\ A VOZ PORTALEGRENSE: Janeiro 2010

domingo, janeiro 31, 2010

Luís Filipe Meira

Porque hoje é Domingo...
Posto de Escuta
(…) Raramente me recordo dos sonhos. Mas parece-me que algumas canções são como sonhos na medida em que adormecemos quando elas principiam e acordamos quando terminam. Conduzem-te a qualquer lado. São uma forma de hipnotismo, as melhores (…)
Tom Waits
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Em escuta na Rádio dos Sonhos, 10 canções para ouvir, sonhar com as melhores ou mastigar e deitar fora as piores. É uma questão de gosto, mas…, atenção!, porque há bom e mau gosto…
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1 – David Byrne & Fat Boy Slim – Please Don’t
(Feat Santigold ) / 2010

2 – Gorillaz – Stylo
Single / 2010

3 – Owen Pallett – Tryst with Mephistopheles
Heartland / 2009

4 – Prefab Sprout – I Love Music
Let´s Change the World with Music / 2009

5 – Magnetic Fields – You Must Be Out of Your Mind
Realism / 2009

6 – Portishead – Chase the Tear
Single / 2009

7 – These New Puritans – Orion
Hidden / 2010

8 – Tom Waits – Alice
Alice / 2002

9 – Yeasayer - Rome
Odd Blood / 2010

10 – The Guess Who – American Woman
American Woman / 1970
Luís Filipe Meira

Luís Filipe Meira

Cinema is Action / Cinema is Emotion
Samuel Fuller
No Meu Leitor de DVD...
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As sugestões de hoje vão para três filmes que retratam períodos diferentes da história de Itália.
La bella Itália, país de tesouros artísticos incalculáveis – é o país que tem o maior número de Patrimónios Mundiais da Unesco (44) – aliados a belezas naturais imensas, que o torna o 5º destino turístico do mundo. A bela Itália que tem Veneza, ao que dizem a mais bela cidade do mundo e Roma que foi o centro da Civilização Ocidental e o berço do Renascimento. Hoje é a 3º cidade mais visitada da UE e unanimemente considerada uma das mais belas cidades antigas do mundo.
Itália, país desenvolvido – o 18.º no Mundo – pleno de contrastes. Terra de pintores como Michelangelo, Leonardo da Vinci e Botticelli, escritores e filósofos como Dante, Petrarca e Maquiavel, compositores como Vivaldi e Rossini, cineastas como Visconti, Fellini, Antonioni, Pasolini e Sergio Leone ou actores como Sophia Loren, Marcello Manstroianni, Anna Magnani ou Claudia Cardinalli.
País rico a norte e paupérrimo a sul onde vão reinando com maior ou menor impunidade diversas máfias das quais as mais conhecidas são a Camorra na zona de Nápoles, a Ndrangheta na Calábria e a Cosa Nostra na Sicília. País que viu o escritor Roberto Saviano entrar na clandestinidade depois de escrever Gomorra um livro que denunciava a exploração exercida pela máfia napolitana no mercado da contrafacção de vestuário.
A bela Itália que já viu no poder Benito Mussolini, Giulio Andreotti ou Silvio Berlusconi, país em que os comunistas liderados por Enrico Berlinguer estiveram próximos do poder. A Itália que conviveu com o medo do terrorismo das Brigadas Vermelhas que chegaram a raptar e a assassinar o antigo primeiro-ministro Aldo Moro, num processo nebuloso e também ele cheio de contradições.
A bela Itália, país que na prática chegou a ser governado pelo poder judicial durante a Operação Mãos Limpas.
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Três filmes, três perspectivas sobre três períodos da História Italiana
_ Novecento (1900)
de Bernardo Bertolucci c/ Robert de Niro e Gerard Depardieu.
Um longo épico que nos conta a história de dois homens durante a crise politica italiana na primeira metade do séc. XX.


_ O Caimão de Nanni Moretti com Silvio Orlando, Margherita Buy e Nanni Moretti.
Berlusconi é o alvo, mas a confusão da vida italiana também está magnificamente retratada.

_ Il Divo de Paolo Sorrentino com Toni Servillo, retrato impiedoso do antigo primeiro-ministro Giulio Andreotti que governou a Itália a seu belo prazer durante sete mandatos até que a super poderosa máfia achou que já era tempo de mudança….
Il Divo não é um grande filme, ainda assim torna-se arrepiante porque é construído sobre factos verídicos.

Luís Filipe Meira

sábado, janeiro 30, 2010

Manlius

«Depois da grande noite haverá o Amanhecer. E nós que não somos nem burgueses, nem conservadores, nem reaccionários, nem democratas cristãos, nem maçons ... nós interessamo-nos por esse amanhecer».
Pierre Drieu La Rochelle
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Faz hoje três anos Manlius, lugar de Portugalidade.
Três anos passados, desejamos outros tantos em prol de Portugal.
Parabéns ao José Carlos.
Mário

Alqueva

Alqueva à cota 152
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Carlos Luna e a Questão de Olivença

(1.ª edição, 'Estremoz - Outubro de 1944')

Carlos Eduardo da Cruz Luna é licenciado em História e professor do ensino Secundário.
Figura de destaque nos círculos da problemática oliventina, tem levado uma vida em prol da Causa de Olivença.
Defensor acérrimo de uma Olivença portuguesa, tem como obra de referência publicada ‘Por caminhos de Olivença’, já com várias edições, a par de vasta colaboração em jornais e revistas de todo o Portugal.
Espectador atento, militante activo, da pena de Carlos Luna têm saído textos de rigor histórico e oportunidade política.
Mário Casa Nova Martins

Leitura obrigatória

Histoire moderne :
Esclaves chrétiens, maîtres musulmans : L'esclavage blanc en Méditerranée (1500-1800)
Auteur: Robert-C Davis, Manuel Tricoteaux (Traduction)
Editions: Editions Jacqueline Chambon (3 avril 2006)
Pages: 308
Sujet politiquement incorrect, sous-estimé par Fernand Braudel et par nombre d'historiens, l'esclavage blanc pratiqué par ceux que l'on nommait alors les Barbaresques a bel et bien existé sur une grande échelle et constitué une véritable traite qui fit, durant près de trois siècles, plus d'un million de victimes. Qui étaient-elles ? Comment se les procurait-on ? Comment fonctionnaient les marchés d'Alger, Tunis et Tripoli, les trois villes qui formaient le noyau dur de la Barbarie ? Quelle forme prenait l'asservissement, tant physique que moral, de ces hommes et de ces femmes originaires de toute l'Europe, et principalement d'Italie, d'Espagne et de France ? Quelle était leur vie dans les bagnes et sur les galères ? Comment l'Eglise catholique et les Etats européens tentèrent-ils de les racheter ? Dans cet ouvrage, fruit de dix années de recherches, et qui s'appuie sur de très nombreuses sources et une abondante documentation, Robert C. Davis bat en brèche l'idée élaborée au XIXe siècle et encore dominante d'un esclavage fondé avant tout sur des critères raciaux. Biographie de l'auteur Spécialiste de l'Italie de la Renaissance, Robert C. Davis est professeur d'histoire à l'université de Columbus (Ohio). Il poursuit actuellement ses recherches sur l'esclavage en Méditerranée.
Price: €22.00

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Mário Silva Freire

O BEM COMUM – 8
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Globalização, saber e responsabilidade
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Como em quase tudo na vida, quer os objectos quer os acontecimentos podem ser encarados por mais do que uma perspectiva. O uso e os aproveitamentos que deles se fizerem é que irão ditar o seu grau de utilidade ou de periculosidade. O mesmo acontece com a globalização. Ela pode ser um factor de desenvolvimento humano, difundindo conhecimentos, disponibilizando recursos, deslocando factores de promoção económica para regiões menos desenvolvidas, assim como pode contribuir para a acentuação das desigualdades sociais, do incremento da pobreza e da exclusão.
Como evitar que os aspectos negativos da globalização se possam sobrepor aos aspectos positivos? Eis uma questão a que o Eng. Ludgero Marques tentou dar resposta no congresso a que estes artigos sobre o Bem Comum se têm vindo a referir.
Ora, uma economia globalizada tem que ser enfrentada por uma atitude de desenvolvimento local. É necessário incrementar o desenvolvimento de actividades económicas próximas para que se consiga fazer face às ameaças que provêm do longínquo. Ao dar-se qualificação aos quadros das pequenas e médias empresas, assim como aos trabalhadores, contribui-se para fazer face a essas ameaças.
Em Portugal, a qualificação dominante quer dos empresários quer dos trabalhadores da maioria das PMEs, as que constituem a quase totalidade do nosso tecido empresarial, é bastante deficiente.
Com a mudança de modelo de produção a que se assiste, em que as novas tecnologias assumem um papel primordial, a ausência de formação implica a exclusão dos sistemas produtivos que hoje dominam a sociedade. Mais: essa exclusão irá acentuar-se, quanto mais os nossos sistemas de ensino e de formação profissional, pouco exigentes, lançarem para o mercado de emprego pessoas com conhecimentos deficientes nos domínios básicos do saber e quase ausência de competências cognitivas que dificultam a compreensão, a análise e a síntese das informações.
Seria bom, pois, que as famílias se preocupassem mais com a aprendizagem dos seus filhos, colaborando com a escola para que ela fosse mais disciplinada e exigente. Só o conhecimento e a responsabilidade poderão abrir as portas para o emprego.
As empresas têm que se adaptar, para sobreviverem, a estes novos tempos. Igualmente lhes cabem responsabilidades quer na promoção de um desenvolvimento sustentável, através de meios respeitadores do ambiente, quer na prática de uma política empresarial que atenda à dignidade dos trabalhadores, aos valores éticos do mercado e à solidariedade social. Assim se fazendo, estará a construir-se o bem comum.
Com este artigo termina a série sobre o bem comum, a propósito do congresso promovido pela Conferência Episcopal, em Setembro passado.
Mário Freire
. in, O Distrito de Portalegre, 28 de Janeiro de 2010, p.7

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Luís Pargana

Desabafos II
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Nos últimos dias, o drama que se vive no Haiti entra diariamente em nossas casas, nas aberturas dos noticiários televisivos, nas primeiras páginas dos jornais, nas mais diversas reportagens jornalísticas.
A dimensão da tragédia não é para menos: mais de 150 mil mortos, uma metrópole devastada num cenário de desolação sem precedentes, quase dois milhões de desalojados, meio milhão de feridos sem acesso a medicamentos, sede, fome e pilhagens numa inglória luta pela sobrevivência. Se procurássemos uma imagem do “apocalipse” seria fácil encontrarmos uma representação nas muitas que documentam a tragédia.
Mas o que as imagens não dizem é que a tragédia do Haiti começou muito antes do terramoto. O drama que sofre, agora, o povo do Haiti é consequência directa das teias de interesses internacionais que, ao longo da história, foram secando nações nas suas riquezas nacionais e estratégicas, dominando e explorando populações inteiras subjugadas a lógicas alheias.
Sendo uma nação fundada no colonialismo, primeiro espanhol e, depois, francês, aquele que é o segundo mais antigo país da América sofreu com o imperialismo norte-americano, sobretudo durante os anos da guerra fria.
Na segunda metade do século XX, o Haiti ficou marcado pela ditadura sangrenta de Papa Doc, aliado estratégico dos Estados Unidos, a quem sucedeu o próprio filho, Baby Doc que se auto-proclamou “presidente vitalício” até ser deposto num dos muitos golpes de estado que têm afligido o País. As décadas de dura repressão tolheram qualquer esperança de desenvolvimento e de bem-estar para os seus habitantes.
O atraso estrutural manteve-se depois da entrada no novo século e a incompetência governativa, aliada à hipocrisia internacional das potências suas aliadas, levaram ao fatalismo da miséria daquele povo e à desproporção da tragédia que agora aconteceu.
Ironia das ironias é a declaração de Baby Doc, a partir da sua luxuosa residência actual, em França, a anunciar a doação de 8 milhões de dólares, da sua fortuna pessoal, destinados às vítimas do terramoto. Assim se pode avaliar a dimensão das desigualdades naquele País e o fim que têm levado as suas riquezas materiais.
É claro que a origem do terramoto tem causas naturais, mas até parece que as catástrofes naturais escolhem apenas os mais pobres e os menos desenvolvidos.
A verdade é que este não é o primeiro terramoto a acontecer no Haiti, mas o que é incompreensível é a falta de capacidade de previsão e a total inexistência do mais simples mecanismo de protecção civil num País fundado sobre uma placa tectónica instável e incontrolável.
Isso é que é preciso denunciar para que nunca mais aconteça uma tragédia com estas consequências humanas.
A capacidade de previsão dos fenómenos naturais e a possibilidade de planeamento para minimizar os seus efeitos, garantindo o bem-estar das populações é, aliás, o paradigma do mundo desenvolvido.
Vem esta reflexão a propósito de uma das imagens que mais me impressionou, de entre as muitas cenas de terror que têm ilustrado a catástrofe no Haiti: uma imensa multidão em tumulto, atropelando-se na tentativa de alcançar um autotanque de distribuição de água, em quantidade claramente insuficiente para tanta gente desesperada. Sendo a água indispensável à vida, a sua falta é um dos problemas mais sentidos em toda esta tragédia.
E, parecendo estar tão longe, este é, precisamente, um dos maiores problemas actuais de toda a Humanidade, em resultado directo das alterações climáticas do Planeta e do seu aquecimento global.
Por isso, planear as melhores soluções para evitar que este problema se transforme numa tragédia do nosso futuro próximo é um imperativo local, nacional e internacional.
Não se percebe, portanto, como é que num país europeu, em pleno século XXI se continuam a adiar decisões fundamentais que garantam a constituição de reservas de água estratégicas e necessárias ao bem-estar das populações, ao seu desenvolvimento e qualidade de vida. Refiro-me a Portugal, a este distrito de Portalegre e a um empreendimento adiado há mais de 50 anos e que, não restam dúvidas, representa um potencial de progresso e de desenvolvimento num país desigual e com atrasos estruturais acentuados.
Não sendo panaceia para todos os males, a muitas vezes anunciada e sempre adiada Barragem do Pisão, representa, um potencial de esperança e de desenvolvimento para uma população que, por enquanto sem terramotos nem catástrofes comparáveis à que vemos no Haiti, vê o seu futuro constantemente adiado.
Voltarei ao tema em futuro desabafo, espero que com as feridas do Haiti já sanadas.
26 de Janeiro de 2010
Luís Pargana

terça-feira, janeiro 26, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

A SEGUNDA MORTE DE JOSÉ DURO
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A intervenção que, sob o alibi Polis, foi concretizada no antigo jardim da Corredoura constitui significativo paradigma da qualidade local atingida pela complexa operação urbanística e ambiental.
Naturalmente, toda a comunidade reconhecia a necessidade de melhorar as degradadas condições em que a Corredoura então se encontrava; após o “arranjo”, poucos portalegrenses apreciarão as soluções inventadas a propósito. Interrogamo-nos sobre os altos e dispendiosos muros atrás dos quais se escondeu o Calvário, sobre a radical eliminação do clássico lago e do parque infantil, sobre a ineficaz iluminação pública “subterrânea” implantada, sobre o impróprio piso e os aberrantes bancos com que foi dotada a alameda central do jardim, enfim, sobre um conjunto de todo ilógico para o senso comum do lagóia normal, como somos quase todos nós.
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Porém, a cereja colocada no topo deste amargo bolo foi a bárbara destruição do memorial José Duro, há décadas ali implantado, expressão dos mais puros sentimentos lagóias, quando a gratidão e o respeito pela Cultura e pelos valores locais ainda eram praticados.
Depois, pouco a pouco, na linha da desorientação autárquica que vem caracterizando estes inícios do terceiro milénio portalegrense, alternaram-se na Corredoura precipitados remendos com ostensivas lacunas: alterou-se todo o sistema de iluminação, manteve-se a inoperacionalidade dos inestéticos tanques que substituiram o lago, implantou-se um caricato e repelente “monumento” em vez do memorial, assistiu-se impassivelmente (desde há anos!) à derrocada de parte do “romântico” morro sobrevivente, instalou-se à pressa, em “adequada” época eleitoral, um improvisado equipamento lúdico... E por aí fora.
Só não sentimos a impossibilidade prática de aí ser reinstalado um “clássico” cenário das Festas da Cidade porque a autarquia, estrategicamente, as extinguiu!
O mais recente capítulo destas renovadas intervenções é constituído pela desesperada tentativa de ressuscitar o memorial José Duro. Bem intencionada decisão -ingenuamente pensam alguns- na busca de emendar o tosco arremedo antes inventado... Então, se foi oficialmente decidido reimplantar uma cópia do original, que se tivesse sido mais eficaz em tal falsificação seria o mínimo exigível.
O banco original, da autoria do pintor João Tavares, foi praticamente destruído, no interior do isolado e secreto gueto então ali instalado. Provavelmente, para além do medalhão central, apenas terão sido poupados os lanternins. Os painéis de azulejos e talvez as inscrições metálicas ali implantadas devem ter sido massacrados sem piedade.
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As imagens sobreviventes não devem ter sido recuperadas ou consultadas com a devida atenção, porque, naquilo que se constata na parte já construída, consideráveis diferenças se podem desde já anotar: a distinta dimensão do círculo central, a diversa curvatura das volutas laterais superiores e, sobretudo, a profunda alteração da “dedicatória” – Homenagem dos Estudantes (no tipo, no tamanho e na própria implantação dos caracteres).
Tudo isto seria já bastante para impedir a anulação do massacre perpetrado mas não é tudo. A considerável demora que tem caracterizado a obra, no melhor estilo dos trabalhos camarários locais, conserva o banco numa fase ainda bastante incipiente.
E é aqui que se nota uma suplementar -e também dispensável- intervenção, a de nocturnos e juvenis bandos libadores, seguramente de estudantes.
E enquanto os seus antecessores dos anos 40, a duas gerações portanto de diferença, ali levantaram um sentido memorial em homenagem ao desditoso poeta portalegrense que até na morte foi saudado como estudante, estes nossos contemporâneos preferem conceder ao putativo monumento uma bem diversa utilização: a de propício local de “copofonias”.
Em boa verdade, quase ninguém teria a estranhar ou criticar tal opção, não fossem os ostensivos vestígios e as aberrantes intervenções produzidas a pretexto desses noctívagos repastos.
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Para além dos restos, copos, garrafas, papéis e embalagens diversas com que deliberadamente emporcalham o ambiente, quando logo ali ao lado está colocado um recipiente adequado à recolha de tais detritos, para além disso os descuidados convivas têm levado consigo algumas “recordações”, como letras recentemente implantadas, primeiro os caracteres E-S-T-U-D-A-N-T-E-S e depois o S da anterior palavra. Por enquanto...
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Como grotesca homenagem, talvez poucas seriam tão imaginativas. Porém, os juvenis autores já se ultrapassaram em criatividade. Mais recentemente, como cuidada prova de atenção para com o medalhão ali patente, dedicaram-se à implantação de algumas delicadas “próteses” -leia-se “caricas” e passe a inerente publicidade- em adequados locais da efígie do poeta: ouvido, narina, olho e algumas madeixas do cabelo... Apenas terão esquecido a boca, protegida pelo bigode, para de todo o silenciar. É que ninguém é perfeito, nem sequer os vândalos, como aliás já abundantemente se verificou nas actuações autárquicas em apreço.
Nada é mais perigoso, arriscado ou injusto, do que as apressadas generalizações. Há anos assim aconteceu, quando a juventude portuguesa foi apelidada de rasca.
Nesta precisa actualidade, aqui e agora, conheço e admiro jovens dotados de invulgares qualidades, quer nos sentimentos íntimos, quer nos comportamentos sociais. Como aliás acontece e acontecerá em todas as épocas.
Precisamente por tudo isto, nem me atrevo a classificar os autores das proezas aqui relatadas (e ilustradas!) como pertencendo à tal juventude rasca. Creio que lhes será muito mais adequada a nomenclatura de juventude tasca.
Portalegre, Janeiro de 2010
António Martinó de Azevedo Coutinho

José Régio - Percurso regiano

Convite
Para a vossa agenda e para partilhar, por favor, com outros eventuais interessados, aqui vão os “episódios” seguintes do programa das comemorações regianas concretizadas pela Escola Básica 2/3 de José Régio, em Portalegre:
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Percurso regiano
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De Casa-Museu José Régio a ESEP
A Escola Básica José Régio, associando-se às comemorações em torno de José Régio, promove um percurso regiano que terá o seu ponto de partida na Casa-Museu José Régio, e deverá ter os seguintes pontos de paragem para declamação colectiva da "Toada de Portalegre":
_ junto à Câmara Municipal;
_ na zona do café Facha;
_ junto ao antigo café Central;
_ em frente ao café Alentejano;
_ e junto à entrada da ESEP. Lugares míticos da vivência do poeta.
Quando: dia 10 de Fevereiro, quarta-feira, 14.30 horas
Onde: ruas de Portalegre
Quem: alunos e professores da Escola Básica José Régio

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Programa José Régio – Apresentação
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O Programa José Régio que a Escola Básica José Régio tem vindo a desenvolver, como evocação dos 40 anos da morte do poeta e os 80 da sua chegada a Portalegre, será apresentado, com uma dinâmica onde sobressai a variedade de trabalhos, desde a declamação poética à encenação dramática, passando pela adaptação musical de poemas de José Régio e outras provocações como uma adaptação rap de um texto do poeta.
Os trabalhos, que são o resultado do empenho e dinâmica de alunos e docentes - sem esquecer a participação de Encarregados de Educação - daquela escola, tiveram já uma primeira apresentação no dia 18 de Dezembro último, integrada na festa de Natal da Escola. Agora, o palco é outro e o desafio maior. A ver.
Quando: dia 10 de Fevereiro, quarta-feira, 18.00 horas
Onde: Centro de Artes do Espectáculo – Portalegre (CAEP)
Quem: alunos, encarregados de educação e professores da Escola Básica José Régio

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Mário Saa revisitado

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A propósito de uma ida ao Ervedal em demanda do ‘acabado de sair’ «XII Objectos do Itinerário de Mário Saa», em Março de 2008 ‘visitámos’ Mário Saa. Depois, em 1 de Abril, fizemos eco dessa ‘visita’, aproveitando a ocasião para falar da Fundação Arquivo Paes Teles e da Obra deste poeta e investigador.
Agora é tempo de dar notícia do primeiro número da «
VIALIBVS, Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles», entretanto saída em Junho de 2009, e que agora possuímos.
Na Apresentação, palavras de Paulo Jorge Chambel Guedes Freixo lê-se que “com ela abrimos um espaço dedicado à investigação e divulgação de estudos sobre Mário Saa e sobre o valioso património que nos legou através da Fundação Arquivo Paes Teles”.
É sem dúvida correcta a enunciação deste objectivo, todavia, hoje apenas está disponível o livro «Poesia e alguma prosa», editado pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Os outros livros apenas surgem, quando surgem, em alfarrabistas e a preços altíssimos. Assim sendo, não deveria a
Fundação Arquivo Paes Teles questionar-se sobre a reedição, faseada e programada, das Obras de Mário Saa, quiçá numa edição intitulada ‘Obras Completas’?
Quanto ao nome da revista, segundo o Editorial a cargo de Elisabete Santos Pereira, “inspirámo-nos na inscrição de uma ara romana consagrada aos deuses das vias para dar nome a este projecto”, acrescentando, “
Vialibvs, invoca, assim, os Lares Viales, os deuses de protecção das vias romanas, um vocábulo latino patente na ara encontrada por Mário Saa no decorrer da sua investigação sobre a Lusitânia”.
Com uma tiragem de 500 exemplares, a revista
Vialibvs tem três textos: «Mário Saa e Fernando Pessoa – sinalizações de um encontro» de João Rui de Sousa, «A Atracção pelo universo de Camões numa perspectiva biografista» de Cândido Beirante e «O epistolário de Mário Saa: cartas de Hipólito da Costa cabaça» de Elisabete J. Santos Pereira.
Mário Casa Nova Martins
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Livro que ‘actualiza’ «As Grandes Vias da Lusitânia»
*Fundamental para se conhecer Mário Saa
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Revista de leitura indispensável
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Os livros de Mário Saa que temos

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Apenas temos os Tomos II, III, IV e V, faltando o I e o VI
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domingo, janeiro 24, 2010

Luís Filipe Meira

Porque hoje é Domingo...
Posto de Escuta
(…) Raramente me recordo dos sonhos. Mas parece-me que algumas canções são como sonhos na medida em que adormecemos quando elas principiam e acordamos quando terminam. Conduzem-te a qualquer lado. São uma forma de hipnotismo, as melhores (…)
Tom Waits
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Em escuta na Rádio dos Sonhos, 10 canções para ouvir, sonhar com as melhores ou mastigar e deitar fora as piores. É uma questão de gosto, mas…, atenção!, porque há bom e mau gosto…
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1 – Massive Attack – Atlas Air
Heligoland / 2010

2 – Avalanches – Since I Left You
Since I Left You / 2000

3 – The Sa-Ra Partners ft The Gary Bartz Quartet
Cosmic Ball - Creative Partners / 2009

4 – Camille Yarbrouh – Take Yo’Praise
The Iron Pot Coocker / 1975

5 – The Antlers – Two
Hospice / 2009

6 – Dam-Funk – Fantasy
Toeachizown / 2009

7 – King Midas Sound – Cool Out
Waiting for You / 2009

8 – Grizzly Bear – Cheerlader
Veckatimest / 2009

9 – Mumford & Sons – Awake my Soul
Sigh no More / 2009

10 – Death Cab For Cutie – Meet me on the Equinox
Meet me on the Equinox / 2009
Luís Filipe Meira

Luís Filipe Meira

Cinema is Action / Cinema is Emotion
Samuel Fuller
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No Meu Leitor de DVD...
Tenho
State of Play (Ligações Perigosas), filme realizado por Kevin McDonald com Russell Crowe, Ben Affleck e Helen Mirren.
O filme chegou às salas em Abril passado, e está agora disponível em DVD.
Não é um grande filme nem tem grandes desempenhos, deixa-se ver uma, vá lá, duas vezes no máximo. No entanto levanta uma questão importante e actual, não só para os americanos mas também para todos nós. Refiro-me à promiscuidade iniciada na presidência de George W. Bush entre as empresas de segurança privadas norte americanas e o poder político e as próprias forças armadas. Estes novos mercenários são ex-militares que estão destacados no Afeganistão e no Iraque para prestar segurança a empresas norte americanas, mas que acabam por exorbitar competências, como aconteceu com membros da Blackwater a participarem em acções militares conjuntas com a CIA contra alegados terroristas, tendo mesmo dois elementos desta empresa sido julgados nos Estados Unidos da América acusados de actos bárbaros no Iraque, mas que foram absolvidos, o que motivou uma onda de protestos e mesmo uma censura pública do presidente Barak Obama.
State of Play não é como referi uma fita obrigatória, mas arrepia um pouco pela constatação da fragilidade do mundo em que vivemos.
Luís Filipe Meira

Portalegre ZazzFest 2010

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18 a 27 de Fevereiro
[LFM]

sábado, janeiro 23, 2010

Festas do Comércio

Equipa de futebol da Festa do Comércio
– 8 de Dezembro de 1958 –
Estádio da Fontedeira

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Em cima – João Velez, Salgueiro, Ludgero Árias, Manuel Falcão, ?, Jorge Arranhado, Cardoso, Ramos, Tiago Morgado, José Oliveira
Em baixo – Cabecinha, Chéu, Simão Fitas, Laranjo, Silva, Caldeira, Jorge
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Cine Teatro Crisfal
Da esquerda para a direita – Francisco Sanches, José Gasalho, Oliveira, Manuel Falcão, Amadeu Calha, Carlos Traguil, José Manuel Quesada, Simão Fitas
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Dois momentos da História do Comércio em Portalegre, e da própria Cidade.
As fotografias são pertença da Ex.ª Sr.ª D. Maria Luzia Falcão, que teve a gentileza de nos oferecer cópias para que aqui ficasse uma Memória de um tempo em que Portalegre era uma Cidade activa, com um Comércio, que hoje se apelida de tradicional, pujante, e cujos Comerciantes eram intervenientes na vida da Polis.
Mário Casa Nova Martins

A Voz Portalegrense

1.º número d' A Voz Portalegrense
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Portalegre, 29 de Novembro de 1931
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Director e Editor, Manuel António Tapadinhas
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sexta-feira, janeiro 22, 2010

Aquele Querido Mês de Agosto

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Jaime Crespo e Luís Filipe Meira viram o filme «Aquele Querido Mês de Agosto», e tiveram ‘leituras’ diferentes, o Luís Filipe AQUI e o Jaime AQUI.
Agora, lendo-se na actual, fica-se a saber que o filme figura como um dos melhores filmes de 2009.
Mário
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Aquele Querido Mês de Agosto

Portalegre no seu melhor

Porque é que terá ‘fugido’ o ‘Salazar’?
Por causa do nome? Quem sabe.
Em Portalegre tudo pode acontecer, até dar o nome de Salazar a um cão! Se bem que não seja um cão ‘qualquer’, pelos vistos o ‘Salazar’ além de ‘único’ tem pedigree.
Mário
in Alto Alentejo, 20 de Janeiro de 2010, pg. 22 (a página da necrologia)

INGRAPOL

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Mário Silva Freire

O BEM COMUM – 7
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Caminhos para uma laicidade esclarecida
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A laicidade tende a contrapor-se à religião. No entanto, este conceito não é correcto. Pelo contrário: a laicidade pretende que o Estado respeite todos os credos e que assegure o livre exercício das actividades dos crentes, qualquer que seja a sua religião e sejam essas actividades de natureza caritativa, cultural ou espiritual.
Já o laicismo pretende a privatização do religioso, a sua exclusão da vida pública, erradicando desta todos os símbolos religiosos e celebrações. Este, sim, pode enveredar num sentido contrário, opondo-se à religião.
Estes temas foram objecto de análise no congresso promovido pela Conferência Episcopal de Novembro passado e do qual se têm vindo a dar alguns apontamentos, nesta série de artigos sobre o Bem Comum.
Ora a laicidade, no dizer de Bento XVI, “realça e preserva a verdadeira diferença e autonomia das esferas (pública e privada) mas, também, a sua coexistência, a responsabilidade comum”. A laicidade aceita e promove um diálogo sadio entre o Estado e as diferentes confissões religiosas. Por ela entende-se que o Estado não é um concorrente das Igrejas mas um parceiro que deve contribuir para o desenvolvimento da pessoa e uma maior harmonia da sociedade.
Uma laicidade esclarecida tem que erradicar os extremismos. O diálogo que ela propõe tem que ser travado nos campos da cultura, nos terrenos da fé e da razão. Laicidade implica liberdade e, muito especialmente, a religiosa. Esta liberdade, segundo o cardeal Bertone, é o sustento das demais liberdades. A liberdade religiosa, ultrapassando o campo restrito da mera liberdade de culto ou de uma educação inspirada em valores cristãos, solicita as confissões religiosas a cumprirem a sua missão e a que o Estado crie as condições para que os cidadãos a possam exercer plena e efectivamente.
Num estado laico, os cidadãos de uma determinada confissão religiosa têm o direito de verem protegidas e apoiadas as instituições que dirigem, quando elas estão ao serviço do bem comum; assim como eles têm o direito de se pronunciarem, no dizer de Bento XVI, sobre os problemas morais que hoje interpelam a sociedade. Não se trata de ingerência indevida mas de afirmação dos valores que salvaguardam a dignidade humana.
Enfim, uma laicidade esclarecida, implica que o cristão tenha o direito de mostrar que numa sociedade sem Deus o homem está perdido, afectando esta ausência as próprias bases da convivência humana.

Mário Freire

in, O Distrito de Portalegre, 21 de Janeiro de 2010, p.7
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O BEM COMUM – 3 / O lugar da religião
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O BEM COMUM – 2 / O papel do Estado
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O BEM COMUM – 1 / A caminho de um novo modelo social
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Eternas Saudades do Futuro



No dia do seu terceiro aniversário
ETERNAS SAUDADES DO FUTURO

Com o lema “Um dia em que não se aprende nada é um dia perdido”, pode dizer-se que a visita diária a esta Casa de Saberes faz com que todos os dias lá se aprende algo!
Parabéns.
Mário

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Luís Pargana

Desabafos I
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Passadas as festas natalícias, entramos em pleno no novo ano de 2010.
O ano zero da nova década, ou, em maior rigor, o último ano da primeira década do milénio e do século XXI.
É tempo de traçar planos, projectar esperanças e expectativas. Mas é também tempo de fazer balanços, perceber o que correu bem e o que correu mal, aprender com os erros e corrigir o necessário para uma vida melhor, neste nosso quotidiano colectivo.
Entre muitos acontecimentos, a primeira década do século ficou marcada pela escalada do terrorismo internacional com expoentes máximos no atentado às Torres Gémeas, em pleno coração de Nova Iorque, planeado pelo multimilionário saudita Bin Laden e a invasão do Iraque ordenada pelo presidente da superpotência americana, Georges Bush, com base numa hipotética existência de armas de destruição maciça que afinal se provou nunca terem existido.
Desta escalada irracional resultou uma crise económica e social sem paralelo na história, cujas consequências estão longe de estar sanadas.
No plano internacional, a primeira década do milénio tem muito pouco para se orgulhar. Resta-nos a consolação da substituição, sem glória, de Georges Bush, na presidência dos Estados Unidos, e a emergência de novas nações que se consolidam com lógicas de governação e organização económica alternativas, como sejam os denominados países BRIC, com destaque para o Brasil, a China e a Índia. Mas esse será assunto para futuros balanços pois o caminho está ainda por percorrer.
Em Portugal, a década ficou marcada pela turbulência na governação do País, com sucessivos abandonos do primeiro posto do Governo, primeiro Guterres, depois Barroso e, em seguida a nomeação, sem eleição, de Santana Lopes para o cargo de Primeiro-ministro de Portugal. De toda esta instabilidade resultou a primeira maioria absoluta do PS, e a aparição de José Sócrates como paladino do rigor e da modernidade porque o País ansiava.
Cedo nos desenganámos. O rigor resultou na maior crise do Estado de Direito do País, com o descrédito das instituições que deveriam garantir o respeito entre os cidadãos, primeiro os magistrados e todo o sistema judicial, depois os médicos e o sistema nacional de saúde e, por fim, os professores e o sistema educativo. De uma penada, Sócrates desacreditou as mais sólidas instituições sociais da nação, ao mesmo tempo que edificava uma máquina de controlo da informação e da economia, sem precedentes na nossa história democrática.
Acabou por se desacreditar com uma sucessão de casos mal resolvidos e de teias de influência mal explicadas que lhe desbarataram a recente maioria absoluta e por pouco lhe faziam perder as eleições, o que só não aconteceu pelas fragilidades da oposição que com ele concorreu.
E em Portalegre? Que balanço fazer nesta década de fraca memória? Como em qualquer cidade do interior as consequências da crise fizeram-se sentir ainda com maior impacto: o desemprego, a falência e encerramento de empresas, o sobreendividamento das famílias.
Entretanto, também tivemos a nossa maioria absoluta histórica: Depois de um primeiro mandato em que Mata Cáceres dirigiu um Executivo pluripartidário que abriu expectativas de progresso aos portalegrenses, o mesmo Presidente geriu a maior maioria absoluta de sempre no Município (com 6 eleitos, em 7) com a delicadeza de um “elefante em loja de porcelanas”. Afastou muitos dos que nele acreditaram e que com ele colaboraram em parte ou no todo do seu primeiro mandato, desde logo, em primeiro lugar o Professor Martinó, depois os Arquitectos Sequeira Mendes e Ana Pestana, também o Professor Landeiro, ou a Dr.ª Ana Cristina Pais que dirigia exemplarmente o Museu da Tapeçaria de Portalegre. Descartou chefes de gabinete como quem muda de camisa: Primeiro José Manuel Barradas, depois Jaime Pinheiro, mais tarde António Oliveira e agora Mafalda Serrote.
Conseguiu resumir o futuro de Portalegre à miragem de um centro de realidade virtual, a anunciada “Game City”, que atrairia milhares de pessoas para a cidade. Triste miragem…
Enfim, Mata Cáceres desbaratou a maior maioria absoluta de sempre, no concelho de Portalegre, baixou de 6 eleitos para 3 e só não perdeu as eleições, mais uma vez por falta de comparência do maior partido da oposição. Apesar de tudo conseguiu o feito de ser o primeiro Presidente de Câmara a ser eleito para um terceiro mandato em Portalegre, e inscreveu o seu nome na primeira década do século XXI.
Fica a dúvida se terá capacidade de governar sem a maioria a que se habituou nos últimos quatro anos. Aparentemente o partido que o suporta politicamente aposta que não, a avaliar pelas declarações públicas de ingovernabilidade da Câmara e pelos significativos silêncios que tem mantido nas sessões da Assembleia Municipal, em torno de documentos fundamentais como as Grandes Opções do Plano e o Orçamento para 2010.
Não faltará muito para desfazermos esta dúvida. Mas esse será assunto para um próximo desabafo.
Termino fazendo votos para que o ciclo negativo desta década comece a inverter-se no ano 2010 e, sobretudo, que este seja um ano de esperança e de concretização das nossas vontades colectivas.
Bom ano novo!
19 de Janeiro de 2010
Luís Pargana

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Crónica de Nenhures

José Régio e Salazar
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José Maria dos Reis Pereira nasce em Vila do Conde a 17 de Dezembro de 1901. Viveu grande parte da sua vida na cidade de Portalegre, regressando a Vila do Conde, onde vem a falecer em 22 de Dezembro de 1969.
É em Vila do Conde que permanece arte completar o quinto ano do liceu, indo depois estudar para o Porto em 1918. Em 1920 inicia em Coimbra, como aluno voluntário, o curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras, que conclui em 1925.
Após o curso da Escola Normal Superior de Coimbra e o Exame de Estado, inicia a sua actividade de professor do ensino secundário em 1928 no Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Em Outubro de 1929, parte para Portalegre para leccionar no Liceu Mouzinho da Silveira, acabando por aí ficar a exercer a carreira docente, durante trinta e dois anos.

António de Oliveira Salazar nasce em Vimieiro, Santa Comba Dão, a 28 de Abril de 1889, e vem a falecer em Lisboa em 27 de Julho de 1970. Antes, a 27 de Setembro de 1968, terminava a sua vida pública.
Em 1900, Salazar conclui a instrução primário, indo continuar os estudos em Viseu, onde fica até 1910. Depois muda-se para Coimbra para estudar Direito. Em 1914, concluiu o curso de Direito e torna-se, dois anos depois, assistente de Ciências Económicas. Assumiu a regência da cadeira de Economia Política e Finanças em 1917, e alcança o grau de Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra em 1918, sendo desde esta data Professor Ordinário da Faculdade de Direito daquela Universidade.
Em Junho de 1926, Salazar toma posse da pasta das finanças, mas passados treze dias renuncia ao cargo e retorna a Coimbra, por não lhe haverem satisfeito as condições que achava indispensáveis ao seu exercício. E em 27 de Abril de 1928 reassume a pasta das finanças, deixando de vez a cidade de Coimbra.

Entre Salazar e José Régio havia uma diferença de idades superior a uma dúzia de anos, mas há um tempo de ‘vida comum’ entre eles na cidade de Coimbra. Entre os anos de 1920 e 1928, o professor e o estudante ter-se-ão cruzado inúmeras vezes, e quiçá trocado alguma palavra, uma vez que fosse. Na época, o ambiente coimbrão era restrito a uma pequena área, e sabendo-se onde Salazar e Régio viviam, a distância entre as duas casas, ambas na Alta, não era grande. Também a Faculdade de Letras distava escassos metros dos Gerais, se bem que para Salazar o caminho mais curto para a sua Faculdade fosse pela Porta de Minerva, junto à Biblioteca Joanina.
Mas Régio conhecia Salazar, que gozava na Academia forte prestígio, tal como Salazar conhecia Régio que em 1927 é um dos fundadores da revista Presença, que de imediato se tornou conhecida, e que já antes em 1925 tinha publicado o seu primeiro livro, Poemas de Deus e do Diabo.

Salazar em Lisboa e Régio em Portalegre seguem percursos muito diferentes. Dificilmente se terão voltado a cruzar, a encontrar, mas com toda a certeza sabem da ‘existência’ um do outro. É uma evidência!
Em 1956, José Régio organiza uma antologia poética, que intitula Poesia de Ontem e de Hoje para o nosso Povo Ler. É uma ‘encomenda’ do regime do Estado Novo, que tem em prática uma Campanha Nacional de Educação de Adultos.
Contudo, esta antologia vai mais longe, porque a sua qualidade literária, e estética fruto das ilustrações de António Vaz Pereira, assim o exigem. Hoje é um ‘produto’ de alfarrabista de alto valor.
A seguir a cada poema, José Régio faz uma pequena análise do mesmo e sobre o autor, de uma sensibilidade extrema, no mesmo sentir da própria introdução à antologia, páginas sete e oito, e que recordamos:
UMA PALAVRA
Amigo Leitor:
BEM-FADOU Deus a nossa Pátria com o dom da poesia. Entre todas as nações do mundo, Portugal é das que geraram mais e maiores poetas. Não podia, pois, deixar de ser muito incompleta esta breve colecção de poesias portuguesas. Muitos outros poetas possuímos além dos que te irei apresentando. Nem, por agora. Aqui puderam caber alguns dos grandes. Muitos outros aspectos oferecem os apresentados, através das suas várias obras. Assim, não é este livrinho senão uma tentativa para te abrir o apetite de mais. Nele procurei reunir poesias tanto quanto possível acessíveis e agradáveis a quem principia a ler versos, – sem, porém, deixarem de ser de bom quilate. Se alguma coisa te puderem auxiliar os breves comentários que lhes juntei, ainda bem que aí vão. E, se vieres a dispensá-los, melhor. Por mim, bem satisfeito me sentirei em te despertando este livrinho aquela sede que só a poesia pode saciar, sem – como dever ser – a matar de todo: sede de Beleza, de Bondade, de Amor, de Sonho, de Entendimento, – verdadeira dignidade do homem.
JOSÉ RÉGIO
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Vai sair desta antologia uma segunda edição em 1969, em tudo idêntica à primeira.
E dentro dessa mesma ‘identidade’ está a página cinco, onde em maiúsculas está uma frase, melhor, um pensamento de Salazar. Nele fala-se do Homem, do Espírito e dos seus Valores e dos Povos. Infere-se dela que é do Espírito e dos seus Valores que os Povos encontram a Paz.
Na Biblioteca Municipal de Portalegre está à disposição dos seus utilizadores a segunda edição desta antologia poética.
Todavia, nela foi perpetrado um acto de vandalismo. A página cinco foi cortada, num manifesto acto de censura.
Hoje, quem consultar esta obra, vai encontrá-la conspurcada pela mais vil das manifestações de intolerância. Quem cometeu este acto de barbárie está a coberto do anonimato, ‘qualidade’ muito ‘cultivada’ em Portalegre, ‘ontem’, como ‘hoje’, e infelizmente de certeza também ‘amanhã’.
A tentativa de reescrever a História é milenar. Em Portalegre, a propósito de José Régio, alguém a quis reescrever. Mas foi descoberto. Não quem o fez, mas o acto em si.
É bem verdade que com ‘amigos’ como ‘este’, José Régio jamais precisará de ‘inimigos’!...
Mário Casa Nova Martins
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Capa e contracapa do exemplar da Biblioteca Municipal de Portalegre

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Página com os carimbos da Biblioteca Municipal de Portalegre
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É nítida a ausência da página 5/6
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Capa da 1.ª edição
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Páginas 4 e 5
Na página 5, que no exemplar da BMP foi cortada, vê-se o texto de Salazar
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As páginas 6 e 7
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