\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

domingo, maio 31, 2009

Mário Silva Freire

Imagem do nascimento de estrelas a 12 bilhões de anos-luz da Terra
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Do saber à sabedoria
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David Sloan Wilson é um investigador em Biologia Evolutiva que na revista Visão de 21 de Maio passado deu uma entrevista em que fala do tema da sua especialidade mas tenta extrapolar os seus conhecimentos para outros domínios. Diz ele que o nível cultural é uma forma de evolução e que não existe nenhum assunto humano que não possa ser abordado com êxito a partir de uma perspectiva evolucionista. Diz ainda que “a evolução já fez isso para a Biologia e agora estamos a fazê-lo para tudo o resto. O que inclui a religião”.
Por outro lado, numa entrevista televisiva, há cerca de duas semanas, no programa “Câmara Clara” da RTP2, alguém afirmava que, para se chegar à sabedoria, tinham que ser percorridas algumas etapas. E, se a memória não me falha, enumerava as seguintes: dados – informação – saber – sabedoria.
Para se alcançar o saber, já há muito que a metodologia científica propõe que a recolha de dados, isto é, a selecção dos factos que sejam relevantes no estudo de um tema, constitua uma condição para existir informação. Mas esta não é condição suficiente para se afirmar que há já um saber.
Normalmente, no mundo em que vivemos, ficamo-nos por esta etapa: recepcionamos dados, nem sempre fiáveis, a partir de uma ou várias fontes e, depois, construímos os nossos conceitos. Ora, nem sempre estar-se informado sobre algo significa conhecer-se o que se deseja. Relatar um acontecimento é já ter atingido um certo patamar na informação. Mas ele só será verdadeiramente conhecido quando for possível realizar uma análise, decompondo-o nos seus elementos, confrontá-lo com outros, aparentemente semelhantes, estabelecer analogias e diferenças, inferir consequências.
Ora Sloan, como cientista, tenta formular hipóteses a partir dos dados que recolhe e, certamente, irá confrontá-los com essas mesmas hipóteses, tendo em vista uma sua compatibilização com os resultados que vai obtendo. Se esta se verificar, tentará, então, uma generalização das suas concepções. E, pelo que entendi na entrevista, ele, como darwinista, está a tentar essa generalização, incluindo a religião, como uma forma de expressão cultural. E tudo isto teria por base o acaso e a selecção natural.
A mesma orientação, mas com um fio condutor diferente, levou Teilhard de Chardin, no século passado, a fazer uma outra abordagem à evolução. Este, padre jesuíta e paleontólogo, estabeleceu que todo o Universo evoluiria, do caos primordial ao aparecimento da consciência humana. Esta, por sua vez, passaria a formas mais complexas, dando origem a uma super-humanidade. Produzir-se-ia, então, uma unidade biológica e crística, formada por pessoas movidas pelo altruísmo mais generoso e pela graça sobrenatural própria do cristianismo. Nesta abordagem, haveria uma força criadora que tudo regulava: Deus.
Ambos os autores, a partir dos dados que estudaram, construíram concepções diversas sobre o que gera e o que significa a evolução.
Diz-se no Livro da Sabedoria, versículo 8, que “se alguém deseja uma vasta ciência, ela (a sabedoria) é que sabe o passado e entrevê o futuro (…), conhece os sinais e os prodígios, e o que tem de acontecer no decurso das idades e dos tempos.”
Ora, cada um destes investigadores, a partir dos seus saberes, construiu uma visão do mundo e do homem muito diversa, tentando antever, a partir dos sinais e prodígios o que irá acontecer no decurso das idades e dos tempos. Sendo sábios, essa sabedoria traduziu-se, no que a esta matéria diz respeito, na defesa das suas convicções mais profundas, servindo-se da Ciência.
Cá por mim, a minha modesta sabedoria vai no sentido de reafirmar o que já disse neste blog: a ciência e a religião não jogam uma contra a outra; elas situam-se em planos diferentes. Isto não significa que, como crente, não deixe de admirar a vastidão, a complexidade e a harmonia existentes na Natureza e no Universo e entenda, por outro lado, que outros procurem ver na religião algo que, muito prosaicamente, possa ser explicado pelo darwinismo materialista.
Afinal, não é na diversidade da paisagem, seja ela de natureza ideológica ou biológica, que reside a riqueza? E a esta riqueza não existe crise que se lhe possa opor!
Mário Freire

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