\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

domingo, dezembro 27, 2009

Luís Filipe Meira

O histórico Hot Clube de Portugal foi palco de um incêndio com graves consequências, e que poderá ter posto em risco a manutenção daquele espaço (santuário) para os apreciadores em Portugal da Grande Música Negra. Através do músico portalegrense António Eustáquio, que chegou a actuar no Hot Clube e a participar em diversas Workshops, recebi este sentido testemunho de Luís Hilário, que desde 1985 desempenhava as funções de responsável pela programação da simpática sala da Praça da Alegria, em Lisboa.
Luís Filipe Meira
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Caros Amigos,

Como a maioria de vós deve calcular é com muita tristeza que curiosamente na véspera de Natal, vos envio este e-mail.
Não há muito que se possa dizer. O edifício onde a pequena sala de concertos do Hot Clube de Portugal está instalada há cerca de 60 anos, ardeu! O incêndio começou, tudo leva a crer, no último piso do prédio, zona devoluta, abandonada à sua sorte e sujeita a infiltrações de chuva ou de pessoas sem tecto para dormir. Apenas nós e o proprietário do restaurante que existia no piso térreo, fazíamos visitas periódicas a esses pisos para tentar na medida do possível, controlar a degradação.
Lamentavelmente, esta situação quase que era esperada. Os diferentes responsáveis da Câmara Municipal Lisboa, proprietários a quem o Hot Clube paga renda, têm vindo a ser avisados desde há muitos anos para o estado lastimável em que se encontravam os pisos superiores do edifício. A burocracia, a falta de interesse, de dinheiro, ou simplesmente a inoperância dos serviços, levaram a este triste desfecho.
A solução para o prédio e consequentemente para o Clube não está para breve.
O Hot Clube não ardeu, teve prejuízos elevados causados pela grande quantidade de água utilizada pelos bombeiros, mas o resto do edifício ficou num estado lastimável; os pavimentos dos pisos superiores caíram e só uma reconstrução total tornará o local de novo acessível. Levará anos até tudo estar pronto!
O Hot Clube não mais será o mesmo, terminou uma época e morreu um espaço emblemático que sem subsídios estatais e dificuldades sempre superadas pela “carolice”, contribuiu durante 60 anos para que o País e em particular a cidade de Lisboa, tivessem uma programação de música jazz. Fizemos algo de que gostávamos e contribuímos de uma forma desinteressada para o reconhecimento desta cidade no meio jazzístico mundial.
Não somos só nós, os que ali passaram muitas horas da sua vida, que ali criámos amizades e vivemos momentos que não esqueceremos, que nos sentimos como que órfãos e perdidos nesta cidade de escassos interesses culturais.
Também os músicos nacionais e muitos dos que nos visitam perderam um dos poucos locais onde podiam experimentar e apresentar a sua música.
Apesar de muitos não se aperceberem, somos também muitos os que ficámos a perder! E a cidade de Lisboa também!
Bom Natal para todos vós!
Abraço,
Luís Hilário
(responsável pela programação desde 1985)
Nota: Este e-mail representa um sentimento pessoal. Não é um comunicado da Direcção do Hot Clube de Portugal.

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