\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

domingo, janeiro 04, 2009

António Martinó de Azevedo Coutinho

CROMOS DA BD - I
(1946/47)

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Deixemos por agora os cromos da bola e detenhamo-nos num outro tipo de colecção em tudo semelhante excepto na temática das pequenas estampas lambuzadas. Desta feita entraremos no mundo dos Quadradinhos, onde não há brindes nem cromos numerados com direito a uma bola a sério...
O pretexto é uma caderneta editada pelo já distante ano de 1946 ou talvez pelo seguinte. No seu pequeno formato (23 x 17,5cm) e nas suas vinte páginas, a caderneta assumiu um papel de álbum de BD, uma vez que o seu conteúdo foi uma aventura de índios e cowboys ou bons e maus, ao formal estilo da época.
Antes do mais, convirá dizer que esta edição não consta de nenhuma das listagens específicas disponíveis na Net. As únicas curtas referências a esta raridade podem e devem ser procuradas em estudos de especialistas da BD, e apenas encontrei três, no decurso de aturadas pesquisas que fiz a tal propósito.
Detenhamo-nos nas particularidades exteriores da caderneta, “Brinde de A Oriental”, uma fábrica de caramelos sedeada na Rua do Terreirinho, 38, 2.º, com o telefone 24448, em Lisboa. A impressão desta, assim como dos cromos, foi trabalho da Litografia Valério, também na capital.

O título não podia ser mais sugestivo: “Aventuras de Fred Bill - O Terror do Texas”! A história, composta por 120 pequenos cromos (5 x 4cm, ocupando a mancha colorida 4,5 x 3,5cm) e o respectivo texto em separado, foi distribuída por 14 das páginas da brochura. Esta distribuição não foi uniforme, pois a 9 cromos em cada uma das primeiras 12 páginas correspondem apenas 6 em cada uma das duas páginas finais.
É curiosa a crónica desta iniciativa editorial que corresponderá ao primeiro dos muitos álbuns-cadernetas sobre temáticas em BD que viriam a ser divulgados, a partir de algumas décadas mais tarde, pela Agência Portuguesa de Revistas, pelo Clube do Cromo, pela Disvenda, pela Ibis, pela Impala e, mais recentemente, pela Panini, para citar apenas as mais conhecidas editoras do género. No entanto, deve acrescentar-se que a maior parte destas colecções auto-proclamadas como BD’s não se integram exactamente nas definições correctas de Banda Desenhada, pois são constituídas por cromos que reproduzem fotogramas cinematográficos e não por desenhos em sucessão narrativa...
Tudo nascera num efémero jornal de Histórias aos Quadradinhos denominado O Pluto. Semanário, apenas durou 25 números, publicados entre 30 de Novembro de 1945 e 24 de Maio de 1946. O director d’O Pluto foi um nome famoso na história lusa da 9.ª Arte, Roussado Pinto, que deixou a sua obra ligada a muitas das melhores publicações nacionais da especialidade. Alguns entendidos na matéria consideram-no como o melhor argumentista português de todos os tempos...
Entre as várias iniciativas e rubricas patentes n’O Pluto contou-se uma história em BD - impressa a preto e branco ou a duas cores - denominada Três Balas, que, como outras, ficou incompleta. Os seus autores foram, também, personalidades de destaque no mundo dos Quadradinhos nacionais: Orlando Marques (argumento) e Vítor Péon (desenhos).

Orlando Marques, incansável autor de contos, novelas e, sobretudo, argumentos de BD, nasceu em 1921, no Funchal. Vindo para o continente, empregou-se no escritório duma firma comercial de Lisboa e dedicou-se à sua paixão literária. Estreou-se aos 18 anos, n’O Mosquito, e depois na Colecção de Aventuras, O Faísca, O Pluto (onde foi Chefe de Redacção!), O Mundo de Aventuras, Colecção Audácia, Colecção Condor, etc. Um dos criadores de BD com quem mais trabalhou em estreita colaboração foi precisamente Vítor Péon.
Vítor Péon nasceu em Luanda em 1923. Muito novo, com 10 anos, veio para Lisboa e ingressou como retocador de fotogravuras na conhecida Tipografia Bertrand & Irmãos. Começou a desenhar cartazes de montras e distinguiu-se na criação de motivos nacionais para bandejas de prata destinadas à Exposição do Mundo Português. Desde que, em 1940, se estreou na BD com uma capa para a Colecção de Aventuras, deixou a sua arte abundantemente espalhada em O Mosquito, Diabrete, O Pluto, O Papagaio, Camarada, O Século Ilustrado, O Mundo de Aventuras, Colecção Condor, Colecção Audácia, Flecha, Titã, Cavaleiro Andante, etc. Depois emigrou, vivendo na Escócia, na Inglaterra e em Paris. Voltou a Portugal, onde morreria, em 1991, ano em que também desapareceria Orlando Marques.
É precisamente Três Balas, essa obra incompleta assinada por ambos nas páginas d’O Pluto, que está na origem da caderneta de cromos que aqui e agora se revela. Esta mesma história, embora adaptada através duma remontagem sumária das imagens - agora plenamente coloridas! - e com o texto muito ampliado e dotado de uma pretensa função “didáctica”, pouco tempo depois da sua inicial divulgação na imprensa infanto-juvenil vai servir de tema a uma original colecção de cromos de rebuçados.
Na próxima semana, dedicar-nos-emos a apresentar aqui interessantes pormenores da caderneta “Aventuras de Fred Bill – O Terror do Texas”.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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