\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

domingo, agosto 16, 2009

Luís Filipe Meira

NISARTES / 09
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Velocidade de Cruzeiro
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Cumpriu-se mais uma edição da NISARTES - Feira Internacional de Artes Tradicionais de Nisa.
Não quero, até porque não é esse o meu papel, debruçar-me sobre os méritos ou deméritos do evento. Ainda assim, pareceu-me que existe da parte da organização a vontade de apresentar uma feira que vá mais além que a mera feira de artesanato e gastronomia - moda que vai crescendo sem critério por tudo quanto é sítio - e isso já é de louvar. Naturalmente que há situações a melhorar, apostas a fazer, coisas a rever e alguns riscos a correr. No entanto é uma feira de base sólida e com dignidade própria, por isso, na minha perspectiva, só pode e deve crescer.
Dignas, mas com pouco risco, foram as propostas musicais para este ano. Cartaz equilibrado, abrangente, logo consensual, a que faltou na minha opinião o tal risco, o tal golpe de asa que ficaria sempre bem numa feira de artes, tradicionais ou não. O ano passado os Buraka, e os Blasted Mechanism há dois anos, deram aquele toque de diferença que, repito, deve existir numa feira de artes.
Mas vamos por partes. Ressalvo que não me é possível comentar as actuações de José Cid e de Patrice. De qualquer forma, e sem acidentes de percurso, qualquer destes nomes têm o necessário e o suficiente para alcançarem enorme sucesso, e são, como atrás referi, apostas sem risco e ganhas à partida.
José Cid é o decano da música portuguesa, movimenta-se como poucos em cima do palco, e mesmo os que não gostam da sua música sempre batem o pé e são capazes de entoar e aplaudir uma ou outra canção.
Patrice é um jovem de origem alemã cujo primeiro álbum já data de 1999 e que faz um reggae mais ou menos light, com matriz jamaicana mas suavizado. Patrice está mais perto de Jack Johnson do que de Bob Marley ou de Peter Tosh. Cheia de preocupações sociais, a musica de Patrice é um sucesso retumbante por essa Europa fora, cujo corolário foi o convite para cantar Dove of Peace para o presidente Barak Obama.
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João Pedro Pais
*** / **

Longe vão os tempos em que este antigo campeão de luta greco-romana debutou no programa Chuva de Estrelas, cantando e manifestando a sua admiração por Miguel Ângelo dos Delfins. Hoje vale bem mais que o seu ídolo de outrora. JPP é um cantor adulto, profissional e com seis discos de grande sucesso no mercado. O concerto de Nisa, em registo rock FM, assentou no último, A Palma e a Mão, que foi produzido de forma irrepreensível por Mário Barreiros. Naturalmente que JPP repôs algumas canções mais antigas, que fizeram as delicias do público. Concerto profissional e agradável quanto baste.
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Ana Moura
**** / *

Confesso que este era o concerto em que assentavam as minhas maiores expectativas por um lado, e que me dava mais garantias por outro. Ana Moura é brilhante, nasceu para cantar e isso leva-a aos quatro cantos do mundo, e o seu trabalho é reconhecido globalmente. Ainda o ano passado cantou em dueto com Mick Jagger no concerto dos Rolling Stones no Alvalade XXI, e Prince, depois de assistir a um espectáculo seu em Paris, manifestou a sua admiração pela forma como a artista cativa as plateias, vindo mesmo visitá-la a Lisboa para equacionar colaborações futuras. Em Nisa, o concerto foi altamente prejudicado pelo frio, mas mesmo assim a fadista conseguiu animar e cativar o público, actuando de uma forma empenhada e altamente profissional.
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Rita Redshoes
** / ***

Talento inegável com reconhecimento público, pois o primeiro álbum, Golden Era, entrou para o Top de vendas logo na primeira semana em que foi editado. O álbum vem cheio de boas canções, algumas orelhudas mas sem caírem em facilitismos. No entanto, e numa opinião muito pessoal, Rita, que toca teclas na banda de David Fonseca, apresenta demasiadas semelhanças com o cantor de Leiria. O concerto de Nisa, que esteve dentro do esperado e foi inegavelmente interessante, não me apagou essa convicção. Começou quase uma hora depois do agendado, e fica-se por saber se com ou sem culpa da protagonista.
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Orishas
**** / *

Nome grande e de sucesso da musica global, originários de Havana, praticam um híbrido de fusão que mistura música cubana e hip hop. Não estão na minha lista de preferências e ainda não foi desta que me convenceram, apesar da intensidade e rotação assinaláveis que estes sul-americanos imprimiram à sua performance. Se não mereceram o meu aplauso incondicional pela inspiração, que não me pareceu famosa, mereceram pelo menos o meu respeito pela entrega e pelo excelente MC que apresentaram.

Dignidade, profissionalismo, empenhamento e boa vontade, foram palavra que utilizei frequentemente ao longo do texto, palavras que se aplicam na perfeição à Nisartes 2009. Pede-se para o futuro uma boa dose de irreverência, que na medida certa funciona numa feira de artes um pouco como o sal na comida. Aprimora o paladar!
Luís Filipe Meira

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