\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

quinta-feira, novembro 04, 2010

Mário Silva Freire

CRÓNICAS DE EDUCAÇÃO – XXI

Os pais e a violência dos filhos na escola

Vai sair legislação em que se inclui o bullying numa moldura penal equivalente à da violência doméstica. Aquela palavra inglesa que hoje, infelizmente, se encontra tão generalizada, tem a ver com formas de violência que ocorrem nos recreios das escolas, em que os sujeitos nelas intervenientes são, fundamentalmente, os alunos. Embora não seja esta determinação legal que vá eliminar os maus-tratos que os alunos provocam entre si, ela pode ser um passo para dar uma maior consciência quer aos alunos, quer aos pais, sobre a gravidade deste problema.
Mas a violência não se passa apenas nos recreios. Ela pode manifestar-se, sob formas mais ténues, dentro da sala de aula. Aí, é a indisciplina que pode acampar, sendo, neste caso, o professor a vítima directamente atingida. Mas, será que o professor possui todos os instrumentos de que necessita (formação específica, regulamentos, estrutura escolar) para impor o ambiente de trabalho necessário para a aprendizagem? E a autoridade docente, como é ela sentida pelos alunos e pela comunidade?
Estas são questões que nos levariam a um debate mais amplo, envolvendo outros actores. Destes, seleccionaria dois: a família e o Estado. Debruçar-me-ei, em breves pinceladas, apenas sobre o primeiro.
Ora, os pais são elementos cruciais na prevenção e diminuição destes fenómenos. Eles, teoricamente, são os agentes que melhor deveriam conhecer os filhos e que em melhor posição estariam para influenciar os seus comportamentos. Acontece, porém, que nem sempre isso acontece. E, pior ainda, muitas das atitudes que os filhos vêem em casa são fortes motivadores para a indisciplina e para a violência. A autoridade dos pais, sabe-se, está hoje seriamente afectada. Tem-se medo de dizer não. Ora, o não, convenientemente utilizado, é um elemento construtor da personalidade. É ele que impõe os limites. E quando estes não são aprendidos em casa, não será a escola que os vai inculcar nos alunos.
Por outro lado, as novas formas de família, principalmente a monoparentalidade ou a coabitação com outros elementos resultantes de novas uniões de um ou de ambos os pais, não vieram, igualmente, ajudar o desenvolvimento afectivo dos filhos. A falta de uma figura paterna ou materna em permanência é estruturante na infância e na adolescência. Mas, pior ainda, é quando os filhos servem de arma de arremesso, de um dos pais contra o outro.
Enfim, muitos alunos são causas de violência e indisciplina dentro da escola. Mas não serão esses mesmos alunos, em última instância, as principais vítimas desta sociedade tão cheia de tecnologias e tão parca de valores?
Mário Freire

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