\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, novembro 15, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

A Sociedade Moulinsart não dorme em serviço. Recentemente, acrescentou na sua página (tintin.com) uma outra secção, menos elaborada talvez que a dedicada aos cadernos de viagem, porém mais directa e incisiva no que respeita à legítima defesa da sua ofendida honra.
Situado nos destaques mais em evidência, Tintin no Congo - álbum à lupa merece uma visita. Elaborado com inteligência e com sensibilidade, este trabalho foi concebido para complementar e actualizar a informação contida no caderno de viagem. O seu conteúdo, sintético e utilitário, responde com controlada firmeza e uma certa ironia às torrenciais acusações em curso.
A introdução é desde logo um desafio à consulta: “Estamos a 5 de Junho de 1930. Os leitores do Petit Vingtième são prevenidos: acabados de chegar da União Soviética, Tintin e Milou embarcam para o Congo Belga. Textos de sabor heróico anunciam o facto; viram mesmo Tintin escolher o seu equipamento na secção Congo dos grandes armazéns Au Bon Marché...”
O enunciado dos títulos que encimam as sucessivas pranchas (apenas 16 versus as outras 96!) é desde logo suficiente para denunciar intenções e conteúdos.
Começa por Um álbum inesperado e continua em O Congo antes da América. Pode aqui ler-se, por exemplo: “Mas há uma situação tipicamente belga bem mais urgente, aos olhos do director do Vingtième Siécle, o padre Norbert Wallez: um pouco de entusiasmo aos jovens belgas para neles despertar uma vocação colonial.”
A preparação dos leitores, Porque Hergé envia Tintin ao Congo e Tintin - Promotor do Congo são os títulos seguintes, claramente demonstrativos das intenções desmistificadoras dos responsáveis da Sociedade Moulinsart, perante interpretações preconceituosas postas a correr.
Depois, dá-se conta das diligências de Hergé desenvolvidas no sentido de se documentar e informar com a justeza possível sobre uma realidade que não conhecia: Hergé acumula documentação e Um Homem-Lopardo no Museu!
 Leitores impacientes! parece denunciar o latente entusiasmo patenteado pelos jovens belgas perante o anúncio da viagem de Tintin. Nada de mais errado, pois o referente destes sentimentos é um apreciável conjunto de jovens congoleses, ao tempo impacientes pela visita de Tintin à sua terra! E o “capítulo” cita alguns testemunhos da época: a carta de um missionário que dava conta do enorme interesse dos seus alunos que, levando mesmo a sério a visita, convidavam Tintin a passar pela sua aldeia; outro escrito, da autoria de um jovem congolês, Kyola Kongo, dominada por um ingénuo estilo (!?) que se tornaria modelo ortográfico para Hergé, o que alguns “amargos de boca” lhe causou... e causa ainda.
Por constituir um “clássico”, aliás já transcrito por Philippe Goddin na obra Hergé, Lignes de Vie (ed. Moulinsart, 2007), aqui se reproduz (sic!) a curta carta de Kyola Kongo:
Mossieu, moi piti noir est content beaucou li mien petit ami tintin bonne santé. Moi contan li tintin venir ici. Nous pas manger li. C’est li avoir beaucou manger ici. Moi fini, Kyola.”
Apenas se junta um comentário: não foi certamente Hergé quem inventou o “falar à preto”.
Continuando a breve passagem por Tintin no Congo - álbum à lupa, vem a seguir A Vinheta controversa, uma sumária análise à cena inicial da aula onde a ausente pátria, a Bélgica, acabaria “transfigurada” na adição 2+2. Ligada a esta sequência, segue-se Um Significado escondido, alusão à metafórica frase A Bélgica é o que se chama... um leopardo!, referência cultural que Hergé teria empregado com intenções que ainda hoje suscitam uma legítima dúvida. Sem resposta...
Al Capone no Congo?- eis o título final desta lúcida e descomplexada desmontagem de mitos, deixando uma explicação para a alusão à presença de aventureiros e traficantes americanos no Congo, bem real, sobretudo quando se evocam os tempos do Katanga, em particular no que respeita aos diamantes e, mais tarde, ao urânio.
Palavras derradeiras: “... foi também assim a aventura colonial. E, mais uma vez, Hergé foi de tudo isso um incisivo observador.”
Ficam depois, dispersos, uns pormenores secundários: traduções do título numa dezena e meia de línguas e dialectos regionais ou reproduções das capas originais. E assim acaba esta oportuna secção de tintin.com.
O conjunto dos dois trabalhos, de fácil consulta, corresponde a uma posição oficial da Sociedade Moulinsart, cuja legitimidade ninguém se atreverá -suponho- a contestar. A sua reprodução parcial que, com a devida vénia, aqui deixo pretende constituir um convite/desafio à uma atenta leitura, na origem e na íntegra, e a uma posterior discussão a propósito.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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