\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

quinta-feira, janeiro 08, 2009

António Martinó de Azevedo Coutinho

In Memoriam
de
Professor Doutor Francisco Alberto Fortunato Queirós
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Num dia de festa (18/05/1993) em Lisboa, o do doutoramento de António Ventura, uma grata reunião de amigos: “Tito” Azeredo Santos, Xico Queirós (de cigarro em punho!), o doutorando, eu e o Padre José Heitor Patrão
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Ao XICO QUEIRÓS,
um Amigo de sempre, para sempre...
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Nessa altura do nosso campeonato da vida, os dois anos de avanço que o Xico me levava foram os bastantes para que ele tivesse sido meu chefe, mais propriamente meu Comandante de Castelo. Eram meados da década de 40 e militávamos então - como era obrigatório para a época - nessa “sinistra” organização denominada Mocidade Portuguesa. O velho e poeirento pátio do Liceu de Portalegre foi então testemunha de alguns seus “pedagógicos” pontapés no meu traseiro, que dessas coisas de ordem unida nem sequer na tropa eu aprendi com perfeição.
E aí, nessa cúmplice e intensa camaradagem, cimentámos uma amizade que os anos fortaleceram. O pai do Xico era, aliás, um dos nossos “heróis” locais. O espectáculo da partida das viaturas dos bombeiros, ali no Largo da Sé, com ele ao volante da mais veloz que disparava ao som arrepiante das sereias e dos sinos em frenética vibração, era, aos nossos olhos sedentos de emoções, a imagem suprema da valentia sem limites. O Xico era, portanto, o invejado filho dessa figura quase lendária...

Voltámos a encontrar-nos em Évora, na Escola que nos tornou professores. Ele, mais antigo tanto na idade como no curso, foi aí colega de amigos comuns, o José Malpique, o Dionísio Cebola, o Amadeu Leal, o Calado Mendes e o António Seara, para citar apenas os mais próximos na memória.
Enquanto eu por aqui permanecera, pensando ingenuamente que algo poderia fazer por estes desditosos sítios, avisado ele partiu para mais junto do litoral, por terras de Odemira e de Palmela. E de tal modo se destacou que, nos inícios dos anos 60, passaria pelos serviços centrais do Ministério da Educação.
Regressaria a Portalegre, onde leccionaria no Magistério e na Escola Industrial e Comercial. Iniciou então uma outra faceta da sua carreira, como autor de obras de cariz didáctico. Mas os responsáveis nacionais pela Educação não o deixariam cá por muito tempo, depressa o chamando para desempenhar o lugar de Director de Curso da Telescola. No Porto, onde se fixaria por largo tempo, licenciou-se em História pela Faculdade de Letras.

Devo ao Xico Queirós, por essa altura, sucessivas oportunidades em que sempre procurei corresponder ao elevado grau de amizade e confiança que ele em mim depositou. A seu empenhado convite elaborei largas dezenas de programas radiofónicos para a Telescola, de alguns dos quais ainda hoje guardo preciosas gravações sonoras. Temas como História, Língua Portuguesa, Desenho, Trabalhos Manuais e outros (até Histórias aos Quadradinhos, imagine-se!) fizeram parte do vasto elenco abordado ao longo de alguns anos de estreita colaboração.
Ele foi um pioneiro nacional no domínio dos audiovisuais. Em 1967, publicaria um trabalho sobre o tema, talvez uma das primeiras edições lusas nesse campo, integrada na Colecção Magistério Complementar, que se deveu à sua esclarecida iniciativa, em cooperação com a Atlântida Editora, de Coimbra. Incentivou-me então para participar nessa “aventura” e apadrinhou a minha iniciação como autor. As palavras amigas que me dedicou nos Prefácios das sucessivas edições (três em três sucessivos anos) do primeiro dos diversos trabalhos que elaborei constituíram poderoso estímulo que sempre depois me acompanhou.
Entretanto, constantemente me desafiava, oferecendo-me um lugar junto dele, convite que - talvez por timidez!? - rejeitei.

Data desses anos inesquecíveis o uso sistemático da designação que aqui renovo. Na minha frequentíssima correspondência postal (o email só seria “inventado” décadas depois!) Xico era tratamento tão incontornável que ele próprio me emendava quando, por distracção ou engano, eu escrevia Chico...
Continuava ele então a sua brilhante carreira académica, culminada em 1979 com o doutoramento e, depois, com a cátedra. A obra científica que ao longo dos anos divulgou é extensa e valiosa. Por esses tempos, eram muito frequentes as vindas do Xico até nós, de passagem para Vila Viçosa com o seu grande amigo Manuel Inácio Pestana, às voltas com a figura histórica que o fascinava e a quem dedicaria uma boa parte das suas investigações e da sua escrita publicada: o rei D. Pedro V.

A sua vida na década de 80 seria preenchida por alguns significativos cargos profissionais e políticos, como aquele que o “devolveria”, por algum tempo, à sua e nossa cidade natal. Com efeito, seria aqui Governador Civil entre 1980 e 1981.
Regressou ao Porto até que, a partir de 1993 e até 1999, voltou a Portalegre a fim de recuperar, como seu dedicado e competente Presidente, o nosso Instituto Politécnico, que a gestão anterior quase aniquilara.
A doença que acabaria por vitimá-lo começara entretanto a sua obra devastadora. Assim, ele intercalaria períodos de estadia cada vez mais raros entre nós, na sua casa da Queijeirinha, e no Porto, junto da família.

Há poucos meses, numa das suas últimas vindas a Portalegre, revivemos em conjunto algumas saudosas passagens comuns das nossas vidas. Até mesmo uma tremenda discussão que, em dia já distante, uma minha “pedagógica” crítica à sua exagerada prática de tabagismo provocara...
Um certo e legítimo orgulho de avô, que eu também sei entender, remetia-o então para A Espada de Jardax, a recente estreia literária da sua neta Joana...
Lembrei o amigo então ainda vivo - e registei no papel essa lembrança - numa recentíssima oportunidade plástica que Nuno Oliveira me concedeu, em Visões Artísticas do IPP.
Agora, no momento em que perco o convívio do Xico Queirós, folheio um testemunho imperecível da sua forte presença espiritual, o volume A Questão Ibérica, editado pelo Instituto Politécnico de Portalegre em Abril de 2003. E detenho-me na dedicatória manuscrita com letra já trémula, que diz tudo o que eu talvez não tenha sido capaz de aqui exprimir em plenitude:
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Para o Martinó, velho amigo, com um abraço de muita estima e admiração
XICO
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António Martinó de Azevedo Coutinho
in, Alto Alentejo, TER. 23 DEZ 2008, Nº 0109, pg. 06

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