\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, novembro 01, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Enquanto banda desenhada, a história Tintin no Congo será uma obra perfeita, quer na forma quer no conteúdo? Em plena consciência, não posso nem devo responder afirmativamente a esta questão, aliás interessantíssima.
Existem para tanto algumas razões de vária natureza, ainda que nem todas se liguem directamente ao contexto racista ou xenófobo que temos vindo a abordar. Mesmo assim, vale a pena dedicar ao tema alguma atenção.
Em devido tempo foi abordada a grande vinheta final, com todo o seu latente animismo, na idolatria relacionada com a veneração dos ícones de Tintin e de Milou, misteriosamente “desaparecidos” nas circunstâncias que nós, leitores, bem conhecemos, as quais terão sido arredadas do conhecimento dos congoleses, personagens essenciais da narrativa...
Isto é patente nas diversas versões em álbum, ainda que, nas suas primeiras publicações em álbum, 1931 e 1942, uma penúltima grande vinheta nos deixe em aberto a hipótese de qualquer outro pormenor essencial, vinheta essa depois escamoteada nas edições posteriores, em 1946, 1970, etc.
Este “enigma” não existe na publicação original nas páginas de Le Petit Vingtième, pois a capa da edição relativa ao dia 11 de Junho de 1931 -aquela em cujo interior se conta o final da aventura- contém a sua “chave”! Com efeito, os habitantes de uma aldeia indígena apontam ou olham para o céu, enquanto um deles proclama: “Ali vai Tintin: ele regressa à Bélgica!” Assim, a “mágica” desaparição dos heróis foi prosaicamente explicada pela sua estratégica retirada, de avião. E faz então sentido a penúltima grande vinheta, dominada pela transmissão da informação colhida na capa, transformada -ela própria!- em vinheta narrativa inserida no continuum normal...
Como truque, Hergé teria conseguido marcar pontos num “campeonato da originalidade”. O reverso dessa medalha está porém contido na omissão da capa -e da sua decisiva informação- nas edições que agora estão ao nosso alcance...
Abordemos agora um erro gráfico-narrativo cometido pelo genial contador de histórias, com a curiosidade extra da sua assunção, assim como da frustrada intenção da sua emenda, em distintas edições.
Trata-se da cena em que Tom dispara sobre Tintin. Na edição original, a preto e branco, as duas sucessivas vinhetas contêm um erro da natureza temporal, pois na primeira vê-se Tintin a evitar o tiro que apenas é disparado por Tom na segunda. Na edição de 1946, a cores, o erro é de natureza espacial, pois Tom dispara na primeira vinheta um tiro para a esquerda, que Tintin evita, na segunda, mas vindo da direita...
No entanto, num caso como no outro, o problema resolver-se-ia com a “contracção” das duas vinhetas em apenas uma, panorâmica, ainda que no caso mais moderno tal exigisse uma troca na ordem das personagens.
Atrás, oportunamente, louvei a atenção de Hergé aos pormenores. Porém, na complexa trama duma história, para mais aqui agravada pela drástica redução do número de páginas originais para pouco mais de metade, é inevitável que sejam cometidas algumas falhas devidas... à distracção. Provavelmente, será por isto mesmo que as falhas se contabilizam em maior quantidade na edição mais moderna.
Fica aqui a curiosa relação de algumas, de diversa natureza, talvez mais próprias do Professor Tournesol que de Hergé:
• Na cena do consultório médico, no paquete, um bisturi ou pinça no armário “transforma-se” a seguir numa tesoura...
• Milou, ainda no barco, atira-se ao mar com a cauda entrapada, com um penso que “perde” dentro de água, para o “recuperar” depois, no convés...
• Mesmo nessa altura -como hoje- 5000 dólares americanos representavam uma quantia bastante superior a 1000 libras esterlinas, pelo que seria ilógica e absurda esta contraproposta, posterior. Basta fazer contas cambiais...
• Com a pancada de Milou, Tintin perde a sua arma e esta, aparentemente, salta para longe, fora do seu alcance e da nossa vista. No entanto, de imediato, ele pode empunhá-la para se defender do crocodilo...
• A cobra de espécie boa não existe em África, pois o seu habitat natural é a América do Sul. O “enciclopédico” saber de Milou soa aqui a falso...
• Tom abandona Tintin à sua sorte, a partir da margem direita do rio. Como pode ele surgir depois, sem qualquer ponte, corda ou piroga para a travessia, na margem esquerda do mesmo caudaloso rio?

Como curiosidade extra, acrescente-se que foi inventada uma teoria quase esotérica pretendendo atribuir ao celebrado número de matrícula do Ford T de Tintin no Congo uma “cabalística” interpretação conducente a 1885, em vez do ostentado 1385, pois aquela é a data histórica do fim da Conferência de Berlim que concedeu o Reino Livre do Congo à posse pessoal de Leopoldo II, com todas as funestas consequências conhecidas...Acho que, também neste particular, Hergé estará de todo inocente. Não consigo vislumbrar-lhe intenções de tamanha, ainda que indirecta, perversidade.
Porém, que o senhor Bienvenu nunca leia estas confidências, pois transformá-las-ia em mais uma irrefutável prova dos sinistros objectivos do “pai” de Tintin...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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