\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, abril 23, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Publicidade Global ou A Arte dos Limites

Uma vez mais é o pretexto dos interessantes posts aqui colocados que me desperta a vontade de partilhar um pouco, seleccionado, do que vou descobrindo nas frequentes navegações, mais ou menos orientadas, que pratico Net fora.
Agora foram dois esses recentes “detonadores”: o cartaz publicitário com Raul Castro receoso do rato, genial metáfora alusiva à persistente falta de respeito dos dirigentes cubanos pelos direitos humanos e à inerente censura praticada a tal propósito, assim como a imagem inicial do vídeo Empire State of Mind, na interpretação de Alicia Keys e Jay-Z, tendo o “casario” típico dessa fabulosa Nova Iorque por pano de fundo.
A conjugação dum invulgar produto publicitário com o inconfundível ambiente urbano de Manhattan fez-me lembrar o trabalho de uma conceituada agência brasileira dessa área criativa, a DM9DDB. Esta firma, galardoada com o título mundial de Agência do Ano no prestigiado Festival Internacional de Publicidade de Cannes de 2009, produziu um vídeo extremamente polémico, que desencadeou os mais entusiásticos elogios e, simultaneamente, os mais inflamados protestos.
Nem sequer me atrevo a emitir aqui uma opinião pessoal, que naturalmente detenho, para não influenciar o juízo que cada leitor/espectador tem o direito de produzir a propósito.
O que posso acrescentar é o facto de o vídeo ter sido alegadamente produzido para apoiar uma campanha, financiada pela WWF Brasil, uma prestigiada Organização não Governamental dedicada às causas ambientalistas. O tema é simples: “O Tsunami matou 100 vezes mais pessoas que o atentado de 11 de Setembro de 2001. O planeta é brutalmente poderoso; por isso respeite-o e preserve-o.”
Ao que parece, o vídeo foi apresentado na Net e logo divulgado pelo YouTube. Tal aconteceu entre os finais de 2008 e os princípios de 2009 e a reacção foi quase instantânea e global, tanto no sentido do apreço como no do desprezo, um e outro extremados a limites quase inconcebíveis.
O resultado foi, igualmente, apaixonado: a Agência ordenou a retirada imediata do vídeo da circulação, desculpou-se publica e veementemente, repreendendo mesmo os próprios criadores, jovens profissionais da firma, enquanto a WWF Brasil repudiou liminarmente o anúncio, considerando-o ofensivo e de mau gosto, afirmando ainda que não autorizara a sua produção nem a sua divulgação. Mais: a Organização lembrou que, cientificamente, os tsunamis nada têm a ver com preservação ou conservação da Natureza, sendo causados por terramotos e outras forças geológicas...
Restar-nos-á, certamente, alguma perplexidade derivada do binómio forma versus significado. A ética aceitará a elaboração de um discurso formalmente bem intencionado que parta de uma certa ilegitimidade no conteúdo?
Poderemos (ou deveremos) despertar as consciências pelo choque criativo? Existem, de facto, alternativas no universo publicitário de hoje?
Como quase sempre acontece, o polémico vídeo com apenas 70 segundos de duração, embora oficialmente retirado da Net, pode ser encontrado noutros sítios. É o seu visionamento que vos propomos, assim como uma necessária reflexão. Depois, cada qual poderá concluir sobre a sua validade ou a sua inutilidade, sobre os seus méritos e vantagens ou os seus defeitos e riscos...
Em diálogo íntimo connosco ou no confronto com as opiniões alheias, talvez, no final, aprendamos qualquer coisa.
António Martinó de Azevedo Coutinho
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