\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

quarta-feira, junho 30, 2010

Luís Filipe Meira

Memórias em Noite de Verão

Diz-se que o sonho comanda a vida, mas são as memórias que de certa maneira alimentam a nossa sobrevivência. Isso foi público e notório na passada sexta feira, na apresentação do projecto Eclips, que reune oito músicos portalegrenses de proveniências diversas e gostos variados, mas que têm na música dos Pink Floyd uma paixão comum.
Não me atreveria a dizer que a numerosa assistência que quase encheu os Claustros do Convento de Santa Clara fosse formada por melomanos Floydianos, pois o evento teve uma componente social bastante impressiva. Ainda assim foi notório que muita gente ali foi para, à sua maneira, reviver o passado através deste tributo aos Floyd.
Rob Gordon - personagem central do livro Alta Fidelidade de Nick Hornby, que posteriormente foi objecto de uma feliz adaptação ao cinema por Stephen Frears - diz a páginas tantas que:
_ Gravar uma compilação é uma arte subtil. Há regras para coisas a fazer e outras a evitar. Afinal estamos a servir-nos de poesia alheia para exprimirmos o que sentimos e isso é uma coisa delicada.
Ora, quem arranca para tributos como aquele que assistimos na última sexta feira, terá que ter em conta estas premissas. Um projecto deste tipo tem que ser sério, honesto e digno. Para além disso, quem o executa terá que ter uma razoável capacidade técnica e bom senso para não entrar em becos sem saída.
O projecto Eclips é formado por músicos experimentados de razoável capacidade técnica, com frequência de Conservatório, e alguns mesmo com profissão na área da música, por isso quando avançaram para um projecto deste calibre sabiam exactamente o que estavam a fazer. E ainda bem que o fizeram nestes moldes, ou seja, ainda bem que perceberam com humildade as suas naturais limitações e não se abalançaram para outros patamares mais complicados o que, além de maior dificuldade de execução, lhes daria possivelmente um menor retorno, leia-se um menor sucesso.
Ora, o alinhamento do concerto tendo sido centrado no pouco mais que sofrível The Wall não funcionou como factor negativo, antes pelo contrário, afinal o disco está cheio de temas populares e orelhudos, de execução relativamente acessível, que podem ser decisivos no sucesso do concerto. E depois há... Domingos Redondo, um guitarrista de outra galáxia, que nem por um momento deixou transparecer que esta não é a música que o arrepia. Afinal músico é músico em todos os momentos e circunstâncias.
A rematar, gostaria de deixar claro a bondade deste projecto, que respeita a banda inspiradora e que só pode melhorar com o tempo, apesar de ter ficado perceptível que já por aqui há muitas horas de trabalho. Ainda assim, daqui a dois meses no Crato, num palco com outras responsabilidades e perante um auditório enorme e descaracterizado, poderemos aferir, de forma mais ou menos segura se haverá futuro para além dos Claustros de Santa Clara.
Luís Filipe Meira

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