\ A VOZ PORTALEGRENSE: Dezembro 2010

sexta-feira, dezembro 31, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

RÉGIO HOJE

I - OS 80 ANOS DA CHEGADA DE JOSÉ RÉGIO
A PORTALEGRE

Terminaram oficialmente em Portalegre as comemorações dos 80 Anos da Chegada de José Régio a Portalegre. Foram meses de uma intensa e participada série de eventos locais, um ou outro com alguma expressão exterior, que culminaram, há escassos dias, com a brilhante lição de um dos maiores regianos vivos, Eugénio Lisboa.
Este lembrou-nos, sobretudo, a modernidade de Régio. E é esta modernidade que nos impõe, aqui e agora, algumas reflexões.
Na história recente de Portalegre, cidade do Alto Alentejo cercada (de mil coisas!), acontece que Régio foi de vez em quando por cá lembrado a partir de iniciativas geradas pela chamada sociedade civil e, também, por entidades oficiais.
Naturalmente, a partir dos últimos anos de vida do Poeta, deve destacar-se a sábia, oportuna e decisiva intervenção da autarquia, liderada pelo Prof. Silva Mendes, que ficou concretizada na Casa Museu, inaugurada a 23 de Maio de 1971, cumprir-se-ão portanto 40 anos em 2011.
Depois de um dilatado período de silenciamento do Homem e da Obra (como bem nos explicou Eugénio Lisboa!), foi também aqui que, em 1983/84, um pequeno grupo de cidadãos (António Ventura, Aurélio Bentes e eu próprio), inconformados com tão injusta situação, decidiu romper essa obscuridade. E fizemo-lo com a eficácia possível, apesar da indiferença (?!) dos líderes autárquicos locais da época.
Os tempos da presidência de João Transmontano alteraram a situação, tendo sido promovida a desejada geminação entre Vila do Conde e Portalegre, as duas mais “indiscutíveis” terras de José Régio. As comemorações e realizações de então -estávamos em 1994- prometeram um fértil futuro infelizmente não confirmado. Com efeito, para além dos sucessivos alheamentos locais, até as efemérides regianas assumidas a nível nacional, como a do 1.º Centenário do Nascimento em 2001, se transformaram em frustes e impotentes comissões, geradoras de modestíssimos eventos...
Até que, em 2009, as Três Escolas de Régio -Escola Superior de Educação, Escola Secundária Mousinho da Silveira e Escola Básica José Régio- decidiram, anunciaram e concretizam um plano de comemorações do 80 anos da sua chegada, como professor, à nossa cidade. Cumpridas no essencial, estas comemorações traduziram-se num vasto leque de realizações que abrangeram, para além das comunidades escolares -alunos, funcionários, encarregados de educação e professores-, a população interessada. Algumas iniciativas programadas poderão ainda ser concretizadas em diferido, como as que procuraram parcerias empresariais específicas. Também a Associação Pés Vagarosos prestou uma empenhada colaboração, para além de programação específica que levou a efeito.
A Câmara Municipal de Portalegre, autonomamente, concretizou uma série de eventos alusivos, em particular exposições e colóquios. A mostra regiana, durante meses patente em salas do Castelo, constituiu a mais completa e valiosa divulgação da vida local de Régio alguma vez aqui concretizada. Quanto aos colóquios/conferências destacam-se, sem embargo da reconhecida qualidade e do inegável interesse dos restantes, aqueles que nos trouxeram o testemunho, autêntico, de quem conviveu com o imortal autor da Toada: os Amigos de Régio - António Teixeira, António Ventura, Fernando J. B. Martinho, Florindo Madeira, Mário Freire e Tito Costa Santos- (a abrir), João Marques e Eugénio Lisboa (a fechar a série).
Entretanto decorre uma outra iniciativa, já em complexa mas plena marcha e desta vez protagonizada por uma jovem e recente empresa de dinamização turística local, relativa à permanente disponibilidade, em Portalegre, de um percurso histórico-cultural regiano, a partir de um futuro próximo.
Podemos afirmar, sem qualquer receio de contraditório, que este recente pretexto significou um bom exemplo daquilo que Portalegre pode e deve manter, como espírito de permanente evocação e justo destaque de alguém que constitui um dos seus mais valiosos patrimónios culturais, de dimensão universal.
Mas a modernidade de Régio, a tal que Eugénio Lisboa nos veio agora recordar, impõe mais. E, se para tanto precisarmos de pretextos, como o que recentemente nos motivou, então o próximo ano de 2011 é deles particularmente rico e... provocador.
Para além daquilo que esperamos da autarquia, certamente comprometida com uma digna evocação dos homens e das circunstâncias que dotaram Portalegre de um dos seus mais sólidos motivos patrimoniais de atracção cultural e turística -a Casa Museu de José Régio-, para além desta expectativa, analisemos outros potenciais desafios e oportunidades contidos nas efemérides regianas de 2011.
António Martinó de Azevedo Coutinho

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Carlos Manuel Serra

Cristovam Pavia, Poesia
Edição de Joana Morais Varela
Prefácio de Fernando J. B. Martinho
Publicações D. Quixote, 2010
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Os 35 Poemas de Cristovam Pavia voltaram ao prelo, mais de 50 anos após a sua publicação original (1959). O novo volume inclui oito textos inéditos e está arrumado de forma diferente: os especialistas consideram que a ordenação agora dada aos poemas, distinta da primeira, é «mais correcta».
Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, que viria a assinar Cristovam Pavia, nasceu em 1932, em Lisboa. Ainda antes dos 20 anos, publicou poemas nas revistas Távola Redonda e Árvore. Cursou Direito, sem concluir o grau; licenciou-se em Filologia Germânica. Sofria de problemas psíquicos e tentou tratamento na Alemanha até 1962. Suicidou-se em 1968, de volta à capital portuguesa. O único livro que publicou em vida foi 35 Poemas.
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Sebastião da Gama, José Régio e Cristovam Pavia
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POESIA
O lírico segredo
Por ninguém desvendado
Na manhã de neblina
Deixá-lo ir assim…
Eu fico livre e calmo,
Sem amor, sem saudade…
O peso das palavras
Evolou-se… Neblina…
E a poesia nasce
Como se fosse música…
Cristovam Pavia

História Natural da Destruição

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O SILÊNCIO QUE POUSOU NAS RUÍNAS
No final do Outono de 1997, quatro anos antes da morte num estúpido acidente de automóvel, W. G. Sebald proferiu em Zurique duas conferências sobre Guerra Aérea e Literatura, nas quais analisou os escassos reflexos da devastadora campanha aliada de bombardeamento da Alemanha nazi, desencadeada entre 1942 e 1945, nos romances germânicos do pós-guerra. Previsivelmente, ao abordar temas que foram, durante muito tempo, tabus na sociedade alemã (por exemplo, a forma como uma espécie de amnésia colectiva permitiu a sobrevivência aos traumas da derrota militar e ao peso da culpa pelos horrores do III Reich, abrindo caminho a um recomeço da estaca zero), Sebald expôs-se à polémica com outros académicos e às catilinárias dos leitores, alguns dos quais lhe enviaram vasta correspondência e elaboradas refutações das suas ideias. Em História Natural da Destruição, ensaio póstumo editado em 2003, reúnem-se tanto as “lições de Zurique” propriamente ditas como a resposta às reacções que elas provocaram.
«Apesar dos denodados esforços para vencer o passado, quer-me parecer que os Alemães são hoje um povo nitidamente cego para a história e falho de tradição», escreve Sebald, para logo depois acrescentar: «quando olhamos para trás, em particular para os anos de 1930 a 1950, é sempre com um olhar que ao mesmo tempo se foca e se desvia». Este desvio, esta incapacidade de fixar o que se passou nos últimos anos da guerra, sobretudo por parte dos escritores que tinham o dever do testemunho a posteriori, é o fulcro da perplexidade de Sebald e o mote para a investigação sobre o silêncio que pousou, em 1945, nas ruínas de um país reduzido a cinzas.
Antes de esmiuçar o modo como os escritores alemães omitiram, ou narraram apenas de forma incompleta, a imensa catástrofe humana sofrida pelas populações, o autor de Os Emigrantes leva a cabo um levantamento da “acção destruidora sem precedentes” que os aliados infligiram, pelos ares, a partir de Inglaterra: um milhão de toneladas de bombas sobre 131 cidades; 600.000 civis mortos; sete milhões e meio de desalojados. Guerra é guerra, dirão muitos, ignorando talvez que a estratégia de area bombing, defendida por Sir Arthur Harris, continuou a ser aplicada mesmo quando já não era eficaz, apenas porque a “máquina” (que absorveu um terço de toda a produção britânica de material de guerra) não podia parar.
A partir de relatos dispersos, Sebald descreve com minúcia a tempestade de fogo que se abateu sobre Hamburgo, os corpos calcinados, o desmoronar da ordem social, a invasão das ratazanas e as torrentes de pessoas que se espalharam pelo resto do país, em estado catatónico, incapazes de verbalizar o horror absoluto da sua experiência, num prenúncio dessa espécie de “acordo tácito” segundo o qual “era impossível descrever o verdadeiro estado de aniquilamento material e moral em que se encontrava todo o país”. Este interdito estendeu-se, paradoxalmente, aos escritores. E se uns apenas publicaram a sua visão daqueles dias negros décadas mais tarde (caso de Heinrich Böll), outros fizeram-no no pós-guerra (Herman Kasack, Hans Erich Nossack, Arno Schmidt ou Peter de Mendelssohn) mas de forma discutível, porque incapazes de captar a realidade crua da tragédia alemã, sem filtros estéticos, alusões abstractas ou filosofismos serôdios. É esta pelo menos a opinião de Sebald, que analisa no seu estilo compacto (de enormes parágrafos e longas frases muitíssimo bem articuladas) as várias obras destes escritores e a evidência do seu falhanço.
Além do posfácio, réplica em tom pessoal aos ataques desferidos às teses das “Lições”, o volume inclui ainda três ensaios (sobre Alfred Andersch, Jean Améry e Peter Weiss), interessantes mas algo descentrados do tema deste livro corajoso.
[Texto publicado no dia 7 de Abril de 2006, no suplemento do Diário de Notícias]
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Mário Casa Nova Martins

Mário Silva Freire

CRÓNICAS DE EDUCAÇÃO – XXIX

A vigília dos adolescentes

Há dias, um adolescente de 13 anos dizia-me, com a maior das naturalidades, que tinha estado toda a noite a ver televisão e que só se tinha deitado quando o sol estava a nascer! Este tipo de situações que, por motivos fúteis, impedem o dormir, está mais generalizado do que poderia pensar-se. Não deve, pois, deixar de merecer a atenção dos educadores e, muito em especial, dos pais, os motivos que estão subjacentes nos adolescentes para eles privarem o organismo de dormir durante a noite.
Quatro principais causas existem para, deliberadamente, na adolescência, se privar de um sono que é essencial no desenvolvimento físico e psicológico. Uma delas já foi invocada: ver televisão pela madrugada dentro. Ter a televisão no quarto é um convite a vê-la até à hora de dormir. Ela, no entanto, excita e, de tal maneira pode prender a atenção, que o adolescente é levado a esquecer-se do tempo e de tudo o que o rodeia.
Jogar no computador é outro modo que os adolescentes encontram para passar partes da noite em claro. Os jogos foram construídos para captar o interesse e solicitar a participação activa nas situações lúdicas. Ainda, utilizando o computador, existe a conversa com os amigos no Messenger, no Facebook, no Hi5…, que fazem correr velozmente o tempo...
Depois, há os sms, aquelas mensagens hieroglíficas através do telemóvel que são escritas com rapidez estonteante! Aqui se trocam opiniões e se dizem os pequenos nadas que fazem o tudo de muitos adolescentes.
E, entretanto, começam as saídas à noite, por vezes, até de manhã…
Para além de privarem de um sono reparador, todas estas modalidades de consumir o tempo podem veicular mensagens totalmente inapropriadas às idades daqueles que as recebem.
Qual o papel dos educadores perante estas situações que, quotidianamente, se lhes apresentam? Sem haver receitas uniformes, há que referir que o diálogo é um meio importante de esclarecimento, de mostrar aos adolescentes dos prós e dos contras de muitos dos seus comportamentos. Mas há, também, com serenidade mas firmeza, de estabelecer limites e restrições ao uso dos aparelhos. Enfim, e acima de tudo, há que ter uma vigilância discreta mas permanente, para que não tenhamos que ver pais desesperados, nos telejornais, pelo desaparecimento dos seus filhos adolescentes os quais mantinham contactos não se sabe com quem nem sobre o quê!
Mário Freire

terça-feira, dezembro 28, 2010

José Manuel Coelho

Candidato presidencial anti-sistema
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Mário Casa Nova Martins

"Wenn ich Kultur höre ... entsichere ich meinen Browning!"

A revista ÚNICA do semanário Expresso de 11 de Dezembro de 2010 tem um trabalho, da página 68 à 72, assinado por Paulo Nogueira intitulado «Célebres e erradas»
Começa assim: _ São tiradas que ficaram para a história, atribuídas aos seus autores famosos. Mas nem tudo o que foi dito para a posteridade foi registado exatamente como foi dito…
Com serria expectável, lá surge a estafada frase atribuída a Goering, “Quando ouço falar de cultura, puxo da minha pistola”.
Ora, Paulo Nogueira ‘dá o seu ao seu dono’. A frase é uma deturpação de uma outra. E essa outra é de uma peça de teatro de um alemão chamado Hanns Johst, intitulada «Schlageter».
É evidente que apesar deste repor da verdade, jamais se deixará de atribuir a Goering a ‘frase maldita’. Mas, claro, Hermann Goering pertence aos vencidos da História, melhor, do lado errado da História.
Assim sendo, nada a fazer!
Mário Casa Nova Martins
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When the Nazis achieved power in 1933, Johst wrote the play Schlageter, an expression of Nazi ideology performed on Hitler's 44th birthday, April 20, 1933 to celebrate his victory. It was a heroic biography of the proto-Nazi martyr Albert Leo Schlageter. The famous line "when I hear the word culture, I reach for my gun", often associated with Nazi leaders, derives from this play. The actual original line from the play is slightly different: "Wenn ich Kultur höre ... entsichere ich meinen Browning!" "Whenever I hear of culture... I release the safety catch of my Browning!" (Act 1, Scene 1). It is spoken by another character in conversation with the young Schlageter. In the scene Schlageter and his wartime comrade Friedrich Thiemann are studying for a college examination, but then start disputing whether it is worthwhile doing so when the nation is not free. Thiemann argues he would prefer to fight than to study.

SCHLAGETER: Good old Fritz! (Laughing.) No paradise will entice you out of your barbed wire entanglement!
THIEMANN: That's for damned sure! Barbed wire is barbed wire! I know what I'm up against.... No rose without a thorn!... And the last thing I'll stand for is ideas to get the better of me! I know that rubbish from '18..., fraternity, equality, ..., freedom..., beauty and dignity! You gotta use the right bait to hook 'em. And then, you're right in the middle of a parley and they say: Hands up! You're disarmed..., you republican voting swine! — No, let 'em keep their good distance with their whole ideological kettle of fish.... I shoot with live ammunition! When I hear the word culture..., I release the safety on my Browning!"
SCHLAGETER: What a thing to say!
THIEMANN: It hits the mark! You can be sure of that.
SCHLAGETER: You've got a hair trigger.

—Hans Johst's Nazi Drama Schlageter. Translated with an introduction by Ford B. Parkes-Perret. Akademischer Verlag Hans-Dieter Heinz, Stuttgart, 1984.
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segunda-feira, dezembro 27, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

A primeira manifestação do fenómeno publicitário ligado aos quadradinhos encontrei-a pelos tempos mágicos dos finais da década de 30, inicíos dos anos 40, do passado século. Foi mais ou menos na época em que me encontrei, para sempre, com Tintin.
O suporte era outro, no entanto da mesmíssima família d’O Papagaio: o ABC-Zinho, suplemento infantil da ABC, uma das mais influentes revistas nacionais do passado século. Exemplares soltos -muitos exemplares de dois distintos formatos- povoavam o meu próprio lar. Guardo ainda o que deles restou, sobretudo páginas soltas, algumas revistas cuidadosamente recuperadas, testemunhos de tempos descuidados, onde nós, os gaiatos dessa época, nem sequer entenderíamos plenamente o alcance e as intenções de alguns conteúdos para além das histórias mais óbvias.

O ABC-Zinho foi uma notável publicação que reuniu um elenco de colaboradores literários e gráficos de invulgar qualidade, publicada em duas séries, a primeira entre 1921 e 1926, e a segunda de 1926 a 1932. Ligada a um grupo editorial organizado, decorreu com naturalidade a participação de publicidade no seu conteúdo. Um exemplo muito interessante, subscrito pelo génio de Cottinelli Telmo (1987-1948), conceituado arquitecto e autor de banda desenhada, consistiu na regular publicação de páginas dedicadas à promoção dos chocolates da marca S.I.C., situando as sucessivas cenas num enquadramento “histórico” ligado aos tempos pioneiros da nossa monarquia.
Cottinelli Telmo, que criou para os quadradinhos nacionais o nosso primeiro “herói” com alguma consistência -o Pirilau-, detinha um traço muito pessoal, deixando-nos uma interessante série de cartoons que constitui um belo exemplo das primeiras experiências ligando a publicidade à BD, entre nós. Estão no ABC-Zinho, entre 1921 e 1922.
Fora das páginas especificamente dedicadas à 9.ª Arte, serão dos tempos imediatos, talvez pelos anos 40, os dois exemplos seguintes.
Um folheto com quadradinhos desenhados, e singelas quadras como legendas, é dedicado à proclamação das virtudes do Mitigal, um produto da multinacional farmacêutica Bayer que tira rapidamente a comichão, sendo indicado na sarna e em todas as doenças parasitárias da pele. Anúncios similares são conhecidos um pouco por todo o mundo, e não apenas na imprensa, também em spots publicitários na rádio. O folheto português foi impresso nas Indústrias Gráficas, no Regueirão dos Anjos, 68, em Lisboa.
Embora desprovida de signos cinéticos, onomatopeias, balões, metáforas visualizadas e outros elementos da linguagem da BD que ali poderiam ter lógico lugar, não deixa de conter elementos essenciais dos quadradinhos, como a sucessão cinética e narrativa das imagens, bem patente na tira inferior, com o paciente entregue aos cuidados do curandeiro de feira...
O outro exemplo consiste num singelo desdobrável onde se destacam as virtudes da Ovomaltine fria, como a bebida ideal de Verão. Originalmente suiço, o produto é hoje dominado por uma multinacional inglesa que, por curiosa coincidência, fornece Ovomaltine à cadeia McDonald’s desde 2009, para confecção da sua linha de sorvetes...
As duas juvenis personagens protagonizam uma curta sequência traduzida numa banda desenhada, curta e elementarmente funcional, desta feita com balões e signos cinéticos, embora estes parcimoniosamente apenas usados na “forte agitação” da mistura. Dispensável, a numeração das vinhetas...
Dessa primeira metade do nosso século XX, aqui ficam estes três casos soltos, reveladores de como, em tempos ainda ingénuos quando confrontados com os de hoje, já a BD se prestava, em diversos níveis de participação (enunciados no texto inicial), a uma função de cariz publicitário.
Passemos à segunda metade...
António Martinó de Azevedo Coutinho

sábado, dezembro 25, 2010

Mário Silva Freire

PARA UM DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO

A causa remota da crise (1)

Estamos mergulhados numa crise de cariz social e económica e, tudo aponta, ela estará para durar. Muitos dos seus sintomas estão a ser sentidos por muitos, principalmente pelos mais débeis do ponto de vista financeiro. O aumento do desemprego, o aumento da pobreza, a diminuição dos salários e a diminuição dos apoios sociais são algumas das situações que estão a atingir uma parte da população.
Explicações para estes factos não têm faltado, desde a feroz competitividade existente a nível global com a consequente racionalização e automatização dos processos de trabalho, conduzindo à extinção de muitas organizações, passando por especulações financeiras visando o lucro rápido e fácil, até ao crescente agravamento das dívidas do Estado, das empresas e das pessoas.
Ora, este tipo de razões, que tem a ver com aspectos estruturais e conjunturais da sociedade e do País, poderia apelidar-se, de acordo com a designação utilizada pelos membros da Academia Pontifícia das Ciências Sociais, como de natureza técnica. Mas a crise, ainda de acordo com aquela Academia, tem contornos mais profundos e mais remotos. Eles filiam-se em aspectos de ordem cultural e espiritual. É no homem, pois, na sua cultura, com as suas sombras, e na sua espiritualidade que reside a crise.
A encíclica Caritas in veritate pode, porém, constituir-se num instrumento que ajuda a ver tais sombras que impregnam a cultura contemporânea e contribuir para lhe dar uma visão mais autêntica da verdade. E diz-se mais autêntica porque, nos dias de hoje, parece não existir critérios seguros para distinguir o bem do mal, o justo do injusto. Tudo depende das circunstâncias e dos interesses em jogo. Assim, um juízo moral poderá ser verdadeiro quando os membros de uma sociedade acreditam que ele é verdadeiro; no entanto, esse juízo será falso quando esses mesmos membros acreditam na sua falsidade. Enfim, tudo seria subjectivo e relativo.
É com base neste relativismo moral, em nome da tolerância, que se toleram todas as posições. Decorre daí que, sem princípios universais morais, se torna difícil afirmar o que está certo ou errado, o que é bom ou mau. Por vezes, basta uma lei para transformar um acto moralmente reprovável num outro de grande modernidade e, por isso, de fácil aceitação. Ora, segundo a doutrina social da Igreja expressa na Caritas in veritate, o cerne da crise que estamos a viver enraíza nesse relativismo que embebe a cultura e o espírito contemporâneos.
Mário Freire
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(1) in, FONTE NOVA, n.º 1804, terça-feira 21 de Dezembro de 2010

sexta-feira, dezembro 24, 2010

PROFFORMA

1º número da revista online PROFFORMA
em:
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Carlos Manuel Serra

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Mário Silva Freire

CRÓNICAS DE EDUCAÇÃO – XXVIII

O PISA ainda continua a pesar!

Foram anunciados no início de Dezembro deste ano os resultados decorrentes da avaliação dos alunos com 15 anos de idade, tendo em consideração a sua preparação para enfrentar os desafios do futuro. Esta avaliação é feita pelo PISA que é um programa que agrega os 33 países da OCDE e mais 32 outros países de várias partes do mundo.
Esta avaliação incide em dimensões que têm a ver com o que os jovens sabem, valorizam e são capazes de fazer em contextos pessoais, sociais e globais, mas que são diferentes das que se baseiam exclusivamente nos curricula oficiais.
Em Portugal, a amostra, de carácter aleatório, teve a dimensão de 6.298 alunos, dos 7º ao 11º anos de escolaridade, envolvendo 212 escolas, 28 das quais do ensino privado. Na pesquisa efectuada não foi possível recolher dados sobre a identificação das escolas envolvidas nem, tão pouco, sobre a sua localização.
Relativamente à competência da leitura, avaliou-se a compreensão, o uso e a reflexão a partir de textos escritos, sem se pretender saber do conhecimento explícito da língua, das características gramaticais, do vocabulário ou de outros aspectos incorporados no ensino de uma língua materna. A posição de Portugal neste item foi a de 21ª, entre os 33 países da OCDE, tendo ultrapassado a Espanha, Itália e Grécia.
Na competência da matemática pretendeu-se avaliar a capacidade dos jovens para identificar e compreender o papel que a matemática desempenha no mundo real, de fazer julgamentos fundamentados e de usar e se envolver na resolução matemática de problemas da sua vida. Portugal, entre os 33 países da OCDE, situou-se em 26º lugar, ultrapassando, igualmente, a Espanha, Itália e a Grécia.
Quanto às competências científicas, a sua avaliação pretendia dar uma informação sobre o conhecimento, a compreensão e as atitudes que os alunos revelam quanto ao modo como a ciência e a tecnologia explicam e influenciam os ambientes material, intelectual e cultural das sociedades. A posição de Portugal foi de 24ª, ficando, igualmente, à frente da Espanha, Itália e Grécia.
Repare-se que nenhuma destas medidas avaliou directamente os desempenhos escolares. A tal verificar-se, talvez o discurso oficial não tivesse sido tão optimista. Por outro lado, as posições de 21ª, 24ª e 26ª nos três itens estudados, entre os 33 países da OCDE, não podem considerar-se, com rigor, um grande êxito. Salvo se nos compararmos com os nossos companheiros de infortúnio financeiro do sul da Europa e com as penúltimas e antepenúltimas posições que ocupávamos em 2000. Ora, o mal dos outros não nos vem salvar. O que nos pode fazer sair desta ilusão (mesmo abaixo da média, já nos consideramos bons!) é, compararmo-nos com os melhores, tomarmos consciência de que têm que haver objectivos bem definidos para a educação, delinear estratégias claras para os alcançar e, depois, dar-lhes execução, com o rigor e o empenhamento que os grandes desígnios merecem.
Mário Freire

Escola Secundária de São Lourenço

BOAS FESTAS
São os votos da equipa da Biblioteca e do Clube de Amigos da Biblioteca
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Blogue da biblioteca:

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Vítor Luís Rodrigues

«Por Portugal - e mais Nada»

A convergência e a unidade de acção contra os inimigos de Portugal e as ameaças à nossa permanência - como Nação e Identidade e como Estado Nacional, - devem ser uma preocupação constante de todos os que pretendam dar um contributo efectivo ao Combate Nacional, ao esforço de organização e iniciativa Política e Cultural para levantar uma Oposição Nacional ao sistema de morte a prazo - que nos tem dominado, para abrir o Futuro, renovar Portugal, enfrentar e vencer os novos desafios.
Temos de procurar o que nos une e não o que nos separa, numa visão de Portugal que é também a da projecção da Cultura Portuguesa e Europeia no Mundo. Preservar a nossa existência «física» é essencial e recuperar a natalidade, uma prioridade absoluta. Porém, de que hão-de valer os «portugueses» se procederem culturalmente como bárbaros subdesenvolvidos, «consumidores normalizados», ruminando nos «shoppings» sem consciência social e nacional, culturalmente desenraizados sem identidade e sem a mínima noção dos seus interesses como Comunidade? Para que nos servem tantos representantes dessa «burguesia branca» de «esquerda» ou de «direita» que se pavoneia cheia de complexos «politicamente correctos» e visceralmente traidora à Vontade Nacional, que ignora e tantas despreza inconscientemente como relíquia» do passado»? Não há nenhuma dúvida: para uma nova atitude e um modo mais responsável e efectivo de enfrentar a Vida, precisamos de outras «elites» sociais e políticas e de outros Valores.
Sejamos concretos: a Nação portuguesa, mais do que a herança étnica óbvia, é, no imediato, uma herança cultural e política que não recebemos directamente «no sangue». se assim fosse, tudo seria mais simples - e muito mais forte seria a nossa capacidade de defesa. Porém, preservar a Consciência Nacional, ou simplesmente «étnica», é um processo cuidado e complexo. Requer aculturação e educação, requer a vinculação a uma Comunidade, a uma Cultura, e a um Estado que têm de ser foco de nossa Vontade na Civilização. É essa Vontade que deveria ser cultivada e estimulada pelo Poder, se ele fosse efectivamente Nacional. No caso Português foi um factor decisivo nas grandes Crises Nacionais – provou-se que, devidamente assumida e manifestada por «elites» mobilizadoras pode levantar um Poder Nacional onde ele não existir - ou estiver em risco de desaparecer - como está. Essa é a Vontade que importa situar no centro de todas as iniciativas. A nossa Vontade de ser, e de vencer!
É assim fundamental lançar um Combate Político e Cultural inovador, que provoque um choque dinâmico pela renovação e afirmação não só da Consciência Nacional Portuguesa como a redefinição das nossas prioridades e o abandono dos modos de vida irresponsáveis do conformismo falsamente «conservador». Sem essa «Revolução Cultural», reconduzida às traves mestras da matriz civilizacional da tradição europeia, não é possível sustentar Portugal e a Vontade Nacional. Podem sobreviver núcleos étnicos genuínos, «comunidades lusitanas» espalhadas pelo mundo, ou subsistir em «museus» pedaços da nossa «rica herança», mas sem o Estado, sem uma elite dirigente renovada e eficaz, politicamente fiel à Nação, sem uma Comunidade activa e ciosa dos seus interesses, deixamos de ser relevantes - e estamos em vias de chegar a um «ponto de não regresso». A nossa sobrevivência joga-se, assim, na acção política, legal ou mesmo «revolucionária», cívica e cultural, isto é, precisamente na capacidade que a Nação tiver de libertar o Estado, neutralizar os inimigos - que a partir dele a destroem - e desenvolver um Projecto Nacional e Social que ultrapasse este «final de Ciclo» para enfrentar o século XXI.
Nesse espírito, há que renovar e maximizar todos os factores de convergência nacional, e minimizar as divisões, na defesa dos únicos instrumentos de que dispomos para nos defender e desenvolver geopoliticamente: o Estado e a Soberania. Se é verdade que não se conserva senão o que se renova, há que desencadear uma «Revolução Conservadora» que liberte o Estado e a Nação da classe política e das «elites» sociais medíocres e ignorantes que nos conduziram ao desastre. A luta tem de decorrer num plano político e de mobilização popular, em torno de objectivos concretos, como a redefinição da Representação Nacional e da reconversão da própria «Assembleia da República». Porque, enquanto discutimos o que é «Portugal» e quem é «português», há quem não tenha nenhumas dúvidas e faça tudo para que queiramos deixar de o ser. «Eles» estão, a preparar-nos uma morte lenta, mas certa - como Cultura, como Nação e como Estado. É contra «eles» que nos temos de unir e portugueses hão-de ser todos os que estiverem connosco. Portugueses livres, Patriotas e Nacionalistas, cristãos ou pagãos, temos todos que entrar em guerra contra este sistema de morte que nos destrói a Herança, a Esperança e a própria Vida!
Decididamente por nós, quem quiser, contra nós - quem puder! E, no fim, se tiver que ser, como foi tantas e gloriosas vezes, imaginemos um valentíssimo «Arraial, Arraial / de porrada / por Portugal e mais nada - como escreveu Rodrigo Emílio e agora canta José Campos e Sousa. Foi aí mesmo, nesses versos nasceu o grito - e há-de viver sempre na nossa voz, porque o Futuro temos de ser nós: por Portugal - e mais nada.
Vítor Luís Rodrigues

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terça-feira, dezembro 21, 2010

Grupo Desportivo Portalegrense

Futebol Clube do Porto em Portalegre

Entre domingo dia 18 e domingo dia 25 de Outubro de 1953, a equipa sénior do Grupo Desportivo Portalegrense efectua três jogos que ficaram para a sua história. O primeiro e o último, dizem respeito a duas jornadas consecutivas, a sexta e a sétima, do Campeonato Nacional da II Divisão, onde o GDP militava.
A meio da semana, terça-feira dia 20 de Outubro de 1953, o Grupo Desportivo Portalegrense vai jogar uma partida particular com o Futebol Clube do Porto, que naquele momento comandava a classificação do Campeonato Nacional da I Divisão.
Em 18 de Outubro anterior deslocou-se ao Estádio da Fontedeira o ex-primodivisionário Grupo Desportivo Estoril Praia. Previa-se um jogo de elevado grau de dificuldade para o GDP.
José Maria Cabecinha escreveu em “O Distrito de Portalegre” que ‘saiu vencedor merecido o Portalegrense, não pelo seu maior domínio ou pelas suas melhores jogadas, mas porque os dois golos que obteve foram dos que não mereceram contestação, e como o melhor aproveitamento das ocasiões de golo é que ditam os vencedores, está absolutamente certo e justo o seu triunfo.’
Descreveu desta forma o desenrolar da partida e os lances dos dois golos:
_ A primeira parte terminou com 1-0, golo alcançado por Brito aos 15 minutos, depois da marcação de um livre, por Sanina.
_ Na segunda parte, o jogo manteve as mesmas características e foi novamente Brito que aos 54 minutos marcou o segundo golo, depois de uma boa jogada de Jacinto.
Em análise aos jogadores afirmou:
_ Na equipa local, salientou-se o trabalho de Massano, Roqui, Jacinto e Sanina e o acerto de toda a defesa.
Em “A Rabeca” escreveu que ‘O clube portalegrense obteve, no passado domingo, uma esplêndida vitória sobre um dos mais fortes agrupamentos da Zona B; e se é verdade ter em algumas jogadas sido bafejado pela sorte, o que não dúvidas é a justiça do resultado, visto ter oposto à maior capacidade dos visitantes uma velocidade que aqueles só suportaram bem no primeiro quarto de hora.’
Em jeito de conclusão escreveu:
_ Para o resultado conseguido muito contribuiu, porém, o magnífico trabalho de Massano, tapando com o melhor sentido, o esplêndido extremo direito estorilista; a fibra aguda de Roqui à defesa e ao ataque, e a codícia de Jacinto, sem dúvida com o seu melhor jogo desde algumas épocas para cá. De resto o ataque, com excepção feita à lentidão do marcador, Brito, que podia ter feito mais e muito melhor, comportou-se magnificamente com um desrespeito absoluto pela categoria dos ases estorilistas Elói e Alberto.
Em “A Voz Portalegre”, Morujo Trindade escreveu que ‘o grupo azul, que quanto a nós vem domingo a domingo impondo numa melhoria sensível do seu conjunto e dos valores individuais que o constituem, derrotou o Estoril Praia, um dos sérios candidatos ao título, patenteando a todos os que viram o encontro uma exibição que só poderia trazer-lhe, como aconteceu, a vitória.’
Mais adiante diz que ‘ao maior saber estorilista contrapôs o Portalegrense uma velocidade e sentido de penetração, suficientes para lhe impor a sua vontade e daí os dois pontos da vitória.’
E termina prognosticando:
_ Pelo que vimos no passado domingo na Fontedeira, não seremos demasiado optimistas se nos convencermos que poderemos ter esperanças no nosso representante na II Divisão e com vista ao conseguimento dum lugar que lhe assegure o seu ingresso definitivo no próximo arranjo da mesma.
Quanto à arbitragem, dos três semanários de Portalegre, apenas dois a ela se referem. Muito irregular para “O Distrito de Portalegre”, e caseira em “A Rabeca”.
E apenas “O Distrito de Portalegre” edita as três equipas:
Portalegrense, 2
Estoril, 0
Árbitro: João Pimentel, de Évora
Portalegrense: Augusto, Santos e Massano; Moreno, Robalo e Roqui; Parra, Brito, Jacinto, Bica e Sanina.
Estoril: José Maria, Negrito e Alberto; Cassiano, Elói e Nunes; Lourenço, Vinagre, Andrade, Cordeiro e Pastorinha.

A 25 de Outubro o Grupo Desportivo Portalegrense irá a Elvas obter a sua primeira vitória fora, ganhado a «O Elvas» Clube Alentejano de Desportos por 2-0, com a maior justiça, segundo a imprensa local.

Quanto ao jogo com o Futebol Clube do Porto, reproduz-se na íntegra o que os jornais de Portalegre escreveram.
Mas, antes referira-se que a equipa do FCP chegou a Portalegre no domingo dia 18 de Outubro, e segundo “A Rabeca”, ‘o Portalegrense proporcionou aos visitantes nortenhos um passeio pelo Triângulo Turístico, com um lanche na Estalagem «Ninho de Águias», de Marvão; e a volta à Serra de Portalegre.’
No Campeonato da II Divisão o GDP tinha já feito seis jogos com os seguintes resultados e classificação, sexto classificado em catorze equipas:
Leões de Santarém – GDP 3-1
GDP – Casa Pia A. C. 4-1
Torriense – GDP 3-1
GDP – Marialvas 5-0
União de Coimbra – GDP 2-0
GDP – Estoril 2-0
J V E D F C P
6 3 0 3 13 9 6

E no final da reportagem do GDP-FCP, “A Voz Portalegrense” editou:
_ Encarregou-nos o G. D. Portalegrense de transmitir ao comércio da cidade, os seus melhores agradecimentos pela valiosa colaboração que prestaram ao Clube permitindo com o encerramento dos respectivos estabelecimentos, que maior número de espectadores assistissem ao encontro de futebol disputado com o F. C. P..
Foi, sem dúvida, uma grande jornada desportiva em Portalegre este jogo GDP-FCP.

_ A Rabeca, Ano 38, N.º 1752, 21 de Outubro de 1953, pg.2
Sem indicação do nome do autor da reportagem desportiva.
Jogo amigável
F. C. do Porto – 1
G. D. Portalegrense – 1
Ontem, terça-feira, realizou-se nesta cidade o encontro de futebol com o Futebol Club do Porto, que desde domingo à tarde, e a convite do Portalegrense, se encontrava em Portalegre.
Jogo ansiosamente esperado pelos desportistas locais, chamou ao Estádio da Fontedeira uma boa assistência, apesar de ser dia de semana, e diga-se em abono da verdade que valeu a pena. Se o Clube nortenho mostrou mais categoria, o Portalegrense, que vem subindo de forma, fez uma partida magnífica, batendo o pé à maior classe do adversário com jogadas de princípio, meio e fim, que causaram pânico à extrema defesa nortenha, onde Barrigana, com bastante mais trabalho que o guarda-redes local, se salientasse como o melhor jogador no terreno.
É que, quer no primeiro quer no segundo tempo – e neste o Portalegrense fez o seu melhor – os locais exerceram certo domínio territorial, produto duma maior velocidade sobre a bola, que bastas vezes descontrolou a defesa nortenha e que merecia mais do que a bola obtida, se o «calo» em encontros com grupos de figuras de nome no desporto nacional fosse maior e o contacto mais frequente.
A equipa portalegrense mostrou segurança, os médios de ataque, sobretudo Roqui, construíram ataques frequentes a que Jacinto e os restantes avançados davam sequência precisa. Brito, porém, com a lentidão que o caracteriza, prejudicou muitas vezes o trabalho dos companheiros, e sendo duma habilidade extraordinária, causa pena ver a sua pouca fibra.
A arbitragem de João Vieira, regular. Os clubes alinharam:
F. C. do Porto – Barrigana; Virgílio e Osvaldo; Eleutério, Arcanjo e Joaquim; Vieira, Albassini, Monteiro da Costa, Porcel, e depois Del Pinto e José Maria.
Portalegrense – Augusto, e depois Severiano; Santos e Massano; Roqui, Robalo e Moreno; Parra, depois Redondo, Calin, Jacinto, Bica, depois Brito e Sanina.
As bolas foram obtidas no 1.º tempo por Monteiro da Costa e Redondo.

Barrigana, o melhor jogador em campo

_ O Distrito de Portalegre, Ano 70, N.º 4.329, Sábado 24 de Outubro de 1953, pg.5
José Maria Cabecinha
Jogo amigável
Portalegrense, 1
F. C. do Porto, 1
Árbitro: João Vieira, de Portalegre
As equipas alinharam:
Portalegrense: Augusto (Severiano), Santos e Massano; Moreno, Robalo e Roqui; Parra (Redondo), Calin, Jacinto, Bica (Brito) e Sanina.
F. C. do Porto: Barrigana, Vergílio e Osvaldo; Joaquim, arcanjo e Eleutério; Carlos Vieira, Albasini, Monteiro da Costa, Porcel (Del Pinto) e José Maria.
Este jogo despertou o maior entusiasmo em todos os desportistas pelo que a assistência foi bastante numerosa.
Também o jogo em si foi daqueles que deixam agradáveis recordações, verificando-se que o Portalegrense quando completo, é uma equipa de valor, capaz de fazer frente às equipas de maior nomeada, servindo de exemplo este encontro com o Porto.
Os visitantes começaram a praticar com relativo à vontade e durante os primeiros 25 minutos não forçaram muito.
A partir de então e como verificassem que os locais não renunciaram à luta nem se descontrolavam, começou a luta com mais energia, ganhando o encontro maior emoção, porque os locais continuavam a lutar no mesmo ritmo de grande velocidade e generoso esforço, proporcionando-nos ambas as equipas um belo espectáculo desportivo.
A primeira parte terminou com o resultado de 1-1 com que veio a terminar o encontro, com golos de Monteiro da Costa aos 20 minutos e Redondo aos 40.
A segunda parte foi jogada no mesmo ritmo, com lances de bom futebol de ambas as equipas e Barrigana mais do Severiano, a ser chamado com mais frequência a pôr à prova os seus recursos.
O resultado final aceita-se bem, e a haver um vencedor este seria o Portalegrense.
A arbitragem foi regular.
Monteiro da Costa, o marcador do golo do FCP

_ A Voz Portalegrense, Ano XXI, 10/10/1953, N.º 1104, pg.2
Morujo Trindade
Jogo Particular
Levadas a bom termo as diligências entre as respectivas Direcções efectuou-se no passado dia 20, terça-feira, na Fontedeira, o anunciado encontro de futebol entre as categorias de honra do Futebol Clube do Porto e o Portalegrense.
Presenciado por uma das maiores assistências que têm ocorrido ao campo da Fontedeira, os grupos alinharam:
F. C. do Porto – Barrigana, Virgílio e Osvaldo; Eleutério, Miguel Arcanjo e Joaquim; Carlos Vieira, Albassini, Monteiro da Costa, Porcel e Zé Maria.
À segunda parte Del Pinto substituiu Porcel.
Portalegrense – Augusto, Santos e Massano; Moreira, Robalo e Roqui; Parra, Calin, Jacinto, Bica e Sanina.
Alinharam também Severiano, Brito e Redondo, respectivamente em substituição de Augusto, Bica e Parra.
Árbitro – Sr. João Vieira, da A. F. de Portalegre.
É muito provável que ao iniciar o encontro o estado de espírito da equipa local frente a um agrupamento de tanta categoria entre nós, lhe fizesse encarar a partida com natural receio, julgando que se deveria considerar batida, ao passo que aos jogadores do Futebol Clube do Porto sobrasse confiança para descerem, ao campo como vencedores certos e folgados. Se as primeiras jogadas foram talvez o reflexo desses dois estados psicológicos diferentes, vendo-se o F. C. do porto a pretender dar ar de exibição ao seu jogo, o que é certo é que a partir sensivelmente da primeira metade da 1.ª parte, a partida começou a interessar aos dois grupos, no tocante ao resultado final, já que o equilíbrio de domínio territorial era evidente.
Se do lado do F. C. do porto existiu melhor execução individual e desenvolvimento de jogo mais clássico, de banda dos locais veio ao de cimo a sua velocidade e poder de antecipação, que passou a dar-lhe também e principalmente a partir da entrada de Redondo possibilidades de mostrarem um período de jogo de ligação. E deste modo e dentro de uma correcção inexcedível, se desenrolou até final a magnífica partida de terça-feira, não sem que no período final Barrigana fosse chamado mais vezes a intervir do que Severiano.
Monteiro da Costa divagando sobre a esquerda e depois de receber um magnífico passe de J. Maria, marcou o 1.º e único tento do F. C. P., atirando sem possibilidade de defesa para Augusto. Passados poucos minutos Redondo marcava nas redes de Barrigana um tento de magnífica feitura e nascido duma jogada que os nossos adversários ou outros da sua igualha não desdenhariam assinar.
A uma passagem de Bica, Sanina centrou inteligentemente para Jacinto que tinha à sua ilharga M. Arcanjo; ganha a primeira disputa de bola por Jacinto, a bola ficou a saltar em frente a Barrigana para num relâmpago ser atirada para o fundo das suas redes com um potentíssimo pontapé de Redondo que para tanto nos mostrou magnífica execução.
Depois e com os locais mais confiantes o encontro decorreu até final como já referimos.
Para finalizar resta-nos envolver nas mesmas felicitações todos os jogadores do Desportivo portalegrense e os seus valorosos e correctíssimos adversários, pela magnífica partida de futebol que nos ofereceram, cabendo ainda aos nossos representantes ainda os parabéns pelo mérito do mais honroso resultado conseguido pelos seus grupos de sempre.
Ao snr. Vieira, que arbitrou, endereçamos, por merecidas, sinceras felicitações pelo trabalho produzido.
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Mário Casa Nova Martins

Biblioteca Municipal de Portalegre

segunda-feira, dezembro 20, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Uma das questões mais interessantes nos domínios deste tipo de publicidade refere-se ao seu público-alvo, ou seja, aos seus destinatários.
E, aqui e agora, este exemplo Astérix/McDonald’s ganha novas e significativas ressonâncias e por diversas razões conjugadas. Temos a considerar, nesse universo público-alvo, a mudança que a empresa vem processando ao longo da sua existência, das crianças aos jovens e, agora, aos próprios adultos, naquela zona etária indefinida entre o ainda jovem e o já quase adulto. Se acrescentarmos a crise da multinacional em face das sucessivas contestações (e em França estas têm atingido níveis consideráveis!) quer políticas quer dietéticas, teremos um retrato -e ainda incompleto- duma delicada situação económica, que terá conduzido a esta campanha, porventura em desespero.
Em França, a publicidade que envolve a figura mítica de Astérix cria um campo simbólico entre o anunciante e o seu público, apto a transformar magicamente o produto num sentimento. Panoramix não estará, portanto, de todo ausente...
As crianças e os jovens são inseridos numa rede de decisão colectiva dotada de apreciável poder de interferência no próprio consumo familiar, associando facilmente os jovens-adultos, estes mesmos já pré-aderentes ao fenómeno Astérix.
Se a cadeia multinacional McDonald’s conseguisse introduzir aqui um novo hamburguer de carne de javali, o sistema produção-distribuição-consumo funcionaria na perfeição quase absoluta, encaixado numa moderna lógica capitalista onde a própria cultura de massas se articularia com as leis do mercado...
Novamente se devem aqui realçar as mais-valias da publicidade que utiliza a BD, porque esta reduz as limitações impostas pela natureza física dos meios escolhidos, porque leva o leitor a interpretações múltiplas, porque “fala” de outras coisas importantes para além do próprio produto e porque não apresenta este, de uma forma explícita, ao consumidor. Por outras palavras, o hamburguer, a coca cola, as batatas fritas e o ketchup surgem aqui de um modo quase subliminar, perante a dimensão do “mito” Astérix.
A assimilação da mensagem é facilitada pela economia do processo. A cena usada, um simples cartoon ou vinheta onde se resume toda a “mitologia”, tornou-se familiar porque condensa numa imagem as fundamentais informações desejadas pelo emissor, tal como nas histórias de Astérix. Daí, a sua poderosa força persuasiva junto dos receptores, de que não serão por ora abordadas as questões éticas subjacentes. Esta é uma outra e distinta “guerra” que, aqui, não travaremos...
E, como estas questões são como as cerejas, quer dizer, a gente puxa por uma e vêm outras agarradas, apetece agora perguntar se, como veículo ou suporte publicitário, a BD pode servir com eficácia para todas as idades. A resposta, se utilizarmos a “lógica” inventada por Hergé, será a de que abarca todos os consumidores, entre os 7 e os 77 anos... Naturalmente, sem ironias, poderemos considerar que depende sempre dos interesses em causa, assim como dos gostos e hábitos dominantes em cada nível etário.
Mais uma vez, o caso Astérix/McDonald’s -pretexto próximo destas considerações- servirá de exemplar paradigma, uma vez que o fenómeno sócio-cultural centrado no insubmisso guerreiro gaulês abarca quase todo o universo francófono, e não só... Tudo isto não estabelece qualquer contradição com as reflexões anteriores, aparentemente mais restritivas.
Sem excessivas preocupações cronológicas e sem rigoroso enquadramento temático, será interessante -e pedagógico- analisar com brevidade alguns outros exemplos das curiosas interligações entre banda desenhada e publicidade, quer entre nós, quer no restante universo dos quadradinhos.
António Martinó de Azevedo Coutinho

domingo, dezembro 19, 2010

Oficina do Site

sábado, dezembro 18, 2010

Mário Silva Freire

PARA UM DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO

Um tema com várias perspectivas (1)

Teve lugar entre 14 e 16 de Setembro de 2010, em Fátima, a XXVI Semana da Pastoral Social, sob o lema Dar-se de verdade – Para um desenvolvimento solidário.
Várias personalidades, membros da hierarquia da Igreja, responsáveis por instituições católicas de solidariedade social, académicos e empresários, desenvolveram temas relacionados com a ética social, os problemas da sociedade contemporânea, as injustiças, as desigualdades que envergonham, a pobreza que retira a dignidade humana, o desenvolvimento sem sustentação, a irresponsabilidade social...
Por outro lado, houve oportunidade de ouvir pessoas que já viveram situações de exclusão, de marginalidade e de pobreza ou que, no terreno, exercem actividades de voluntariado em contacto directo com os desprotegidos, drogados, desempregados, presos, abandonados... Foram testemunhos fortes e comoventes de vidas que inquietam e interpelam.
Como pano de fundo esteve presente a encíclica papal Caridade na Verdade, publicada em 2009. Este documento constitui um elemento básico para compreender o pensamento da Igreja, nesta época de globalização em que tantas ameaças impendem sobre a sociedade e sobre cada um de nós.
Muitas foram as questões colocadas, algumas respostas dadas, mas muitas interrogações permaneceram.
Que tipo de desenvolvimento procuramos? Para onde nos leva um crescimento sem limites? Como viver numa sociedade global sem perder a identidade? A pobreza é uma inevitabilidade? A crise que se vive, de natureza económica e financeira, não é consequência de uma crise mais profunda? Qual o papel do Estado? E o da sociedade civil? Que responsabilidade compete a cada um como pessoa e como instituição? Eis algumas das questões que foram discutidas. Tentarei, a partir dos debates que ali tiveram lugar, reflectir sobre alguns dos temas que hoje, tão de perto, nos estão a tocar.
Mário Freire
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(1) in, FONTE NOVA, n.º 1803, terça-feira 14 de Dezembro de 2010

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Finis Mundi - A Última Cultura

Decorreu no passado dia 9 de Dezembro a apresentação do primeiro número da revista Finis Mundi – A Última Cultura. Numa das salas do Palácio da Independência, no Largo de São Domingos em Lisboa, completamente cheia, teve lugar a conferência de Alain de Benoist, antecedida pela apresentação, quer da revista, quer do conferencista, a cargo de António Marques Bessa.
Uma vez que o segundo número da Finis Mundi reportará esta sessão, apenas deixamos a certeza de que tudo correu como o previsto, constituindo um serão de grande valor cultural e cívico.
Tivemos o grato prazer de cumprimentar Alain de Benoist, um dos nossos principais ideólogos, que conhecemos primeiro através de um artigo de Diogo Pacheco de Amorim, inserido no primeiro número da revista Futuro Presente, sobre o livro Les idées à l‘endroit, a continuação de Vue de droite, este que foi traduzido para português, se bem que não na sua totalidade.
Leitores que somos da Éléments e da Nouvelle École vai para três décadas, e leitores de livros seus, conhecemos bem o pensamento de Alain de Benoist, que admiramos, respeitamos e comungamos em larga medida.
Também voltámos a encontrar o prof. doutor António Marques Bessa, que não víamos desde que proferira uma conferência no Colégio Via Sacra em Viseu.
Temos todos os seus livros, e desde que o conhecemos pela leitura de revistas como a Resistência, Terceiro Milénio ou Futuro Presente, até o conhecermos pessoalmente num almoço em que estava Marques Bessa, Jaime Nogueira Pinto, José António Mouraz Lopes e nós, uma profunda cumplicidade intelectual a par de uma estima pessoal se construiu.
Também queremos neste momento recordar a presença do prof. doutor António Marques Bessa em Coimbra para apresentar a conferência que o prof. doutor Jorge Borges de Macedo proferiu na Faculdade de Letras, estando também presente o nosso amigo Vítor Luís Rodrigues.
Desta forma, não podíamos ter estado em melhor lugar e hora, naquela noite de quinta-feira 9 de Dezembro de 2010.
Uma palavra final de agradecimento para o director da Finis Mundi, Flávio Gonçalves, pela oportunidade que nos deu em participar neste número da revista, e deixar expressos os parabéns pelo sucesso desta iniciativa, revista e conferência.
Mário Casa Nova Martins
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Apresentação de António Marques Bessa
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Conferência de Alain de Benoist
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Flávio Gonçalves, director da Finis Mundi - A Última Cultura
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