\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

DOIS POETAS DE NOME JOSÉ:
DURO E RÉGIO (I)

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Pouco mais de um ano após a sua chegada, aconteceu a “estreia” pública de José Régio na imprensa portalegrense. Trata-se de um episódio relativamente desconhecido da vida do literato entre nós, pois é hábito associar-se a colaboração jornalística local de Régio apenas ao saudoso semanário A Rabeca.
Na verdade, foi num efémero quinzenário “republicano regionalista” de Portalegre intitulado Alto Alentejo (apenas 13 edições entre Novembro de 1930 e Junho de 1931), que José Régio publicou 4 artigos assinados por J.R. e, quase seguramente, um outro (o primeiro) subscrito por R.P., cerca de uma década antes dos primeiros textos divulgados n’A Rabeca.
A garantia quanto aos citados quatro é-nos conferida pela local constante do número 8 do jornal (15 de Fevereiro de 1931), no seguinte teor:
Dr. Reis Pereira
Sob o pseudonimo de J. R. tem colaborado no “Alto Alentejo”. Muito dado aos estudos literarios, colaborador e mentor de varias revistas de Coimbra, as suas cronicas representam sempre ideias e concepções de arte dignas de atenção. Não se arrependa de nos ajudar contribuindo com o seu auxilio para a vida deste humilde jornaleco.

Curiosamente, José Régio ter-se-á “arrependido” nesse momento, pois não mais escreveria no jornal... Coincidências!?
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Primeira página do jornal Alto Alentejo, subintitulado
Quinzenário republicano regionalista do Distrito de Portalegre
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A escassa dúvida quanto ao restante artigo, subscrito por R.P., consiste precisamente na escolha de um diferente pseudónimo. Porém, se atentarmos na sua temática -uma Crónica Cinematográfica-, e se verificarmos que dois outros artigos dispõem do mesmo preciso título, será legítimo admitir também o Dr. Reis Pereira como o seu autor.
O Alto Alentejo era co-dirigido pelo Dr. Manuel Fernandes de Carvalho, professor do Liceu Mousinho da Silveira, portanto colega do Dr. José Maria dos Reis Pereira, ainda que na área das Ciências Físico-Químicas. Isso explicará o facto de outros docentes desse Liceu terem sido igualmente colaboradores do jornal, como é o caso de Estêvão Pinto ou de Galiano Tavares.
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O Distrito de Portalegre e A Rabeca, os dois mais significativos
jornais da cidade e da região, saudaram a aparição do novo colega
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Onde pode surgir alguma perplexidade na análise dessa participação jornalística de José Régio é na distinta postura cívica (ou política) que claramente o separa de Manuel Fernandes de Carvalho. Enquanto este é inequivocamente conotado com o Estado Novo, o literato situar-se-á sempre no campo contrário, o da oposição democrática.
O Dr. Fernandes de Carvalho, que fora colocado no Liceu de Portalegre no mesmo preciso ano de Régio (1929), desempenhou entre nós alguns cargos de relevo, como o de presidente da Junta Geral do Distrito (depois Junta Distrital) e, sobretudo, o de presidente da nossa Câmara Municipal, entre os finais de 1950 e meados de Maio de 1957, quando aqui morreu de forma inesperada. Deve acrescentar-se que, tanto numa como noutra destas actuações públicas, se revelou activo e competente, devendo-se-lhe, por exemplo, a iniciativa de uma notável e pioneira mostra das nossas potencialidades económicas e culturais, assim como a criação do Arquivo Distrital e do Asilo-Escola de Santo António. Como autarca, foi durante o seu mandato que se inauguraram em Portalegre alguns dos nossos mais representativos edifícios modernos, tanto oficiais como privados, como o Mercado Municipal (1952), o Palácio da Justiça (1955), o Seminário Maior e o Cine-Teatro Crisfal (1957). Em 1955 foi erigido o Monumento aos Bombeiros, iniciaram-se as obras da futura Escola Secundária de S. Lourenço e, também por esta época, seria construído o Colégio de Santo António. Portanto, um apreciável surto local de modernidade e de progresso urbanístico foi vivido em Portalegre nestes tempos.
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O Distrito de Portalegre de 6 de Outubro de 1929 assinala a chegada dos professores agregados José Maria Pereira (2.º grupo) e Manuel Carvalho (7.º grupo) ao Liceu de Mousinho da Silveira
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Como poderá perceber-se que Régio tenha colaborado num jornal com cujos objectivos e ideologia nunca poderia identificar-se?
Certamente por razões pessoais e subjectivas de que, aliás, dará um indirecto testemunho nos seus escritos, sobretudo os revelados nas Páginas do Diário Íntimo.
Manuel Fernandes de Carvalho tornara-se genro de D. Rosalina Vinte e Um, a hospedeira de Régio com quem este criara e desenvolvera uma forte relação de recíproca admiração e amizade. Na Pensão da Rua dos Canastreiros, eram todos -D. Rosalina, a filha Rosa, o genro Manuel e o hóspede José Maria dos Reis Pereira- comensais à mesma mesa. Ali se fora estabelecendo, ao longo de repetidos e agradáveis convívios quotidianos, uma relação humana onde necessariamente se diluiam quase todas as diferenças, até mesmo as ideológicas. Até certo ponto...
É que, em 1936, poucos anos após o “encontro” no Alto Alentejo, Régio refere uma relação pontual de conflito com o seu colega Fernandes de Carvalho, numa carta a Adolfo Casais Monteiro (revelada por José Alberto dos Reis Pereira em A Cidade - Revista Cultural de Portalegre, número especial de Outubro de 1984). Aí, Régio relata brevemente o caso do Dr. Alberto Miranda, também professor no Liceu Mousinho da Silveira, alvo de processo disciplinar e inerente castigo, por ter expulsado da aula um aluno fardado da Mocidade Portuguesa. E escreveu então:
Boavista Portalegre, 26 de Junho de 1936
Meu querido Adolfo
(...) Foi isto devido a denúncia e maquinações dum colega nosso, António Galiano Tavares, o qual procedeu com a cumplicidade tácita de outro colega, Fernandes de Carvalho, e se escondeu por trás de um poderoso amigo dos dois, o comandante da polícia Carpinteiro (...).

Apesar deste episódio, a prova de que a lógica dedução atrás apresentada não é meramente teórica é-nos fornecida também pelo próprio Régio. Consultemos, em três momentos distintos e posteriores, o seu Diário:
Portalegre, 16 de Julho de 1953
A minha velha amigo D. Rosalina Vinte e Um, que tanto tempo dirigiu o Hotel Vinte e Um, cá está à espera da morte. Acompanhei-a do Hotel para uma casa em frente, onde agora se extingue de dia para dia. (...) As refeições são agora tristes, quase sufocantes, na sua casa. (...) A filha e o genro estão quase sempre no seu quarto e comem a horas diferentes das minhas. Como, pois, muitas vezes sozinho, na pequena casa de jantar que nunca me agradou, em frente duma janela que dá para a miserável Rua dos Potes. (...) Que saudades da bela varanda, ou estreito e longo terraço, do Hotel Vinte e Um, - onde comíamos nesta época de exames! (Ainda no ano passado foi assim.).
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D. Rosalina Vinte e Um, na bela varanda do seu Hotel,
assinalada a vermelho na foto do actual
Centro de Emprego e Formação Profissional
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Portalegre, 13 de Janeiro de 1954
Não cheguei a referir-me aos dois acontecimentos (para mim capitais) das férias grandes: A morte da D. Rosalina, e a descoberta da minha úlcera gástrica. (...) Ainda a não fui visitar ao cemitério, aqui defronte da minha casa. Mas fui, ontem, ouvir uma missa que rezavam por sua alma. (Em que medida me decidiu a isso o querer ser agradável à filha e ao genro? ou o querer manifestar os meus sentimentos aos seus olhos? Do filho, só me lembrei quando o vi na missa.). (...) Continuo a comer em casa do Dr. Fernandes de Carvalho, genro da minha boa amiga desaparecida.
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A casa em frente do Hotel, onde residiam a filha e o genro
de D. Rosalina, na actualidade; a fachada situa-se na
Rua dos Canastreiros (ou 31 de Janeiro)
e as janelas das traseiras dão para a Rua dos Potes
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Portalegre, 29 de Maio de 1957
(...) E a proposta (é) de tentar, - dado que continuo pensando em me reformar e ir acabar os meus dias na minha terra. (Com a morte de meu pai, com a morte do Dr. Fernandes de Carvalho no mesmo dia em que me trouxera do Café no seu carro, às vezes me parece estar eu próprio já muito perto da morte).

Neste último testemunho, particulamente interessante, Régio refere os contactos já em curso da Câmara Municipal de Vila do Conde quanto à concretização da Casa Museu. E, também, as intenções de amigos portalegrenses, já intervindo junto da Câmara local quanto a idêntico objectivo...
Muitos anos depois dos escritos no Alto Alentejo, e não esquecendo o “episódio” Alberto Miranda, Régio revela assim os contornos possíveis da sua durável relação (talvez de amor-ódio!?) com o colega Fernandes de Carvalho.
Voltemos agora aos cinco artigos, três intitulados Crónica Cinematográfica (n.º 3, 20/11/1930; n.º 5, 1/1/1931; n.º 6, 15/1/1931), um denominado Crónica Teatral (n.º 4, 15/12/1930) e o restante, precisamente o último, a que José Régio concedeu o título No Aniversário da Morte de um Poeta - José Duro, publicado no n.º 8, em 15 de Fevereiro de 1931.
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Os artigos de Régio em Alto Alentejo dedicados a três
Crónicas Cinematográficas e a uma Crónica Teatral
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José Régio reflectindo e escrevendo sobre o seu malogrado “antecessor” e “camarada de letras” José Duro, a pretexto do 32.º aniversário da morte deste - eis o tema que a seguir aqui será tratado.

Portalegre, Fevereiro de 2010
António Martinó de Azevedo Coutinho

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