\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

sábado, fevereiro 05, 2011

Mário Silva Freire

PARA UM DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO

Forçar a mudança através da actuação solidária

Foi comovente assistir ao testemunho, na Semana da Pastoral Social de Setembro de 2010, de pessoas que, mercê de circunstâncias variadas, imprimiram um novo rumo às suas vidas ou que, desprendendo-se um pouco de si próprias, tentaram erguer outros que se encontravam em destroços.
Foi o caso de alguém com trinta e tal anos que, após um acidente grave, é lançado para uma cadeira de rodas. Houve, então, desespero mas, com a ajuda de muitos afectos, conseguiu dar a volta à maneira de encarar a sua situação. Hoje, essa pessoa, apesar da extrema dependência física que consigo transporta, é um elemento indispensável na animação e gestão de uma associação de idosos que ajudou a criar.
Outro é o caso de quem aproveita os seus tempos livres a visitar os presos, a ouvir-lhes as suas mágoas e, também, a ajudá-los a construírem os seus projectos de futuro. E estes nem sempre se apresentam de bom augúrio quando se tem atrás de si um passado prisional. O chamado microcrédito pode ser uma ajuda útil para as pessoas iniciarem um negócio que lhes dê a autonomia e a dignidade. Mas, dizia-se nesse depoimento, mais importante ainda é o macrocrédito, isto é, a confiança que tem que ser dada a cada um que viveu a privação da liberdade, ajudando-o a libertar-se das desconfianças dos outros e dos fantasmas de si próprio.
E que dizer daquela voluntária que, altas horas da noite, vai à procura das que tentam vender o corpo? São pessoas que são encontradas em sítios esconsos, por vezes muito jovens e que, mercê de abandonos familiares ou outros, se vêem postas na rua. Elas estão entregues a si próprias e não encontram outra saída para as suas vidas que não seja a da prostituição. Mas há também aqueles em que o desemprego, a droga, o álcool, com consequentes quebras dos laços de família, se vêem colocados a dormir nas ruas, embrulhados nas caixas de cartão ou no vão de alguma escada de prédio abandonado. É essa mesma mulher que, ouvindo as raivas contidas, tenta restituir a estas vidas a dignidade que perderam e o respeito por si próprias, ajudando-as a construírem projectos para o seu futuro.
Enfim, a força da solidariedade é uma alavanca que pode contribuir para mudar os outros e o mundo mas, também, a nós próprios!
Mário Freire
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(1) in, FONTE NOVA, n.º 1809, terça-feira 1 de Fevereiro de 2011

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