\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

sábado, janeiro 15, 2011

Mário Silva Freire

PARA UM DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO

Qual o caminho da nossa pegada? (1)

Referiu-se na última crónica aquele aspecto da economia em que a produção é feita sem critérios de validade social e ambiental, sendo o lucro o único móbil a considerar. Quando se faz um uso excessivo dos recursos naturais, ao mesmo tempo causa e consequência de um consumismo exagerado, inevitavelmente que se deixam marcas de degradação no ambiente.
Foi a pensar na dimensão crescente destas marcas e na forma de quantificá-las, que os especialistas criaram o conceito de pegada ecológica. Ela ajuda-nos a perceber o impacto que o nosso estilo de vida tem sobre a Terra e a avaliar até que ponto a nossa sociedade de consumo é compatível com a capacidade do Planeta para absorver e renovar os resíduos e poluentes que essa sociedade gera. A pegada ecológica individual é calculada pela área em hectares que uma pessoa necessitaria para produzir os seus alimentos, obter a água e energia para as suas necessidades, o espaço para eliminar os seus lixos e plantas verdes para captar os poluentes do ar resultantes dos transportes, aquecimento, etc.
Para que a Terra se pudesse renovar adequadamente, sem acumulação de poluentes, seria necessário que cada pessoa tivesse uma pegada ecológica de 2 ha Acontece, porém, que o valor médio mundial da pegada ecológica é já de 2,9 ha por habitante, ou seja, 35% maior do que a capacidade de regeneração do Planeta. Mas esta média pouco nos diz acerca da distribuição das diferentes pegadas pelos continentes. Assim, segundo valores indicados na Semana da Pastoral Social, enquanto que em África a média da pegada é de 1,5 ha, na Europa Ocidental é de 6 ha e nos E.U.A. atinge o valor de 12 ha. Significa isto que, se cada indivíduo consumisse ao ritmo dos habitantes da classe média dos EUA, seriam necessários 4 planetas Terra para cumprir as exigências de consumo da população humana actual! Considera-se que, da totalidade dos recursos que a Terra possui desde o aparecimento da humanidade, nos últimos 30 anos, 1/3 desses recursos foi consumido.
Perante estes dados, que pensar sobre o futuro do nosso planeta? Será que este aumento avassalador da pegada ecológica nos países desenvolvidos, correspondente a um aumento no seu consumo, traduz um bem-estar que é repartido por toda a humanidade? Ora, já vimos que nem sempre o crescimento é sinónimo de desenvolvimento e quando aquele vem acompanhado pela redução da biodiversidade, pelo aumento do dióxido de carbono na atmosfera, pelo aquecimento global, pela destruição da floresta…, então a pobreza no mundo aumenta, as desigualdades sociais acentuam-se e todos vamos caminhando para o cataclismo.
Seria de interesse para o Planeta que todos os tratados, protocolos, etc., já assinados sobre o Ambiente correspondessem a um autêntico compromisso de urgência. Aos políticos compete estabelecer as normas e fazê-las executar e a não se submeterem aos poderes que elegem o lucro como único valor. A vida no seu todo e a qualidade de vida da humanidade assim o exigem.
Mário Freire
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(1) in, FONTE NOVA, n.º 1806, terça-feira 11 de Janeiro de 2011

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