\ A VOZ PORTALEGRENSE: Manuel André Pinheiro

terça-feira, dezembro 16, 2008

Manuel André Pinheiro

Na Morte do Padre Pinheiro
*

Recentemente, a propósito da Comunicação Social em Portalegre falámos do padre Manuel André Pinheiro. Depois, o dr. Mário Freire disse-nos que o padre Pinheiro estava doente. Agora soubemos que faleceu e que o seu funeral se realizou no passado fim-de-semana em Lisboa.
Conhecemos o padre Manuel André Pinheiro na Escola Secundária Mouzinho da Silveira, há cerca de década e meia. Ao tempo era o director do semanário «
O Distrito de Portalegre». Gostávamos de conversar nos intervalos das aulas e fomos criando uma Amizade que se veio a prolongar por muito tempo.
Naquele ano, pelo 1.º de Dezembro, o padre Pinheiro acompanhou-nos ao “Jantar dos Conjurados”, uma iniciativa que a então pujante Real Associação de Portalegre realizava, mas que hoje apenas existe uma memória. Foi nesse jantar que nos convidou para escrever no jornal.
Mais tarde, mal aconselhado, o padre Pinheiro incompatibilizou-se com um administrador do jornal e escreve um editorial violentíssimo onde este é atacado de forma indirecta. Por esta razão, em seguida o senhor bispo afasta-o da direcção. Foi um período doloroso para o padre Pinheiro, que foi superando a mágoa pelo acontecido com a realização de um projecto de que foi principal impulsionador e financiador, a «Jubileu», uma revista que se integrava correctamente na celebração dos quatrocentos e cinquenta anos da elevação de Portalegre a cidade e a sede de bispado. Na ficha técnica estão como seus autores Manuel André Pinheiro, João Ribeirinho Leal e Mário Martins.
A revista foi muito bem aceite pelo senhor bispo, que desde a primeira hora acompanhou e apoiou, e pela comunidade portalegrense. Contudo, gerou grande polémica em parte do clero local, que recusou que ela se integrasse nos eventos programados para a efeméride. Este facto muito desgostou o padre Pinheiro, que vira na sua iniciativa somente mais um contributo, e que nunca se quis imiscuir com as actividades que a comissão formada para o efeito tinha programado.
Esta polémica, injusta e injustificável, acentuou-se na apresentação da revista em Portalegre, no Instituto Português da Juventude. Numa sala composta, era notada a ausência de elementos da tal comissão, que ao longo da gestação da «Jubileu» não se coibiam em público de atacar o seu mentor pela iniciativa, acusando-a de divisionista e o padre Pinheiro de provocatório. Tudo o padre Pinheiro ouviu, e a tudo não respondeu. Mas faz no IPJ um discurso rude, trazendo à tona as angústias que o consumiam.
A «Jubileu» também foi apresentada em Abrantes e Castelo Branco. Na quarta cidade da diocese, Ponte de Sôr, o pároco, com palavras simpáticas, não julgou oportuna, necessária, conveniente a apresentação.
Em Abrantes, numa tarde de frio e sol, e perante a maior assistência de todas as apresentações, a «Jubileu» foi recebida com carinho e respeito. E de lá se abalou para Castelo Branco, onde numa sala literalmente cheia, e com a nossa maior perplexidade, dois cónegos da cidade fizeram um autêntico comício pró-restauração da diocese de Castelo Branco. Parecia que esse era o motivo principal do acontecimento e não a apresentação da «Jubileu».
De facto, foi em Portalegre que a apresentação foi mais fraca em termos de assistência. E era esta cidade que a revista «Jubileu» queria homenagear! A mediocridade em todo o seu esplendor.
Reformado do ensino, o padre Pinheiro continua o seu múnus na paróquia da Ribeira de Nisa, uma freguesia do conselho de Portalegre. Em paralelo começa a escrever um livro de teologia, que virá a publicar mais tarde junto com um outro de cariz mais autobiográfico. Mas cresce a conflituosidade com os seus pares, sempre mal aconselhado, e num tempo em que a saúde o obriga a uma estada em Lisboa, junto da família e para tratamento, prolonga essa permanência, ajudando numa paróquia próxima.
Todavia, continua a corresponder-se com o senhor bispo, e nas cartas mostra uma vontade forte de regressar a Portalegre. Essa vontade vai sendo adiada, e quando regressa à diocese não fica em Portalegre como gostava, mas vai para a paróquia do Sardoal, na chamada “zona do pinhal”.
É no período em que dialoga por carta com o senhor bispo que pela última vez conversámos. O padre Pinheiro telefona-nos a perguntar a nossa opinião sobre o seu hipotético regresso a Portalegre. Com a maior franqueza, e porque tínhamos dados que iam no sentido do padre Pinheiro não vir a regressar à cidade e ao seminário diocesano, dissemos-lhe que pensávamos ser ideia melhor continuar junto da família, então a Mãe estava perto dos cem anos e era também em Lisboa que estava a Irmã e os Sobrinhos.
Na altura não percebemos a irritação sentida pela nossa resposta, que ia em contrario com o desejo do regresso. E a partir daquele momento, nunca mais falámos ou vimos o padre Pinheiro. Depois ainda lhe enviámos um número da revista «Ave Azul», que entretanto saíra, e pelo Natal seguinte um cartão de Boas Festas, nunca tendo havido qualquer resposta. Temos a maior das penas que assim tivesse acontecido. Quanto lamentamos.
Depois que o
padre José Dias Heitor Patrão deixou a direcção de «O Distrito de Portalegre», e nós saimos um mês depois no mesmo momento da saída da diocese de D. Augusto César como bispo emérito, portanto já ambos não estávamos no jornal, saiu um artigo do padre Pinheiro, onde escrevia que no período em que o padre Patrão e nós estávamos em lugares de direcção, “o jornal tinha sido tomado por um grupo de aventureiros políticos”.
Que se diga que o padre Patrão sempre publicou tudo o que o padre Pinheiro enviava para «O Distrito de Portalegre», e com o maior destaque. Mas o padre Patrão e nós sabíamos e sabemos que, e uma vez mais, o padre Pinheiro andava a ser mal aconselhado. E por quem.
Com toda a verdade, o padre Pinheiro era um Homem de Bem. E Acreditava!
Quiçá o seu maior defeito era fazer fé em tudo o que lhe diziam. Desta forma, servia de “carne para canhão” nas querelas em que entrava, nunca sendo parte interessada. Tomava sempre um dos partidos e era vítima dos excessos verbais que então formalizava. Foi esta a razão do seu desterro em Lisboa.
Já no Sardoal, o padre Pinheiro viu um grande sonho realizado: a edição das suas obras. Nunca tivemos contacto com elas. Por terceiros ouvimos falar de excertos, os quais eram muito doridos.
Nunca “recuperara” da saída da direcção de «O Distrito de Portalegre» e do não regresso a Portalegre cidade.
Nesta parte final da sua vida, do Sardoal fez a ponte com Portalegre através de gente que sempre o aconselhou mal e dele se serviu. Não merecia tal sorte. Vivia em sofrimento físico e moral.
O padre Pinheiro era um Homem Bom!
Que a sua Alma descanse em Paz.
Mário Casa Nova Martins
Jubileu

Free web page counter