\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, janeiro 07, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

RÉGIO HOJE

II - JOSÉ RÉGIO, JORNALISTA

A diversidade das intervenções públicas de Régio implicou uma multiplicidade de modalidades, de veículos e de suportes. Uma, apenas, das suas múltiplas opções merece ser agora realçada: a colaboração de José Régio na imprensa local. São conhecidos três títulos, todos hoje “históricos”, de jornais portalegrenses onde ele deixou alguns dos seus escritos: Alto Alentejo, A Rabeca e O Distrito de Portalegre.
O primeiro contém 5 artigos, onde Régio se estreou, logo em 1930, com crítica teatral e cinematográfica, para além de um notável texto sobre José Duro, e o último dispõe de uma sua única intervenção, a pretexto de uma ambiciosa proposta de D’Assumpção sobre um museu de arte moderna em Portalegre. Foi em 17 de Dezembro de 1960.
Foi portanto nas páginas d’A Rabeca que ficou depositado o essencial da colaboração jornalística portalegrense de José Régio. Sendo apenas 16, eles revestem-se, porém, de uma dimensão significativa, pois abrangem um notável diversidade e profundidade, do conto à poesia, da divulgação literária à intervenção pedagógica e, sobretudo, às corajosas denúncias cívicas e críticas políticas.
A tertúlia de café onde Régio se inseriu constituiu de certo modo um contexto fundamental desta participação, pois foi o inseparável companheiro Feliciano Falcão que provocou a sua escrita inicial no saudoso semanário, propriedade do sogro daquele, João Diogo Casaca. Aliás, como singular coincidência, anote-se a circunstância de o próprio Café Central, cenário privilegiado do convívio diário e de tantas actividades conjuntas da tertúlia, ser então igualmente propriedade de João Diogo Casaca, ainda que mais directa e presencialmente gerido pela sua esposa.
O episódio que vai proporcionar (ou exigir) o artigo inicial de José Régio começa num texto de Feliciano Falcão, publicado n’A Rabeca n.º 1203, datada de 6 de Dezembro de 1941: José Régio e Portalegre. Aí, o articulista denuncia com implacável dureza a intelectualidade local, incapaz de perceber o valor e o significado da presença de José Régio na cidade...
Alheio à polémica entretanto despoletada, e traduzida numa dura reacção patente noutro semanário local, José Régio escreve uma Carta Aberta ao Senhor Director deste jornal (naturalmente A Rabeca), onde agradece a pública demonstração de apreço do amigo, onde traça um rigoroso retrato da mediocridade cultural portalegrense e onde se disponibiliza para a melhorar...
Isto aconteceu no dia 20 de Dezembro de 1941, vão portanto decorrer uns precisos 70 anos sobre essa data neste 2011. Mais outra, portanto, das tais efemérides.
A seguir, em Abril de 1942, seria o primeiro centenário do nascimento de Antero do Quental que levaria novamente Régio às páginas d’A Rabeca. Depois, o dia 14 de Novembro de 1945 ficou registado como o da divulgação do artigo A Democracia, os Intelectuais e o Povo, onde o escritor deixaria no jornal a sua primeira denúncia política. E assim foi acontecendo com regularidade, até Outubro de 1966, já Régio tinha deixado Portalegre, quando A Rabeca ostentou o seu derradeiro escrito jornalístico: República.
O que pode (e deve?) Portalegre fazer para perpetuar esta efeméride regiana parece de fácil dedução. Contando com António Ventura como um dos mais competentes investigadores destas facetas de José Régio -o publicista e o interventor cívico- deverá a comunidade inclui-lo e conceder-lhe primazia, obrigatoriamente, na definição e realização das desejáveis iniciativas.
A organização de uma exposição pública, com características técnicas adequadas a uma fácil itinerância, poderá divulgar ampliações devidamente anotadas de todas as páginas regianas publicadas em A Rabeca. Um catálogo alusivo garantiria a memória futura quanto a este “capítulo” da vida e obra de José Régio.
Uma série de conferências/colóquios sobre a vertente jornalística de José Régio poderia abordar, para além da sua colaboração na imprensa local -sobretudo n’A Rabeca-, a vasta relação de mais títulos, regionais e nacionais, para os quais ele também produziu artigos, onde se destacam A Capital, Diário de Notícias, Diário Popular, Diário de Lisboa, Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Notícias e outros.
Naturalmente, uma digna evocação das duas personalidades que estão mais intimamente ligadas a este pretexto -Feliciano Falcão e João Diogo Casaca- constituiria parte integrante da putativa homenagem.
Aliás, o que aqui basicamente se propõe já dispôs, em Portalegre, de um grato e bem sucedido antecedente, que deu origem a uma mostra pública, na desaparecida Galeria Municipal de Arte, ao Rossio, entre 23 de Maio e 6 de Junho de 1981, sob o título Exposição Retrospectiva da Imprensa de Portalegre. Desta resultaria a edição, pela CMP, do respectivo catálogo: António Ventura e Aurélio Bentes Bravo, Inventário da Imprensa de Portalegre (1836-1970). Uma década depois e a partir daí, a Câmara editaria um trabalho de maior fôlego, tornada hoje uma obra de referência na nossa bibliografia: Publicações Periódicas de Portalegre (1836-1974), de António Ventura.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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