\ A VOZ PORTALEGRENSE: Plágio

terça-feira, outubro 21, 2008

Plágio

PURGATÓRIO Plágios
NADA TENHO contra plágios. Desde que os plágios sejam criativos e, como diria Dryden sobre Jonson, possam construir novos mundos sobre velhos autores. T.S. Eliot, o maior poeta do século XX (opinião pessoal), provavelmente não existiria sem roubos divinos a poetas menores, como o esquecido Madison Cawein. Lytton Strachey, que praticamente fixou para a posteridade a imagem que hoje temos dos vitorianos, roubou vasta e impunemente aos seus pares (como Edward Tyas Cook ou A. P. Staniey, que obviamente não deixaram rasto). Só os plágios preguiçosos me incomodam: a cópia pura e simples, sem nenhum esforço de criação ou continuidade. É como entrar na casado autor, roubar-lhe as pratas — e nem sequer deixar uma gorjeta, uma palavra, um obrigado.
Há duas semanas, num exercício que define a inteligência da tribo e a cultura de rapina que por lá abunda, o «Jornal de Angola» resolveu transcrever e mutilar um artigo meu (da «Folha de São Paulo») atribuindo a autoria da coisa à BBC. Agradeço a honra da nobilitação anglófila; mas seria assim tão difícil roubar-me o texto e, já agora, disfarçar com competência a natureza do acto?
Tudo ao contrário de Rui Cartaxana, o veterano cronista do «Record», a quem envio um grande abraço. Mostrando esforço e até respeito pelo original, Cartaxana leu o meu texto sobre o programa Liga dos Últimos (publicado há duas semanas no «Expresso») e depois reescreveu o dito com certo «panache», sem, no entanto, conseguir ocultar inteiramente a tese, a estrutura e algumas frases ou expressões deste plumitivo que vos fala. Em Angola, rouba-se; em Portugal, pede-se emprestado. Talvez esta diferença seja a melhor definição sobre o antigo colonizador e o antigo colonizado.
João Pereira Coutinho
in, 22 REVISTA ÚNICA - 18/10/2008 - Expresso

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