\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, agosto 16, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Parece chegado o momento de tratar mais especificamente o tema fundamental desta análise centrada numa obra de BD, com respeitáveis oitenta anos de publicação, presentemente alvo de atenções e de críticas de tal modo apaixonadas e significativas que a tornaram um fértil pretexto de discussão.
Um cidadão congolês radicado na Bélgica, Bienvenu Mbutu Mondondo de seu nome, contabilista e estudante de Ciências Políticas ao que parece, empenha-se desde Julho de 2007 numa persistente demanda judicial contra Tintin au Congo, obra que acusa de racismo e xenofobia. Esta sua actividade tem-lhe grangeado simpatias e também ódios, tem-lhe aberto as páginas noticiosas, quer escritas quer audiovisuais, e tem provocado debates e estudos, até em respeitáveis meios académicos.
Desprovidas ou não de razão, de lógica e de coerência, as questões levantadas constituem já um verdadeiro dossier, onde as posições opostas se debatem com entusiasmo e onde as análises favoráveis ou contrárias à tese em discussão não podem ser desprezadas. E este será, provavelmente, o maior mérito da inciativa.
Bem vindo seja, portanto, senhor Bienvenu!
Tentemos perceber um pouco das razões e dos argumentos invocados pelo autor da queixa, pesquisando pelas incontávies declarações que ele tem prestado aos meios de comunicação social.
Assim, numa entrevista prestada ao “site” afrik.com, Bienvenu Mondondo declarou que encontrara por mero acaso, ao folhear o jornal, um artigo que relatava a iniciativa de um advogado, David Enright, que provocara na Inglaterra uma decisão judicial considerando Tintin au Congo como obra racista. Intrigado, ele próprio, no dia 20 de Julho, comprou o álbum, com a intenção de o oferecer aos sobrinhos no caso de não o achar racista. Porém, não só não o ofereceu aos sobrinhos como, quatro dias depois, desencadearia o seu próprio processo judicial...
Portanto, parece legítimo concluir que o caso pode ser considerado como um autêntico episódio de ódio à primeira vista. O senhor Bienvenu nada saberia de Tintin, nem de Hergé, mas aquele imprevisto encontro com uma simples notícia abriu-lhe os olhos para um dos mais repugnantes e graves casos de racismo, ainda impune, dos nossos tempos...
Depois, têm-se seguido três anos preenchidos por diversas sessões de um julgamento que parece eternizar-se, onde a sociedade Moulinsart, alvo principal das acusações, parece pouco preocupada com o evoluir do processo.
Entretanto, a definição dos objectivos pretendidos pelo acusador também tem sofrido algumas inflexões, que vão desde a dura e pura interdição até à simples colocação, em cada álbum, de uma cinta e de inserção de uma espécie de alerta, escrita, sobre os riscos do conteúdo. Generoso, o senhor Bienvenu, apenas exige (ou exigiu!?) para si a indemnização simbólica de um euro...
Quanto aos conteúdos concretos das suas repetidas queixas, sabe-se pouco, bem pouco para o que seria desejável. As constantes declarações do acusador são preenchidas por lugares comuns, vagos estribilhos e clássicos slogans, discursos cheios de ideias gerais pouco detalhadas, repetitivas e vulgares.
Afirmar que “o álbum é racista e xenófobo”, que “foram estas teses racistas que seriram de suporte às discriminações sociais, às segregações étnicas e aos actos de violência, como acontece nos genocídios”, que Hergé reconheceu que “na sua época, os negros não podiam deixar de ser considerados como crianças grandes”, que “o álbum está cheio de propaganda colonialista, onde os negros são retratados como estúpidos e sem qualidades”, etc., etc., etc., dizer tudo isto e muito mais de estilo similar nada significa em termos de uma acusação séria, honesta e, sobretudo, documentada.
No intenso período dos quatro dias em que teve de tomar a dramática decisão de enviar Tintin para o Céu -os sobrinhos- ou para o Inferno -os tribunais-, o senhor Bienvenu terá ficado, entre perdido e atónito, pela terra-de-ninguém...
Quando publicamente lhe é solicitada -e isso tem sido bem documentado nos clips vídeo de inúmeras reportagens- uma acusação mais concreta ou um exemplo mais pormenorizado, o senhor Bienvenu repete até à exaustação e quase em exclusivo o episódio do comboio. Num choque, este é descarrilado, porque é negro, por um simples automóvel, porque é branco. E, depois, os negros são considerados preguiçosos, pelo cão (imagine-se!), obviamente branco. E pouco ele mais reteve da leitura e da análise da obra, pelos vistos...
Outros sintomas, vestígios e provas de racismo (também de colonialismo ou paternalismo) patentes no álbum, como muitos dos que já atrás ficaram arrolados por diversas fontes, tudo isso está omisso nos prudentes silêncios, ou na ignorância, do acusador.
Mas não deixaremos as acusações sem resposta, ainda que para isso não tenhamos qualquer procuração, para além da que -moral e sentimentalmente- deriva do nosso apreço por Hergé e da nossa admiração por Tintin.
Para evitar qualquer conotação racista, declaro desde já que a minha eventual superioridade cultural sobre o senhor Bienvenu -no caso em apreço- deriva, muito simplesmente, de eu ter lido as aventuras de Tintin durante cerca de setenta anos e de sobre elas ter reflectido, com a isenção e a profundidade possíveis, desde que -já crescido!- comecei a levar bem a sério o fenómeno BD.
António Martinó de Azevedo Coutinho
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Um pequeno vídeo encerra este “capítulo” dedicado, no essencial, às acusações do senhor Bienvenu. Trata-se de uma montagem sumária retirada de uma reportagem televisiva do Canal 2 da TV Belga, em flamengo. No entanto, como o acusador se exprime num francês muito claro, o depoimento sobre Kuifje in Afrika é plenamente acessível e constitui uma evidente demonstração das suas limitações críticas e da sua visão desajustada, por exemplo, no que se refere à actual aceitação do álbum na República Democrática do Congo.
Acusações de Bienvenu

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