\ A VOZ PORTALEGRENSE: Crónica de Nenhures

sábado, abril 26, 2008

Crónica de Nenhures

capa / 22-04-08
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A capa que nunca existiu
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Já não é do nosso tempo. Mas continuamos a ouvir o seu nome aos mais velhos. Também sabemos que há coisa de meia dúzia de anos morreu a sua última Menina. Esta ficara e casara por cá. Todos a respeitavam. Conhecíamo-la de vista, e hoje quando nos cruzamos cumprimentamos o Viúvo. Este era empregado do Jorge Arranhado e adepto ferrenho do outro Clube, o “inimigo”, o Estrela. É uma pessoa amável e está no Lar da Santa Casa da Misericórdia.
Maria da Estrela tinha uma Casa de Meninas na Rua de São Lourencinho, onde segundo os doutos historiadores do burgo foi a Judiaria. Quando a Lei proibiu esta actividade rendosa, já era tarde para Maria da Estrela mudar de ramo. Mas a fama de pessoa séria e casa de boa clientela e de excelente qualidade ficou. Ainda hoje, quando se refere o nome de Maria da Estrela, há um sinal de respeito, o qual era o cartão-de-visita da Casa.
Quando passamos pela Rua de São Lourencinho, e passamos à porta da Casa, porque também há muito que nos disseram onde era essa Casa de Saudosa Memória, tentamos imaginar como seriam aqueles tempos. Burgueses disputariam as Meninas. Lavradores das redondezas teriam a sua Menina por conta. Quantas histórias nos contaram de gente que quando vinha à Cidade em dia de Mercado ou de Feira não perdia o hábito de visitar a Maria da Estrela!
A discrição de Maria da Estrela era condição para que o negócio prosperasse. E prosperava! Mas uma Lei do Salazarismo acabou com um Arte tão antiga como o Mundo.
Maria da Estrela continuou a receber em sua Casa os Amigos, que nunca se conformaram com o facto. Porém, tudo já era diferente. As Meninas já não precisavam de ir ao médico, como antes semanalmente, a rotina da vida alterou do dai para a noite. Mas os outros, os anteriores tempos eram tempos mais saudáveis, mais puros, mais verdadeiros.
E o tempo foi passando. O nome de Maria da Estrela continuou respeitado. Mas nunca nenhuma Comunicação Social se interessou pela sua História de Vida. Morreu no anonimato. Nunca teve uma notícia a seu respeito num qualquer pasquim, e, claro, nunca a sua fotografia apareceu numa primeira página. E merecia. Fez mais por Portalegre que a grande maioria daqueles a quem o nome foi dado a uma Rua da Cidade. Que ninguém duvide!
Maria da Estrela é um ícone de Portalegre da primeira metade do século XX. Merece ser lembrada.
Viva a Maria da Estrela!
Mário Casa Nova Martins

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