\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

quarta-feira, julho 29, 2009

Luís Filipe Meira

O Admirável Mundo da Música
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Nos últimos três anos a esta parte, por estes dias já andava com alguma ansiedade a ultimar os preparativos para a expedição ao Festival de Paredes de Coura. Reconheço que na minha idade, uma tenda e um saco cama são manifestamente pouco para passar cinco noites numa zona onde a chuva aparece sempre sem ser convidada.
Talvez por isso, decidi terminar este ano a minha relação com Paredes de Coura, e partir para paragens mais amenas. A escolha recaiu no FMM SINES, que vai na 11ª edição e que ao longo de nove dias traz à costa alentejana o melhor que se vai fazendo na world music.
Foi uma incursão exploratória, mas perfeitamente elucidativa da grandeza deste acontecimento absolutamente extraordinário. Diria mesmo que o FMM SINES – e estou a pesar as palavras – é absolutamente obrigatório para quem tem na música uma paixão.
A riqueza de propostas, o cruzamento de géneros, o ambiente tão peculiar ou a heterogeneidade do público de idade e proveniências variadíssimas, são apenas algumas das razões que me levam a fazer afirmações tão definitivas.
No ano passado mais de 90.000 pessoas estiveram nos diversos espectáculos. Este ano o número, segundo as primeiras estimativas, terá sido ultrapassado, já que quase todos os concertos esgotaram.
O palco do FMM SINES é uma Torre de Babel musical, onde se cruzam músicos e sons de proveniências tão díspares como os congoleses Kasaï Allstars ou o indiano Bhattacharya, os americanos Chicha Libre ou a orquestra argentina de Férnandez Fierro, o som das estepes chinesas dos Hanggai com o jazz latino de Chucho Valdez, a tradição de Madagáscar dos Njava com o folclore polaco e ucraniano da Warsaw Village Band e dos Ucrainians.
E não é todos os dias que vemos uma israelita – o The Guardian considera Mor Karbasi uma das grandes jovens divas da cena musical global – oferecer-nos uma arrebatadora versão do clássico fado Rua do Capelão.
Os portugueses O’Questrada dividiram o palco com os italianos Circo Abusivo, e Victor Démé do Burkina Faso antecipou o afrobeat de Dele Sosomi, o velho nigeriano companheiro de Femi Kuti.
Como se tudo isto não bastasse, Sines fechou com o génio de um dos mais importantes produtores jamaicanos de sempre, o visionário Lee ´Scratch`Perry, e com os Speed Caravan, um dos grupos preferidos de Peter Gabriel.
Mas há outras iniciativas paralelas que enriquecem este festival; conversas com artistas, ateliers de instrumentos, sets de DJ´s, encontro com escritores – Mia Couto apresentou Barroco Tropical de José Eduardo Agualusa e Agualusa apresentou Jerusalém de Couto – além de animação espontânea de rua com música variada, cuspidores de fogo e outras artes circenses
Foram dias memoráveis os que eu e a minha mulher vivemos em Sines. E só choramos por não termos tido a possibilidade de ficar mais tempo, para podermos assistir a todos os concertos e respirarmos aquele ambiente até ao último suspiro!
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Enquanto escrevi este texto, fui ouvindo um disco que já procurava há algum tempo e que encontrei em Sines.
Chama-se Trés Trés Fort, e é um trabalho magnífico do Staff Benda Bilili, grupo de paraplégicos e meninos de rua que cantam as difíceis condições de vida nas ruas de Kinshasa.
Ainda assim, a alegria ingénua de quem sempre viveu na miséria passa por aqui e transforma este registo numa verdadeira festa dos pobres e excluídos.
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Luís Filipe Meira

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