única função do professor era tentar obter comportamentos observáveis nos alunos, a partir dos objectivos gerais estabelecidos pelo poder instituído e de se preocuparem pela eficácia imediata da acção educativa. Segundo esta interpretação da taxonomia, o ensino era conduzido a uma homogeneização de métodos e técnicas e de receitas para cada objectivo.
Ora, quem tiver lido as três crónicas anteriores, facilmente verificará que é, precisamente, ao oposto que esta técnica, criteriosamente usada, conduzirá. Não se exclui que um seu mau uso pudesse trazer um ou outro aspecto a rejeitar. Mas, para isso, haveria que estudá-la adequadamente, tendo em conta o seu alcance pedagógico e, depois, extrair dela todas as potencialidades.
Não será altura de retomar esta taxonomia, expurgando-a de alguma da sua complexidade (e ter em atenção o seu mau uso!), e encará-la como uma técnica que implica grandes desafios para o professor e um alcance educacional muito grande para o aluno?
Mário Freire

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