\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, novembro 29, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Após os previstos 26 “capítulos” da longa e exaustiva saga Tintin au Congo impunha-se uma espécie de ponto da situação.
As últimas linhas do último texto datam de há cerca de quatro meses. A sua actualização justifica-se até pela singular coincidência de, no próprio dia da edição do “capítulo” final neste blog, ter sido efectivada em Bruxelas mais uma audiência do longo caso judicial que motivou o presente trabalho.
Quem, entre nós, considere morosa a justiça nacional pode encontrar aqui uma óbvia semelhança. De facto, a sessão judicial da passada segunda-feira quase nada adiantou. Considerado incompetente pela defesa (Sociedade Moulinsart), uma vez que o caso deve ser entendido como um problema comercial -a probição de venda de um bem-, o tribunal adiou a decisão para o próximo dia 8 de Dezembro. Por outro lado, um advogado do senhor Bienvenu, Ahmed Hedim, afinou a sua acusação, ao dizer que não se desejava o julgamento de Hergé mas o de uma época onde o racismo estava enraízado nas mentalidades...
Que se saiba, tal tarefa tem vindo a ser democrática e criteriosamente realizada, por intermédio dos historiadores, dos politólogos, dos filósofos e de outros autorizados especialistas.
Um dos defensores da Moulinsart, o nosso já “conhecido” Alain Berenboom, aproveitou a ocasião para afirmar que não podia aceitar o racismo mas que, em complemento, achava igualmente terrível alguém exigir para tanto um “auto-de-fé” de livros...
Portanto, quanto à epopeia judical em curso, nada se pode prever sobre um desfecho definitivo nem, sobretudo, quanto à sua eventual data.
Porém, neste intervalo e muito recentemente, aconteceu um facto alusivo a esta problemática cuja importância não pode ser minimizada, até pela circunstância de o senhor Bienvenu constantemente salientar que, no moderno e independente Congo, o álbum “maldito” tem vindo a ser devidamente avaliado e criticado, ao contrário do sucedido nos ingénuos tempos coloniais.
Ora aconteceu entretanto esse episódio altamente significativo, protagonizado pela actual ministra da Cultura e das Artes da República Democrática do Congo, Jeannette Kavira Mapeera.
No início do passado mês de Outubro de 2010, no contexto da inauguração do primeiro festival da BD congolesa, em Kinshasa, a ministra foi interpelada por um jornalista da RFI a propósito do polémico caso de Tintin no Congo despoletado na Bélgica.
Jeanette Mapeera começou dizendo que nada naquele processo judicial se justificava. Depois, contrariando frontalmente a falaciosa argumentação do senhor Bienvenu, declarou, expressamente, que “para o governo congolês, Tintin no Congo é uma obra-prima”.
E não ficou por aqui, pois acrescentaria: “Nos tempos antigos, quanto este livro estava sendo escrito e o seu criador se inspirava, realmente os congoleses não conseguiam falar francês. Ainda hoje, não são os congoleses que falam o melhor francês”. A ministra assim desfez, com a autoridade que o seu cargo político lhe confere, os fundamentos da pseudo-caricatura racial onde assenta boa parte da argumentação do senhor Bienvenu...
Concretamente a propósito da ultra-famosa cena do comboio descarrilado onde Tintin e Milou aparecem criticando os nativos pela sua preguiça, Jeannnette Mapeera contrapôs: “Naquela época, descrita na obra, realmente, para incitar os congoleses ao trabalho, ou para nele os incentivar, tinha de se usar a vara. Ainda hoje, em algumas situações, para enviar as crianças ou os adultos ao campo, têm de ser usados métodos fortes”.
E terminou as suas declarações, a que não pode ser recusado um certo tom polémico, de forma clara e determinada: “Sentimos que este é um julgamento que não envolve o governo congolês”.
Confesso que, para apoio da tese pessoal aqui expressa no decurso dos últimos meses, eu não poderia aspirar a uma mais vigorosa e autorizada confirmação, ainda por cima com uma chancela oficial do mais alto nível.
As inequívocas declarações da ministra congolesa da Cultura e das Artes, amplamente difundidas pelas grandes agências informativas, deveriam ser bastantes para anular as aleivosias e os exageros onde assentou a absurda lógica das intempestivas acusações lançadas sobre Tintin no Congo.
Seja qual for o resultado das diligências judiciais, que ameaçam eternizar-se, o seu veredicto foi já assinado por Jeannette Kavira Mapeera.
Reconheço sem qualquer esforço que, pessoalmente, eu não o faria melhor.
Aguardo que o senhor Bienvenu, com honesta e democrática humildade, aceite este valente puxão de orelhas.
António Martinó de Azevedo Coutinho
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Adenda à Adenda – Não posso terminar este definitivo capítulo dedicado ao Tintin no Congo sem aqui manifestar um merecido e oportuno destaque a três amigos: Mário Casa Nova Martins, Mário Freire e Pedro Britto.
Ao primeiro quero agradecer a aceitação desta colaboração pessoal no seu blog. Sei que a dilatada inserção semanal do trabalho lhe levantou alguns problemas técnicos, sobretudo na integração dos clips de vídeo. Com persistência, soube resolvê-los a contento. Sinto-me honrado com a amizade e cumplicidade que me dedica.
A Mário Freire, fiel companheiro em diversas lides culturais, quero agradecer as palavras de apreço que pessoalmente me quis transmitir, no reconhecimento do trabalho de pesquisa a que me entreguei e da qualidade que me esforcei por colocar ao serviço desta causa pública, na defesa de alguns valores permanentes em que acreditamos.
A Pedro Britto, que, num fraterno abraço através do Atlântico, deixou neste blog uma expressiva prova de solidariedade, desejo manifestar um sincero sentimento da recíproca admiração para com o seu magnífico blog (www.tintimportintim.com), que me habituei a frequentar e a apreciar diariamente.
Afinal, cada um de nós -na sua peculiar maneira de ser e de estar- revela um comum e forte apreço pela qualidade sócio-cultural e recreativa da Banda Desenhada, sobretudo pela que o génio de Hergé soube magistralmente interpretar.
Por isso, quero expressamente dedicar a estes três amigos o próximo dossier temático que o blog A Voz Portalegrense muito em breve revelará aos interessados.
A.M.

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