\ A VOZ PORTALEGRENSE: Inquirições IV

sexta-feira, junho 06, 2008

Inquirições IV

A Prova
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Parece que nem tinha chegado a tocar com os dedos na porta, e eis que se abre como que por obra de um impulso mental da minha parte. Dou um passo em frente. Entro um pouco a medo. A sala não tem nenhuma abertura por onde possa entrar uma réstia de luz. Mas mesmo assim consigo vislumbrar que tem a forma de um triângulo e que não tem nada dentro. As paredes, o tecto, o chão estão despidas de qualquer ornamento.
Não sinto qualquer constrangimento. A decisão foi correcta. Avanço em direcção ao circuncentro. Tudo parece em conformidade com a racionalidade dos elementos. Afinal não há razão para temer o desconhecido. Só os ignorantes temem o que não conhecem. O medo é gerado pela ignorância. A razão tudo explica. Não vale a pena negar. Os sentidos são um produto da razão. Sinto, logo existo.
Acredito na razão. Fecho os olhos. Os meus sentimentos estão plenos de certezas. À mente começam a chegar sensações. Invade-me um prazer imenso. Vejo que à minha volta tudo é claro, em meu redor há uma luz forte. Não sei a sua fonte, mas o meu pensamento brilha com aquela luz. Nada do que ou em que penso é escuro. Sei que a vida é luz.
À vida está associada a luz. E quando o afirmo, começo a ouvir umas vozes indistintas. Há imagens associadas a esses murmúrios. Aproximam-se de mim. Quero resguardar-me junto a um qualquer vértice da sala, mas não consigo deslocar-me em nenhum desses sentidos. Sinto que os meus pés estão a elevar-se do chão. Não consigo contrariar a anormalidade na lei da gravidade. Subo. Estou quase a atingir o tecto.
Agora, os vultos estão mesmo por debaixo de mim. São gente. Parece que não me vêem ou que simplesmente me ignoram. As palavras que proferem são horrendas. Falam de Alguém que se dizia O Messias e que mataram. Estão felizes. Fizeram o que tinham que fazer. E Deus está contente. Era um blasfemo.

Felicidade, por uma Vida aniquilada!
Mário Casa Nova Martins

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