\ A VOZ PORTALEGRENSE: JUDEU = AGIOTA

sábado, fevereiro 09, 2008

JUDEU = AGIOTA

JUDEU = AGIOTA
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Está o semanário “Sol” a oferecer livros, que integram a «Colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças».
O segundo livro corresponde a este sábado e é intitulado «Auto da Barca do Inferno», de Gil Vicente, “Adaptado para os mais novos por Rosa Lobato de Faria, Ilustrações de Gabriela Sotto Mayor”.
Ora este Auto é dos mais conhecidos e admirados de Gil Vicente. Pois não é que o politicamente correcto o funestou! O diálogo entre o Diabo e o Judeu, agora é entre o mesmo Diabo e um Agiota!
No original vicentino (1) lê-se:
_ Vem hum JUDEU com hum bode às costas, diz ao Diabo:
JUDEU …
DIABO …
Na adaptação (2), lê-se:
_ (chega um agiota)
Agiota:

Diabo:


Ora, concluir-se-á que o significado de hoje da palavra “agiota” corresponde ao significado da palavra “judeu” no tempo de Gil Vicente. Logo ‘Judeu’ é equivalente a ‘Agiota’. Um Judeu é um Agiota!
Recorrendo agora ao dicionário (3), “agiota. s. 2 gén. pessoa que exerce a agiotagem; especulador de fundos; usurário; prestamista
Eis, pois, o que um judeu é, “pessoa que exerce a agiotagem; especulador de fundos; usurário; prestamista”.
Estudámos o «Auto da Barca do Inferno», na versão vicentina, no Liceu. Não recordo que eu ou nenhum dos meus Colegas se tivesse “transformado” em anti-judeu por ter lido aquela obra-prima do nosso Teatro. Nem pró-judeu, evidentemente!
Mas hoje os tempos são outros, e o medo das palavras conduz a estupidezes como esta levada a cabo por Rosa Lobato de Faria.
Como se rirá, onde quer que esteja, Gil Vicente, da actual estupidez humana, afinal não muito diferente da do seu tempo, um tempo que ele divinalmente retratou na sua Imortal Obra!
MM
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(1) Obras Completas de Gil Vicente, Livraria Civilização-Editora, 30/11/1974, p.64
(2) Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, Adaptado para os mais novos por Rosa Lobato de Faria, Ilustrações de Gabriela Sotto Mayor, Edições Quasi, Fevereiro de 2008, sem paginação numerada (p.12?)
(3) Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª Edição, 1987, p.50

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