\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, abril 12, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

PATRIMÓNIO, CULTURA E CIDADANIA

II - AS MEMÓRIAS

Falámos de pedras que são memória viva, ainda que por vezes se procure iludir tal evidência. E também existe a outra memória, talvez mais imaterial, ou tendo menos pedras sólidas por pretexto. Mas nem por isso menos relevante.
Nestes domínios apaixonantes, não precisamos de torres ou de ameias, de salões ou de varandas; bastam-nos o papel, o documento, o sinal, a inscrição, a lápide, a recordação, o sentimento... E, também aqui, abundam entre nós os maus exemplos ou as flagrantes omissões.
Um dos mais recentes é a demolição “oficial” do Memorial José Duro, pelo que significou de ostensivo desprezo pela memória desta terra. Ou, pelo menos, de crassa e indesculpável ignorância dos nossos valores locais. Mas, mantendo-nos no mesmo campo, que tem sido feito pelo culto da figura e da obra de Cristóvão Falcão? Não somos muito dotados em património literário, pelo que a excepção representada pela actual série de eventos evocativos de José Régio significa isso mesmo: a excepcionalidade. E com uma assinatura precisa e exclusiva, a de António Ventura.
No plano pictórico, alguém por aqui se preocupa com a memória e a obra de Benvindo Ceia, o nosso mais representativo pintor, ou com as de Manuel d’Assumpção, de perto ligado a Portalegre, ou mesmo com as de João Tavares, de Arsénio da Ressurreição, de Abel Santos, e de alguns outros?
Alguém sabe -para além de uns quantos e só de vez em quando- que um dos mais conceituados arquitectos nacionais do nosso tempo é portalegrense? E, no entanto, Carrilho da Graça até tem aqui obra construída... Quem a conhece, por dentro?
E na música, nos engenhos da arte militar, na indústria e no mundo empresarial, até na medicina, mesmo nas matemáticas aplicadas, na escrita e no jornalismo, como no desporto ou ensinando nas Universidades, não há uns quantos cidadãos lagóias com destaque seguro no País e no Mundo? Quem são?
Em termos da preservação da memória colectiva, também nada -ou quase nada- por aqui se faz. Atente-se nos registos toponímicos, nas carências de informação como nas falhas de critério, no estado calamitoso e na ilegibilidade de muitas placas indicativas. Registe-se o deplorável estado de alguns painéis de azulejos e as ausências que por aí se verificam (o da Rua de Elvas!), ou o maltratado aspecto de alguns locais de referência, como, a simples título de exemplo, a antiga Porta do Postigo...
Hoje, qualquer comunidade preocupada com o seu passado promove a perenidade de todos os registos possíveis dos seus tempos idos. Um dos principais instrumentos modernos consiste na digitalização dos seus documentos públicos, proporcionando e universalizando mais fáceis consultas e estudos. Os jornais locais devem ser prioritariamente sujeitos a este processo simples, prático e acessível, como vem acontecendo um pouco por toda a parte, menos em Portalegre. A Biblioteca Municipal José Régio, de Vila do Conde (para citar apenas um caso e bem a propósito), disponibiliza na Internet a totalidade dos seus antigos jornais, onde podemos facilmente apreciar, ou recolher, os mais precoces versos do Poeta da Toada...
Para além das óbvias obrigações culturais da autarquia, até aqui existe uma Fundação que se diz preocupada com estas temáticas. Por onde andam ambas e o que fazem neste campo? Quais são os seus projectos específicos, se por mero acaso deles dispõem?
Portalegre, de facto, merecia melhor, muito melhor...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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