\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

Como vão distantes os tempos gloriosos da proclamação das excelências dos chocolates S.I.C. no ABC-Zinho!
Meio século depois, nas páginas das revistas, nos anúncios soltos, na utilização dos elementos da linguagem ou dos heróis da BD, na simples alusão à sua específica técnica comunicacional, em todos os lugares e sob todos os pretextos, os quadradinhos continuam a desempenhar a sua função publicitária, embora esta fique algo distante dos originais objectivos narrativos, nos domínios da pura recreação.
Os mais diversos serviços ou produtos -discos ou DVD’s, insecticidas, telemóveis, jornais desportivos, automóveis, fornecedores de TV por cabo, seguradoras- podem constituir hoje matéria susceptível de divulgação pela BD.
A universalidade desta linguagem fornece-lhe uma natural vocação para prosseguir as mais diversas e insuspeitas finalidades: divulgar acontecimentos culturais, promover bebidas e associar-lhes lugares, informar sobre programas em discotecas ou ilustrar sacos de plástico ligados a semanários.
Nem sequer os domínios financeiros escaparam aos sortilégios da BD, no que será, provavelmente, uma das suas mais criativas utilizações.
Instituições bancárias servem-se dos quadradinhos para informar ou, como mecenas, para editar, enquanto os jornais da especialidade utilizam com frequência a “mitologia” da BD para ilustrar ou motivar alguns textos. Mas o caso mais interessante vem da própria instituição oficial dedicada aos assuntos fiscais.
Zé Olhinhos, vencendo os boatos ao explicar-nos que o património não estava sujeito a imposto, deu lugar, mais modernamente, a Porfírio Zap, atormentado por pesadelos fiscais, pelo qualificado traço de José Carlos Fernandes.
Há experiências de utilização da banda desenhada que, pela sua reduzida dimensão local ou pelo seu limitado alcance, ficam numa zona de silêncio que raramente ultrapassam. São iniciativas locais, normalmente de responsabilidade autárquica, com objectivos pragmáticos ao serviço das respectivas comunidades.
Posso aqui evocar uma, porque nela co-participei, como autor dos respectivos argumento e story-board, sendo a arte final da autoria do desenhador Rui Real. Tratou-se de um desafio da Câmara Municipal de Nisa, ao propor-nos a adaptação do seu Regulamento de Edificações Urbanas a um folheto sob a forma de BD, portanto mais acessível à generalidade dos munícipes.
Existem hoje alguns exemplos, posteriores, de trabalhos sobre a temática da organização e da segurança no trabalho (como os aqui reproduzidos na primeira tira, sobretudo de origem brasileira), mas o Regulamento nisense ficou como um pioneiro, quase ignorado, da acessível publicitação popular de um texto oficial, técnico e quase hermético.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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