\ A VOZ PORTALEGRENSE: Dr. António Luís Marcão

sábado, fevereiro 20, 2010

Dr. António Luís Marcão

Corpo redactorial do jornal Capas Negras
(15-11-1967 a 4-6-1968)
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Em 11 de Junho de 1999

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O Último Príncipe
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Era uma ‘notícia anunciada’ o falecimento do Dr. António Luís Botelho Chichorro Marcão, ocorrido na passada segunda-feira dia 15 de Fevereiro. Sabíamos que estava gravemente doente, e desde o primeiro momento em que o soubemos que uma tristeza de nós se apoderou. Sem que em tempo algum tivéssemos pertencido ao seu inner circle, o facto é que conhecíamos desde a nossa tenra adolescência o Dr. António Luís Marcão. E ao longo do tempo foi por nós compreendida e admirada a sua personalidade impar.
É mais vendo o filme de Luchino Visconti do que lendo a obra de Tomasi di Lampedusa, Il gattopardo, que a imagem do Dr. António Luís Marcão nos aparece mais ‘nítida’. A personagem de D. Fabrício, Príncipe de Salina, ‘confunde-se’ com a figura deste último Príncipe. O seu porte, a sua cultura, a sua percepção da importância quer social, quer política e acima de tudo profissional do saber estar na sociedade do seu tempo, ‘aproxima-os’, ‘confunde-os’.
Não é fácil viver uma Vida, e saber vivê-la. E menos vivê-la com responsabilidade, com coerência e sempre com princípios. A verticalidade do carácter, o saber ouvir, o aconselhar, conseguir ver ‘mais além’ prevendo o Futuro, só é apanágio de uma minoria, de uma elite. E as elites de Portalegre nunca primaram por estes atributos, salvo a excepção que confirma a regra. Pois, o Dr. António Luís Marcão foi ao longo da sua Vida a excepção.
Há três momentos distintos em que tivemos o privilégio de nos aproximar do Dr. António Luís Marcão. Em muitos dias de férias brincámos em sua Casa, e quando o víamos sempre para nós tinha uma palavra gentil. Depois foi o nosso Reitor no Liceu Nacional de Portalegre. E nesta qualidade tivemos por várias vezes que o visitar, e sempre nos desculpou, contudo, sem que não deixasse de nos fazer pensar e responsabilizar pelos actos que cometêramos. Já no nosso final do percurso liceal a seu lado estivemos, sempre certos de que a razão que nos assistia era a certa, e a lealdade que sempre demonstrámos honra-nos hoje e sempre.
Quando regressámos a Portalegre tivemos duas experiências na área da política, a primeira na Real Associação de Portalegre e a segunda no Partido do Centro Democrático e Social. Encontrámos o Dr. António Luís Marcão na RAP e no CDS, e aqui sempre connosco esteve. Nestes dois episódios foi possível um diálogo já ‘adulto’, e então conhecemos mais uma faceta, a de um Homem íntegro, de forte sentido Humanista e Personalista, em que a Tradição era uma trave-mestra da sua formação Cívica. A partir de então, para nós o Dr. António Luís Marcão passou a ser um Homem Completo na filosófica acepção de Henri Bergson.
Não queremos deixar de lembrar um outro momento, que foi o da passagem dos vinte e cinco anos em que terminámos o Liceu. Uma Comissão, da qual fizemos parte, criou as condições para que a efeméride fosse celebrada. E desde a primeira hora que, juntamente com outros nossos Professores, o nosso Reitor a ela se associou.
Com o tempo foi diminuindo o contacto com o Dr. António Luís Marcão. As nossas posteriores conversas aconteceram principalmente no Café Alentejano, e de entre elas não esqueceremos o apoio que nos deu quando da nossa passagem num cargo directivo em O Distrito de Portalegre, as palavras simpáticas como se referia à revista Plátano. Também se associou à Homenagem ao Padre José Dias Heitor Patrão em Maio de 2009, mas já problemas de saúde o impediram de estar presente.
Hoje não é só a Cidade de Portalegre que está mais pobre com o desaparecimento do Dr. António Luís Marcão. Também uma certa concepção de Vida está mais frágil, porque um Elo da sua constituição nos deixou. É verdade que o que o Dr. António Luís Marcão representa para as Gerações que com ele de alguma maneira privaram, pertence a ‘um Mundo de Ontem’, como o que vivera Stefan Zweig na sua Áustria, feito de Certezas e de Princípios que a sociedade relativista, hedonista, de hoje, como que condena. A moral, a ética e a estética, do Tempo em que o Dr. António Luís Marcão foi Gente d’Algo, hoje não é a dominante, mas tal foi por Ele pré-monitoriamente sentida.
Por tudo, se compreende que o Dr. António Luís Marcão é O Último Príncipe.

Esta é a Homenagem que o Respeito pela Memória do Dr. António Luís Marcão nos permite. Pouca coisa será, mas é feita com a consciência livre de quem a sente como um Dever cumprido.
Que a Sua Alma descanse em Paz.
Mário Casa Nova Martins
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in, Alto Alentejo, 17 de Fevereiro 2010, p.6
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