\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

DESISTIR... OU RESISTIR ?
(notas a propósito de um artigo do DN)

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A “ameaça” vem estampada nas páginas centrais no Diário de Notícias de 18 de Fevereiro como uma espécie de notícia quase necrológica, na secção Especial - Centralização, sob o funesto título: Beja, Bragança e Portalegre correm risco de desaparecer. O sublinhado é o único pormenor da minha inteira responsabilidade...
Quem, generosamente, tenha acompanhado o que venho escrevendo neste Blog poderia ser tentado a pensar que me congratulo com esta peça jornalística. Nada seria mais errado! É que uma coisa é a expressão do crescente desespero individual, manifestação -talvez!- de um patético apelo pessoal à inversão das “políticas” de desenvolvimento e progresso locais em curso; outra coisa, bem diversa, é a confirmação “científica” da validade destes testemunhos, colectiva e devidamente autorizada ou subscrita por entidades credíveis e isentas de bairrismos e outros “obsoletos” sentimentos mais ou menos rurais.
Quando, há escassos meses, comparava “por alto” Elvas e Portalegre, perguntava-me e perguntava qual é -aqui e agora- a validade da expressão capital de distrito...
No breve estudo agora disponível no DN, as três capitais de distrito abrangidas estão perto de situações perigosas (sic), sobretudo em função das erradas políticas centrais de... descentralização. O recentíssimo episódio das verbas do PIDDAC 2010 é apenas um pormenor.

Portalegre tem vindo a coleccionar, desde há décadas, autarcas e políticos de média ou pequena dimensão. As excepções a esta regra geral da nossa mediocridade são tão reduzidas que nem sequer contam para suavemente colorir tão cinzento panorama. Acresce a correspondência governamental, directamente proporcional ao que “merecemos” ou “justificamos”. E, no entanto, seria desejável que acontecesse exactamente o contrário, a fim de que houvesse uma compensação ou correcção que não nos penalizasse duplamente. Mas nas coisas da política não há caridades anónimas nem vitórias morais.
Neste campeonato das cidades onde também se verificam “fratricidas” lutas corpo-a-corpo -litoral contra interior, norte contra sul, etc.- o resultado está à vista, na promoção de umas poucas, na despromoção de muitas outras... A nós, como sempre, calha-nos o campeonato das últimas.
O nosso retrato, puro e duro, tem vindo a ser retocado com cores e linhas cada vez mais dramáticas: acentua-se a nossa “magreza” já quase esquelética, no esvaziamento e envelhecimento demográfico, na crise económica com o progressivo desaparecimento do nossa estrutura industrial, no défice empresarial do tecido comercial, na desagregação social agravada pelo desemprego, no abandono dos campos, no desprezo pelas tradições e pela cultura local, na carência de afirmação plena dos nossos sectores escolares, na progressiva descaracterização ambiental (que é feito do nosso antigo e promissor Parque Natural?), na crescente queda na pobreza e/ou na solidão de muitos cidadãos portalegrenses, na falta de projectos catalizadores do investimento, até na aflitiva ausência daqueles sonhos que mobilizam as vontades e as energias adormecidas...
Os implacáveis depoimentos e os sérios avisos contidos no artigo remetem, salvaguardadas algumas “ligeiras” diferenças, para a magna questão ambiental: ou invertemos o rumo dos nossos comportamentos ecológicos ou, a prazo (mais ou menos longo?), desapareceremos da face da Terra. Nós, portalegrenses, ou alteramos o rumo das nossas políticas locais e regionais ou, a prazo (mais curto!), desapareceremos do registo das cidades ou, talvez mesmo, do mapa nacional.
Provavelmente, na ausência de um improvável “milagre” que inverta os critérios governamentais, continuaremos limitados às nossas próprias potencialidades.
Vamos assobiar distraidamente para o lado, murmurar em surdina que quem vier atrás que feche a porta e encolher os ombros perante o inevitável destino, como costuma acontecer e como parece quase lógico?
Não! Em vez da desistência, impõe-se a resistência.
O artigo, apesar do seu estilo mais ou menos apocalíptico, contém pelo menos uma mensagem de esperança.
O mapa infográfico e a relação dos esquemas da centralização deixam-nos muito mal colocados em quase todos os confrontos: não dispomos de nenhuma estrutura significativa na área desportiva; não somos sede de nada de importante em termos políticos, militares ou jurídicos; também não temos nenhum aeroporto, sede de empresa ou instituição bancária, hospitalar ou universitária de relevo. O nosso CAEP nem sequer é citado numa relação de quase meia centena de casas de teatro nacionais... Segundo a relação em causa não dispomos (no distrito inteiro) de uma só Loja do Cidadão, enquanto até Beja e Bragança contam com uma...
Onde reside, então, a nossa reserva de esperança? Precisamente na localmente tão desprezada área cultural, no capítulo dedicado aos museus, onde é arrolado um total de 26. Sendo seguro que é significativo o contributo de Elvas para esta contabilidade, a consoladora constatação global coloca-nos em 11.ª lugar na lista dos 18 distritos continentais, à frente de Beja (24), Bragança (9), Castelo Branco (13), Guarda (14), Viana do Castelo (13), Vila Real (11) e Viseu (18)...
Como é óbvio, esta realidade não resolve os nossos potenciais problemas nem constitui solução para as nossas carências. Mas pode e deve ser encarada como um catalizador dos tais sonhos aptos a mobilizar as nossas vontades e as nossas energias.
Sempre acreditei -e continuo a acreditar- na Cultura como um factor decisivo de progresso e desenvolvimento, espiritual e material, limitando-me a integrar uma parcela da comunidade portalegrense que ainda se norteia por idênticos ideais.
E acredito cada vez mais -como aprendi com o sábio mestre e meu amigo Hélder Pacheco- que ser culto é ser do sítio.
Por isso me preocupo com bancos que são monumentos e com azulejos que são memória, com bibliotecas que são fontes e com museus que são história, com pessoas mortas que são património e, enfim, com pessoas vivas que são gente.
Por tudo isto e porque às vezes nem sequer é preciso inventar, quando saber bem copiar já basta, lembro-me de John Kennedy que, no discurso da sua posse, no distante dia 20 de Janeiro de 1961, afirmou:
- Não perguntes o que a tua terra pode fazer por ti - pergunta o que podes fazer pela tua terra.
Finalmente, recordo José Régio e João Tavares, portalegrenses de estimação, que em boa e premonitória hora criaram para nós -hoje- a legenda e a imagem mobilizadoras:
- A Alma do Homem é que dá Corpo à Cidade.

Do necessário e urgente projecto cultural mobilizador de Portalegre e dos portalegrenses terão de ser radicalmente afastados todos os mercenarismos e todas as partidarites que, em passados próximos ou remotos, nos têm condenado à vulgaridade e ao retrocesso.
Para tal luta e nestas condições estarei, mais do que disponível, firmemente disposto.
Portalegre, Fevereiro de 2010
António Martinó de Azevedo Coutinho

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