\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, dezembro 06, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Há uns meses, a França inteira foi sacudida por uma onda de espanto e indignação. Alguns dos seus nobres valores, como Nação, tinham sido reduzidos a cacos, ou pouco menos...
Acontecera o impensável, quando um dos mais lídimos símbolos gauleses foi transformado em simples agente publicitário -imagine-se!- duma cadeia multinacional de fast food, a inominável McDonald’s.
Astérix comendo hamburguer e batatas fritas ou bebendo coca cola, com os bigodes lambuzados de ketchup, assim como Obélix, abandonando a sua tradicional dieta de javali e cerveja, constituem imagem intolerável para o francês médio. Depois, num país que ainda alimenta pretensões à detenção da melhor cultura culinária mundial, esta cedência à gastronomia capitalista imposta pela globalização assumiu-se como uma ofensa quase imperdoável.

Enormes outdoors encheram espaços de Paris e de outras cidades francesas, das galerias do Metro aos parques ao ar livre, das páginas dos jornais aos folhetos volantes, veiculando a imagem familiar de um final de álbum de Astérix: o tradicional banquete da irredutível tribo gaulesa, com o bardo Assurancetourix, como sempre, amarrado a uma árvore, à margem do festim. O pior é que o cenário deste banquete foi dessa vez uma vulgar, e bem identificada, lanchonete da rede McDonald’s e não um clássico bosque gaulês.
Este anúncio foi um de três criados pela agência de publicidade Euro RSCG para a nova campanha Venha como Você É”. Os outros dois usaram a Cinderela (ou Gata Borralheira) chegando ao drive-thru da McDonald's a bordo duma abóbora, assim como a tétrica personagem mascarada de fantasma, da série cinematográfica Pânico, comendo um Big Mac.


A banda desenhada, o conto tradicional e o cinema forneceram, portanto, os intermediários -ou agentes- duma moderna campanha publicitária destinada a promover produtos da chamada comida rápida.
Autêntico insulto contra o património nacional, assim foi considerada toda essa operação de marketing comercial por parte considerável da opinião pública francesa. Aquilo que, afinal, bem se poderia conter nos limites de uma normalíssima perspectiva sócio-cultural do quotidiano transformou-se numa polémica, quase política, que motivou inflamados editoriais na imprensa e enérgicos comentários nas redes sociais da WEB.
No entanto, até existem antecedentes que, em passado recente, associaram os actuais intervenientes, Astérix e a McDonald’s. Foi em 2001, aquando do lançamento do filme Astérix e Cleópatra. Então, a cadeia McDonald’s “contratou” o irredutível gaulês para substituir a sua tradicional personagem Ronald, um palhaço, numa campanha publicitária, embora menos ambiciosa e criativa que a actual. Como costuma acontecer, alguns dos brindes promocionais desses tempos consistiram, precisamente, em pequenas figuras-brinquedo de plástico alusivas ao filme: Astérix com um sistema de mola para correr, Obélix com uma mola para saltar, Ideiafix mais uma companheira dotados de narizes magnéticos, Panoramix com um puzzle no seu caldeirão, Brutus com músculos que cresciam, Assurancetourix com um botão para tocar música, um jogo electrónico de corridas de quadrigas e duas estátuas (personagens da tribo) com carimbos na base.
Porém, esse ligeiro e inóquo antecedente -praticamente já esquecido!- não atingiu as presentes indignidades, que gravemente alteraram o carácter essencial da dupla, quando esta foi obrigada a renegar a sua dieta de sempre em favor de cedências inimagináveis perante o invasor... norte-americano e não romano, como na saga. E isto ultrapassou tudo quanto o tradicional e chauvinista amor próprio francês poderia aguentar.
Daí esta tempestade, não no lendário copo de água mas numa lanchonete, perto de si...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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