\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Pargana

quarta-feira, março 17, 2010

Luís Pargana

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DESABAFOS - VIII
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Reflexões
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O país está ainda chocado com a morte do Leandro e com as circunstâncias que levaram ao acto extremo com que interrompeu uma vida que ainda apenas iniciara.
As análises e opiniões sobre o assunto não tardaram, centradas sobretudo numa tentativa de encontrar culpados para um acto que ainda ninguém consegue explicar: desde as culpas institucionais atribuídas à escola ou à família, até às mais individualizadas apontadas aos colegas, jovens que como o Leandro estão em processo de crescimento e de socialização.
A morte do Leandro, estúpida e inútil, chamou a atenção para um problema generalizado e latente nas escolas portuguesas. Infelizmente, sabemos que este não é um fenómeno isolado, mas sim um problema que merece a atenção e a vigilância de todos quantos são responsáveis pelo crescimento e pela educação das crianças.
Todos sabemos a crise de valores que a nossa sociedade atravessa. A falta de tempo que os pais têm para dedicar aos seus filhos e a tentação em ceder a todos os caprichos e desculpar todas as atitudes, procurando compensar, assim, a falta de tempo para o convívio familiar.
Também conhecemos a crise da escola actual, com professores desmotivados, transformados em burocratas, ocupados com relatórios e com reuniões infindáveis e cada vez com menos tempo para os seus alunos, para os actos pedagógicos e para a educação cívica.
A chamada “escola a tempo inteiro”, chavão da actual política educativa tem o efeito perverso de transformar as escolas em depósitos de crianças, com mais escola em cima da escola e retirando tempos de convívio às famílias, de consolidação de valores e de afectos que são tão importantes à formação da pessoa humana como o saber ler, escrever e contar.
Reflectir sobre isto e, acima de tudo, agir, é um dever de cidadania de todos nós. O exemplo do Leandro faz-nos perceber que não podemos perder tempo. Para ele já não há tempo!
Falei de escolas e de jovens. Mas não posso deixar de falar também na terceira idade: os nossos idosos, pais e avós, que fizeram o melhor que souberam por nós e pela nossa sociedade. Que trabalharam uma vida, contribuíram para o desenvolvimento do País, criaram riqueza com o seu trabalho.
Por isso o País tem uma dívida para com eles e essa dívida cumpre-se com as políticas sociais para a terceira idade, que lhe garanta qualidade de vida.
Esta questão é tanto mais sentida num distrito como o de Portalegre, onde o envelhecimento da população é acentuado pelo despovoamento que o caracteriza.
Vem esta reflexão a propósito de uma situação que é exemplo da insensibilidade do Estado para as questões sociais e da má gestão que o Governo faz em relação aos investimentos públicos e à urgência das medidas que é necessário implementar.
Refiro-me a um Lar de Idosos construído recentemente no distrito de Portalegre, concretamente na freguesia de Gáfete, e cuja obra representou um investimento público superior a um milhão de euros, com dinheiros do Estado e do Município, e que agora não pode funcionar porque aguarda que o Governo celebre os necessários acordos que permitam aos idosos da Freguesia, principalmente os mais necessitados, usufruir deste recurso.
E tudo isto se passa num concelho, o concelho do Crato, que nos últimos 50 anos perdeu mais de 60% da sua população.
Assim vai andando o País, com um Governo demasiado concentrado na gestão da sua imagem e sem rumo nas políticas sociais, nem capacidade para garantir a responsabilidade social do Estado nas questões da Educação e da Terceira Idade.
16 de Março de 2010
Luís Pargana

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